Crítica | Cidade dos Anjos [Aniversário de 15 anos]

Cidade dos Anjos é um filme como poucos. Ou melhor, é um romance como poucos. Mesmo quando comparado ao seu longa original, Asas do Desejo, ainda assim o filme não deixa de encantar tanto aqueles que já se emocionaram diversas vezes com sua história de amor impossível como os que ainda pretendem visitar esta refilmagem que, na opinião de muitos, é superior ao original de Wim Wenders.

Tecendo comparações ou não, o fato é que Cidade dos Anjos talvez esteja entre os romances mais belos já feitos por Hollywood por muitos anos, e aqui o coloco rivalizando com títulos como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Antes do Amanhecer e Diário de uma Paixão. O diretor é Brad Silberling, que com exceção de alguns capítulos de seriados de TV, havia apenas dirigido o infantil Gasparzinho, o Fantasminha Camarada, mas surpreendeu ao trazer para a terra do Tio Sam a história de uma paixão inusitada entre um anjo e uma humana, e ainda assim conseguir ser tão sensível e tocante quando Wim Wenders foi em sua primeira versão.

Seth (Nicolas Cage) é um anjo que vaga pela Terra consolando as almas desesperadas dos humanos ao lado de seu parceiro Cassiel (Andre Braugher). Um dia, Seth se vê lado a lado com a cirurgiã Maggie (Meg Ryan), uma mulher bastante dedicada a sua profissão e que se abala ao perder um paciente durante uma operação. Ambos acabam se encontrando várias vezes, e aos poucos um sentimento maior vai surgindo entre ambos, porém incapaz de ser realizado devido a condição de Seth. E para poder ficar ao lado de Maggie, Seth toma uma decisão ousada e que irá acarretar diversas mudanças na vida dos dois.

Dadas as circunstâncias da história, Cidade dos Anjos pode ser assumido como um filme sobre o choque de culturas, de realidades diferentes, mas que são guiadas por um sentimento em particular: a necessidade de ajudar o próximo. Reparem nas primeiras cenas envolvendo o personagem de Cage: enquanto que o desespero cerca as pessoas ao redor, o semblante deste permanece calmo e sereno, denotando o quanto aquela situação é recorrente em seu dia-a-dia. Quando começa a se aproximar de Maggie, entretanto, Seth começa a criar a dúvidas e indagações, sente-se confuso em relação aos seus sentimentos tão semelhantes aos de Maggie, inesperadamente “humanos”.

Brad Silberling desenvolve a aproximação entre estas personalidades de mundos diferentes através de um trabalho narrativo bastante minucioso e cuidadoso. A chave está na própria diversidade do cotidiano dos personagens: basta reparar no tom da convivência introspectiva de Seth com os outros anjos, e na correria que o dever impõe sobre a vida de Maggie. Silberling nos convence de tal forma sobre este outro universo, e sobre a aproximação destas realidades tão diferentes, que nos sentimentos imediatamente atraídos e fascinados pelas diversidades da aproximação entre estes personagens, sempre tão distantes e, a partir daquele momento, tão próximos um do outro. Silberling cria cenas emocionalmente devastadoras, como quando Maggie chora numa escada após perder um paciente na mesa de cirurgia, e outras visualmente arrebatadoras, como a reunião dos anjos na praia ao pôr-do-sol.

Hoje em dia chafurdado em sua própria lama e colecionando um erro atrás do outro, o filme serviu como uma pausa na carreira de Nicolas Cage, que na época se limitava aos projetos de ação, mesmo após ter levado um Oscar para casa por sua interpretação em Despedida em Las Vegas. Cage está perfeito no papel: suas expressões angelicais e seu tom de voz calmo distanciam o ator do overacting que este costuma carregar em suas atuações. Já Meg Ryan, num papel mais intenso e obstinado, está bastante à vontade como a médica que precisa lidar com o súbito surgimento de uma paixão que, devido a sua condição, se mostra impossibilitado de correspondê-la.

Cidade dos Anjos peca somente na pressa com que deseja trazer um ponto final para a história, mas Silberling contorna este problema ao tornar este romance fora dos padrões numa experiência envolvente, com belíssimos momentos, uma fotografia espetacular (poucas vezes vi a cidade de Nova York tão bem iluminada) e uma trilha sonora recheada por canções que complementam perfeitamente suas cenas, trazendo faixas de Jimmy Hendrix, U2, Frank Sinatra e The Goo Goo Dolls. Gostando ou não gênero, Cidade dos Anjos é, inegavelmente, um filme apaixonante.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.