Crítica | Cidade dos Sonhos

estrelas 5,0

A filmografia de David Lynch poderia ser facilmente associada a algumas palavras específicas – sonhos, surrealismo, interpretação são algumas dessas que tão bem definem o que o realizador nos entrega ao longo de sua carreira cinematográfica. É natural que, após assistir uma obra do diretor, o espectador imediatamente entre em uma jornada por respostas, pelo real sentido por trás das imagens que acabou de assistir. Vem quase como uma ironia, portanto, a postura de Lynch de se recusar a entregar o real significado por trás de seus filmes, isso porque ele já sabe o que todos deveriam ter em mente quando começam a ver uma de suas obras: o seu significado é ditado por nós, espectadores. O que vemos na tela, grande ou pequena, é influenciado pelas nossas próprias vivências, sensações, emoções do momento. Dito isso, ouso dizer que os longas de Lynch são tanto dele quanto nossos, que mergulhamos nessas narrativas não-didáticas e amplamente imersivas.

Cidade dos Sonhos, cujo título original, Mulholland Drive, jamais deveria ter sido traduzido, justamente pelas questões levantadas acima, não foge da livre interpretação tão comum à filmografia do realizador. Sim, ele já disse que há um sentido bem específico dentro das imagens que constrói nesse particular longa-metragem, mas prefiro encará-lo como um espelho de nossas percepções, um loop que transforma o filme naquilo que vemos e não necessariamente aquilo que ele realmente é. Assistir Mulholland Dr. é como recordar de um sonho que nós próprios tivemos, uma narrativa despreocupada com um início ou fim, como se fosse formada unicamente pelo desenvolvimento, esse estendendo-se ad aeternum, primeiro no filme, depois em nossas mentes.

Não existe, portanto, uma forma única de definir a trama do longa-metragem. Afinal, como decidir se a história é sobre Betty (Naomi Watts), garota que recentemente chegara a Hollywood e acaba conhecendo Rita (Laura Harring), uma mulher que perdera sua memória e que necessita da ajuda de Betty para relembrar quem verdadeiramente é; ou sobre Diane, também vivida por Watts, uma frustrada atriz cuja vida começa a desmoronar diante de seus olhos? Essa não é uma história cujo enredo deve ser entendido, ele deve ser sentido, explorado, vivenciado, não para descobrirmos o que há por trás dele, mas que possamos viajar (em todos os sentidos da palavra) nesse grande sonho, fantasia ou realidade construída por Lynch. Essa é uma obra que será recebida de maneira diferente todas as vezes que a experimentarmos e de maneira singular, única, por cada pessoa.

Poderia jogar inúmeras teorias aqui sobre o que é desenvolvido nesses cento e quarenta e sete minutos de projeção, poderia dizer que metade do filme foi apenas sonho de Diane, ou que tudo não passa de duas diferentes realidades que se entrelaçam aqui e lá; poderia, também, dizer que tais histórias fazem parte de um eterno ciclo, vivido pela mesma pessoa em diferentes encarnações. Mas a magia de Mulholland Dr. está justamente nas confabulações a serem realizadas pelo espectador, que sempre terá o que analisar, independente de quantas vezes (re)assistir a obra.

Naturalmente que Lynch não deixa fácil para nós, nos impedindo de chegar a uma única conclusão em razão de sua direção, que parece brincar constantemente com nossas expectativas. Enxergamos isso com clareza com os lentos movimentos de câmera, que transformam a narrativa em um grande sonho, como se flutuássemos diante das personagens. Seus planos quase sempre em movimento, mesmo que sutis, impedem que relaxemos, ele cria o suspense nas mais simples das situações, remetendo aos clássicos filmes noir, mas com a pitada certa de surrealismo, que garante sua identidade ao filme. Em momento algum sabemos ao certo quem são os personagens, visto que todos são envoltos em uma atmosfera de desconfiança, como se algo estivesse fora do lugar. Tornamo-nos, portanto, os detetives desse noir, tentando decifrar aquilo que experimentamos, que observamos, do passivo observador passamos para o ativo investigador, enquanto criamos mil e uma teorias e descartamos outras dois mil.

A montagem de Mary Sweeney dá cabo do serviço do roteiro, flertando com a não-linearidade sem jamais estabelecer essa como absoluta. Diversos focos nos são apresentados, intercalando-se entre si, gerando em nossas mentes inúmeras questões: são diversos sonhos encadeados? Realidades distintas que dialogam entre si? Peças de um grande quebra-cabeças? Como tudo no filme, cabe a nós próprios respondermos tais questionamentos da maneira que preferirmos e o melhor aspecto disso tudo é que tais respostas irão se alterar com o passar do tempo, fazendo dessa uma experiência dinâmica, que se renova constantemente, impossibilitando-nos de livrarmos nossas mentes assim que os créditos começam a rolar. Esse é um filme que gera a inquietude e que não se faz completo sem ela.

Mulholland Dr. constitui-se, portanto, como uma tarefa, um dever cansativo de interpretação, como uma necessidade absoluta de realizarmos algo, sem jamais obtermos êxito por completo. Não é um filme para simplesmente ser assistido, ele deve ser sentido, desvendado, investigado e, claro, apreciado, requerendo do espectador que se entregue plenamente, sem ansiar por uma resposta, mas disposto a pensar, refletir, lutar por ela. David Lynch nos tira da passividade e nos transforma em detetives nessa sua obra-prima, que há de ser enxergada de maneira diferente todas as vezes que a assistirmos novamente e, no fim, se pensarmos em determinadas palavras para definirmos o que é Cidade dos Sonhos, podemos dizer que sonhos, surrealismo, interpretação são algumas das que vêm à mente.

Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr.) — EUA/ França, 2001
Direção:
David Lynch
Roteiro: David Lynch
Elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Jeanne Bates, Dan Birnbaum, Robert Forster,  Brent Briscoe, Michael J. Anderson, Bonnie Aarons
Duração: 147 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.