Crítica | Cimarron (1931)

estrelas 2

Cimarron é um épico que, com suas várias falhas, encapsula muito bem o chamado espírito americano. Seu protagonista, o advogado/pistoleiro/pastor/editor Yancey Cravat é muito mais um símbolo do que um personagem; é o desejo de expansão, de crescimento, de desenvolvimento, um homem maior que definições, maior do que a família. É o próprio Estados Unidos.

E, tendo sido produzido quando o país estava mergulhado em sua mais grave crise econômica, com a produtora RKO investindo pesado sem retorno a vista, o filme foi um sucesso e, não surpreendentemente, conquistou o Oscar de melhor filme, além de melhor roteiro adaptado e melhor direção de arte, na quarta edição da festa. No entanto, desses três prêmios, talvez o único realmente merecido tenha sido o de direção de arte, pois a produção em si falha em muitos aspectos e muitas das falhas vêm do roteiro, baseado em romance de Edna Ferber, famosa por obras como Show Boat e Giant (ambas transformadas em musicais e filmes).

Um épico que começa em 1889 na Corrida por Terras de Oklahoma, quando o governo americano comprou terras indígenas, dando-as a colonos para a expansão e acabando em 1930 com o boom da indústria do petróleo em meio a recessão, a produção tem foco em Yancey Cravat, irrequieto personagem que nunca está satisfeito com o que tem. Ele participa da corrida pelas terras, não consegue o que quer, volta para casa, pega sua esposa Sabra e seu filho pequeno Cim (de, claro, Cimarron) e parte para Osage, cidade que surgiu no nada em razão da corrida por terras, para abrir um jornal. Pouco sabemos do personagem e pouco aprendemos durante o filme. Ele aparentemente conhece todo mundo e já fez de tudo, mas seu passado enevoado nunca é explicado, assim como não são explicados seus dois desaparecimentos abruptos da história.

A não ser, claro, que o espectador interprete sua existência como o tal espírito americano que mencionei logo no parágrafo de abertura. Assim, ele seria quase que a encarnação desse ideal, do pioneirismo e pouco importaria como personagem crível dentro da estrutura narrativa. Ele é tolerante com negros e com nativos. Defende prostitutas. Fica deprimido quando é obrigado a matar um bandido. Ele é o “mocinho” perfeito, sempre a frente de seu tempo, sempre pronto para se sacrificar.

O grande problema é que o roteiro não se esforça nem um pouco para integrá-lo à história. Sua presença é sempre exagerada e destacada de todo o resto, muito também em razão da atuação teatral de Richard Dix, com sua maquiagem pesada e seu cabelo absolutamente ridículo (especialmente na sequência diante do júri, logo depois que volta de seu primeiro desaparecimento de cinco anos).

Com isso, é difícil simpatizar com a figura e, como ele toma de assalto cada fotograma em que aparece, todos os demais personagens tornam-se subdesenvolvidos. A única possível exceção é Sabra, vivida por Irene Dunne, como a esposa paciente que espera a volta do marido e aceita todos os seus comandos, mas que, de repente, para a fechar o filme, é convertida em uma congressista. Um filme a frente de seu tempo, que defende a emancipação da mulher? Possivelmente, mas os pulos temporais deixam tantos buracos na narrativa que a produção parece um formulário cheio de espaços em branco que somos obrigados a preencher, aceitando passivamente o conteúdo.

O roteiro perdido, porém, tem como pano de fundo a cidade de Osage, que, por sinal, assim como Yancey, também representa os Estados Unidos. E é aqui que a direção de arte se destaca de todo o resto. Em um realmente formidável e muito bem pesquisado esforço, vemos terras nuas se transformarem em um amontoado de pessoas com semblante de sociedade, em um vilarejo de faroeste, em uma cidade com sistemas de locomoção e, finalmente, em uma metrópole com prédios altos. O esmero com a representação detalhada de cada época é visível e de se aplaudir. Dos figurinos aos cenários, acompanhamos organicamente o surgimento de uma nação, de uma terra tomada dos nativos até um Estado completo em um fascinante exercício histórico.

É uma pena que o passo claudicante de Cimarron, atrapalhado por um roteiro que tenta ser mais símbolo do que história, dificulte e muito a apreciação do caráter histórico da produção. É um daqueles filmes que só são lembrados mesmo por terem levado a estatueta dourada.

Cimarron (Idem, EUA – 1931)
Direção: Wesley Ruggles
Roteiro: Howard Estabrook, Louis Sarecky (baseado em romance de Edna Ferber)
Elenco: Richard Dix, Irene Dunne, Estelle Taylor, Nance O’Neil, William Collier Jr., Roscoe Ates, George E. Stone, Stanley Fields, Robert McWade, Edna May Oliver, Judith Barrett, Eugene Jackson
Duração: 123 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.