Crítica | Cimbelino (1983)

estrelas 3

Filmes adaptados do palco do teatro para meios audiovisuais tendem a perder a postura de aproximação, a cadência dos diálogos perde força no caminho porque é levantada uma quarta parede, por onde o espectador acompanha a história. E essa distanciação, é reforçada pela falha em conseguir inserir o texto em uma dinâmica pensada para um meio que se baseia no apelo visual na filmagem de uma das últimas obras de Shakespeare, Cimbelino.

O filme tem de ser avaliado de acordo com a época e o meio em que foi feito. A versão britânica de 1983 foi feita para a televisão. Isso significa que a qualidade técnica é restrita ao formato televisivo e aos recursos disponíveis. Dentro desse contexto, as cenas são compostas como quadros fixos, que estão ali só para amparar e ambientar os diálogos, muitas vezes com foco em monólogos.

Com uma história regada por outras fontes já renomadas do autor, é possível identificar a mocinha que tem de enfrentar obstáculos pelo amor de um homem tido como inadequado pela família dela. Alguns atributos do filme podem muito bem remeter à Romeu e Julieta, que é a associação mais fácil por conta também do veneno mortal que adormece a donzela.

O enredo é baseado no rei da Britânia, Cimbelino, que sofre a angústia de ter tido dois filhos homens sequestrados. Assim, ele fica com apenas uma herdeira mulher que vai movimentar a história toda. Na trama, a mulher só alcança a credibilidade perdida com o marido, arruinada por uma armação para difamar a honra da mocinha, ao se vestir feito homem e seguir em uma jornada para provar sua inocência. Somente como homem havia a liberdade para reaver seu papel como mulher na história.

Essa trajetória caminha com nuances, já que esse título é classificado como tragicomédia. O que significa que, embora o tema da manipulação, da ganância e o lado obscuro do ser humano esteja presente em grande parte do texto, há espaço para um final feliz.

Embora a performance do elenco britânico ser respeitável e contar com a atriz Helen Mirren como a mocinha, o texto foi escrito para um certo tipo de interpretação e dinâmica de palco, o que na televisão torna o filme enfadonho e longo demais, sem muita ação, nem grande elaboração na montagem ou captação das imagens. Isso torna difícil a tarefa de reter a atenção do espectador.

Uma nova versão da peça foi adaptada por Hollywood. Dessa vez, os roteiristas transferiram o cenário para os dias atuais e o conflito de Cimbelino (2014) se tornou uma guerra entre policiais corruptos e traficantes motociclistas, com um casal preso à essa dicotomia.

Cimbelino (Cymbeline, 1983)
Diretor: Elijah Moshinsky
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Helen Mirren, Michael Pennington, Claire Bloom, Richard Johnson.
Duração: 175 min

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.