Crítica | Cinco Covas no Egito

estrelas 3,5

Cinco Covas no Egito (1943), foi o terceiro filme dirigido por Billy Wilder, o segundo após a sua chegada nos Estados Unidos. O diretor começou a sua carreira cinematográfica na França, em 1934, com Semente do Mal, um drama social que já demonstrava algumas preocupações e tendências estilísticas melhor desenvolvidas com o passar dos anos, a saber, a preocupação com o foco psicológico de suas personagens, a incursão de pelo menos um forte elemento social, e por fim, uma finalização quase cruel, um pouco irônica, cínica, cômica ou nervosa, dependendo do filme em questão, para o dilema de seus personagens.

Baseado na obra de Lajos Bíró, autor que teve muitos de seus romances adaptados para o cinema, com destaque para Tentação da Carne (1927), Os Amores de Henrique VIII (1933), O Poder de Richelieu (1937) e Czarina (1945), Cinco Covas no Egito tem um argumento digno de um suspense político ou propagandístico de guerra, sensação ressaltada a cada grande momento pela potente música de Miklós Rózsa (perceba que esse filme foi praticamente feito por imigrantes europeus fugidos da Guerra, do diretor até parte da equipe técnica e alguns atores) e pela grande atenção de perseguição e consequente suspense que temos o tempo todo.

Wilder dividiu a escrita do roteiro com Charles Brackett, autor que se tornaria um colaborador recorrente do diretor nos anos seguintes. O foco que os roteiristas trazem para história é mesmo o de superação moral e egoica de um soldado britânico que tem o seu destacamento no deserto eliminado mas consegue sobreviver, chegando a um hotel ocupado apenas por duas pessoas — uma francesa chamada Mouche (Anne Baxter) e um egípcio chamado Farid (Akim Tamiroff). Não demora muito e um destacamento nazista comandado pelo Marechal Erwin Rommer (Erich von Stroheim) toma conta do hotel em ruínas e faz dele a sua base.

O trabalho com a polêmica da colaboração na guerra então vem à tona. É sutil, mas muito funcional a exposição de uma linha entre servir aos interesses de um Exército inimigo e defender sua pátria e os ideais de uma Europa então esmagada pelo avanço vitorioso das tropas alemãs. Sendo um filme de 1943, quando as coisas começavam a mudar de lado no andamento da Guerra, o filme traz justamente um sintoma de seu tempo: a derrota inicial e a virada de jogo em algum ponto da trama. É evidente que não há uma finalização positiva, uma vez que a Guerra ainda não havia acabado, mas o clima de vitória e o avanço das tropas aliadas é o grande destaque do final, mesmo havendo o solene encontro entre o soldado “do Exército errado” e a misteriosa Mouche, em um momento solene e inesquecível.

O que incomoda na obra é a teatralização do início, com os soldados caindo mortos, e o tanque perdido no deserto. Também em um momento específico do desenvolvimento do filme o elemento de “quebra dramática” que o sustentava, falha. Não que a descoberta do verdadeiro Paul Davos morto e o falso Paul Davos, como um soldado inglês disfarçado, tenha sido ruim para a trama. Isso deveria acontecer uma hora ou outra. Mas o que acompanha essa descoberta é um pequeno deslize na condução geral do roteiro, o que de certa forma, aliado à estranha teatralização do início, acaba impedindo o seu pleno aproveitamento.

Não sei se o tema da Guerra era pessoalmente complicado para Billy Wilder. Em outro filme, A Mundana (1948), ele voltaria com a questão da colaboração e outras questões em torno dos nazistas e inimigos aliados, caindo em pequenos erros de desenvolvimento que, novamente, acabaram colocando tropeços na qualidade total da obra, exatamente como acontece aqui.

Seja como for, Cinco Covas no Egito é um bom filme, a despeito dos já citados pequenos deslizes. A música, a fotografia, a edição e a direção de arte são notáveis na reconstrução da época e trabalho com o mínimo de material possível, o que torna a obra visualmente bela e mantém mais um atrativo para público, além das excelentes interpretações do elenco. Não se trata de uma obra brilhante de Billy Wilder, mas é uma obra de Billy Wilder. E como se isso não bastasse, é um filme sobre a guerra rodado durante a Segunda Guerra Mundial, o que para interessados no tema é o bastante para marcá-la com o selo de “precisa ser visto”.

Cinco Covas no Egito (Five Graves to Cairo) – EUA, 1943
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder
Elenco: Franchot Tone, Anne Baxter, Akim Tamiroff, Erich von Stroheim, Peter van Eyck, Fortunio Bonanova
Duração: 96 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.