Crítica | Cinco Estrelas

estrelas 2

Keith Miller, premiado pelo seu filme anterior, Welcome to Pine Hill, nos mergulha de cabeça na realidade das gangues nova-iorquinas. De uma crueza sórdida, Cinco Estrelas chega a ser assustador em diversos pontos, trazendo grandes similaridades com a linguagem documental. Ainda assim certos deslizes bloqueiam nosso completo aproveitamento da obra.

A trama gira em torno da relação entre Primo (James “Primo Grant), o líder da gangue Bloods, tanto no filme quanto na vida real, e sua relação com o jovem John (John Diaz), cujo pai, antigo líder da gangue, foi assassinado há anos. O menino, conforme é introduzido nessa violenta cultura, aos poucos começa a rebuscar o seu passado, tentando encontrar o assassino de seu pai, ao passo que enxerga com maior clareza o perigo que se encontra.

O realismo de Cinco Estrelas é, de fato, sua maior qualidade. A escalação de não-atores, como o enigmático Primo, nos faz acreditar completamente naquela história – o que vemos são pessoas vivas e não simplesmente personagens cumprindo seus papeis na narrativa. Ao mesmo tempo, esse registro ausente dos costumeiros floreios das obras ficcionais, enfraquece nossa imersão, trazendo um problema de ritmo para o texto que tem dificuldade em nos trazer algum tipo de identificação com os personagens principais. Não temos em John uma efetiva progressão de personagem – ao invés disso, ele oscila de forma artificial entre um retrato dos seus arredores e um jovem que se distancia daquela violência constante.

O que nos distancia desse evidente deslize do longa-metragem é a utilização constante da câmera na mão, nos trazendo a impressão que estamos atrás daqueles indivíduos filmando suas vidas. A primeira sequência da obra, um longo monólogo de Primo sobre como ele perdeu o nascimento de seu filho, é a prova dessa intenção em emular, em determinados momentos, o documentário, quebrando, mais uma vez, a barreira entre ficção e realidade. A ausência quase que total de uma trilha sonora não-diegética ressalta esse fator com harmonia.

Mais uma vez, contudo, o roteiro falha em se aliar aos demais fatores do longa, nos trazendo algumas situações soltas que não ocupam um papel narrativo relevante no filme. A relação entre John e sua namorada, por exemplo, parece perdida no meio da projeção e não gera a menor repercussão para os eventos principais. Mais uma vez voltamos à artificialidade da construção de seu personagem, que se apoia unicamente na cultura ao seu redor e peca pela falta de um foco mais intimista.

Com uma proposta interessante, Cinco Estrelas, é um longa-metragem que não passa disso. Trata-se de um filme que simplesmente passa por nós, não causando o impacto desejado. Vale como um olhar para a cultura das gangues nova-iorquinas, mas definitivamente não se categoriza como uma obra essencial.

Cinco Estrelas (Five Star – EUA, 2014)
Direção: 
Keith Miller
Roteiro: Keith Miller
Elenco: James ‘Primo’ Grant, John Diaz, Wanda Nobles Colon, Jasmine Burgos, Jaiden Kaine
Duração: 83 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.