Crítica | Cinderela (1950)

estrelas 4,5

É impressionante a capacidade da Disney em criar versões definitivas de personagens folclóricos, literalmente apropriando-se deles ao ponto de desavisados acharem que realmente tais criações são originalmente desse magnífico estúdio. Se alguém fala em Branca de Neve, a probabilidade de seu interlocutor lembrar especificamente da Branca de Neve que vemos em Branca de Neve e os Sete Anões, o primeiro longa animado da Disney, é enorme.

O mesmo vale para todos os demais personagens retirados da literatura clássica, de Pinóquio até A Bela e a Fera, passando por Peter PanA Pequena Sereia e isso para citar apenas alguns. E isso considerando que essas histórias foram adaptadas de diversas formas ao longo das décadas, antes e depois das versões “definitivas” da Disney.

E não foi diferente com Cendrillon, se sua fonte for Charles Perrault (como foi no caso de Walt Disney) ou Aschenputtel, se preferir os Irmãos Grimm ou Cenerentola, se a versão italiana de Giambattista Basile for a que lhe apetece. O conto da menina transformada em escrava pela madrasta e suas meia-irmãs depois que o pai morre e que alcança o status de princesa com a ajuda mágica de sua Fada Madrinha já havia sido objeto de diversas óperas e balés, peças de teatro e nada menos do que 11 versões para o cinema, uma delas da própria Disney (um curta quase 30 anos antes) antes que se transformasse em um longa animado e marcasse a ferro e a fogo a imagem de Cinderela no imaginário popular. Um feito impressionante, mas que é uma das marcas do estúdio e algo até esperado pelos admiradores dessa fábrica de clássicos.

Mas Cinderela não foi uma produção fácil. Apesar de literalmente ter inaugurado o mercado de longas animados em 1937, com Branca de Neve e os Sete Anões, o visionário Walt Disney sofreu diversos revezes ao longo dos anos subsequentes, tendo que redimensionar sua empresa durante a 2ª Guerra ao ponto de só produzir filmes de propaganda. Cinderela foi seu primeiro longa metragem de grande produção (e, portanto, risco) desde Bambi, em 1942 e o resultado foi completamente inesperado, com a obra tomando de assalto os cinemas e sendo marcada para sempre como o maior sucesso da empresa até então desde Branca de Neve e o filme que salvou o estúdio e o catapultou para a frente por mais duas décadas. Foi, também, o filme que marcou o fim da chamada Era de Ouro das animações ainda que diversos outros clássicos surgissem ao longo dos anos 50, especialmente A Bela Adormecida.

O roteiro de Cinderela é milagrosamente coeso e econômico. Afinal, desde sua concepção – Walt Disney queria adaptar especificamente o conto de Perrault – diversas versões foram escritas, umas com mais destaque para o Príncipe Encantado outras abordando as três vezes que Cinderela vai ao baile e tem que fugir dele. No final do processo, o filme havia sido escrito por uma turba de roteiristas – nove no total – algo que, hoje em dia, normalmente leva um filme ao fracasso narrativo. Mas, como um passe de mágica da Fada Madrinha, o roteiro de Cinderela não só captura esplendidamente o espírito do curtíssimo conto de Perrault, como cria personagens secundários extraordinários.

Do lado dos animais, temos Major, o cavalo pacato; Bruno, o cachorro preguiçoso, mas valente e, claro, os prestativos camundongos Jaq e Tatá, além de Mary. O contraponto vilanesco do lado animal fica por conta do deliciosamente malvado (e rechonchudo) Lúcifer. Do lado humano, as meia-irmãs de Cinderela, Drizela e Anastácia são os arquétipos da vilania, enquanto que o Príncipe Encantado é o “príncipe padrão” e a Fada Madrinha, é, bem, a única imagem de fada madrinha que povoa nossas mentes.

Não há nada fora do lugar em Cinderela, nada que se estenda além do tempo ou que possa se beneficiar de menos ou mais exposição. É como nove mentes estivessem em perfeita sincronia para criar 74 minutos de pura magia cinematográfica. Além disso, o estúdio não economizou no lado técnico e avançou no uso da tecnologia do que hoje chamamos de captura de performance. Noventa por cento da obra foi feita com base em modelos reais, notadamente Helene Stanley como o “corpo” da protagonista. Essa forma de fazer desenhos já havia sido usada em Branca de Neve e volta com força total em Cinderela, tornando a fluidez da animação assustadoramente natural, mas sem que se perca de vista a natureza de conto de fadas da história.

O lado musical é igualmente importante, marcando a primeira vez que a Disney usou os serviços da famosa editora musical Tin Pan Alley para as letras e melodias, algo que se tornaria um verdadeiro padrão em desenhos posteriores da produtora. Mas, para meu gosto pessoal, Cinderela é um das animações musicais da Disney menos cativantes em termos de música, com apenas uma canção realmente memorável, “”Bibbidi-Bobbidi-Boo”, cantada pela Fada Madrinha (Verna Felton). Mesmo assim, é uma canção que funciona muito mais pela simpatia do personagem do que por seus méritos próprios. Talvez esteja sendo duro com esse aspecto do desenho, mas é impossível não comparar com as obras anteriores da Disney e também as posteriores, talvez particularmente A Bela Adormecida, e isso só para ficar na mesma década.

Acontece que, mesmo comparativamente inferior no quesito musical, a coesão narrativa funciona muito bem, realmente compensando eventuais aspectos negativos que, confesso, são subjetivos deste crítico. Há uma jornada de construção da heroína que é cativante do primeiro ao último minuto e que, apesar dos traços delicados da futura princesa, já deixaria entrever a independência do modelo “príncipe salvador e donzela em perigo” que sempre marcou e continuaria a marca ainda por muitos anos animações do tipo. É ainda algo discreto, mas o fato é que a força de Cinderela é inegável, com sua coragem de enfrentar a madrasta e meia-irmãs, de se impor e de correr atrás de seu desejo.

A Cinderela da Disney é A Cinderela. Inesquecível, encantadora, extasiante. Um trabalho da mais alta categoria que merece todo o destaque na coleção dos cinéfilos.

Cinderela (Cinderella, EUA – 1950)
Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske
Roteiro: Ken Anderson, Perce Pearce, Homer Brightman, Winston Hibler, Bill Peet, Erdman Penner, Harry Reeves, Joe Rinaldi, Ted Sears (baseado em conto folclórico europeu, na versão de Charles Perrault)
Elenco (vozes originais): Ilene Woods, Eleanor Audley, Verna Felton, Rhoda Williams, James MacDonald, Luis Van Rooten, Don Barclay, Lucille Bliss, Betty Lou Gerson, William Phipps, Mike Douglas
Duração: 74 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.