Crítica | Cinderela Baiana

Cinderela Baiana é um mito. Alguns acadêmicos que se acham deuses do olimpo consideram a obra tão suja que sequer tocam em seu nome, haja vista não contaminar o seu reduto intelectual. Na internet, o filme explode em comentários de alguns fóruns, grupos e lista de curiosidades. A produção, como aponta o cineasta Conrado Sanchez, “morreu no meio”. Em Cinema da Retomada: depoimento de 90 cineastas dos anos 90, livro organizado pela pesquisadora Lúcia Nagib, o realizador conta detalhes sobre o filme e diz que tinha tudo para ser um sucesso. No processo investigativo, descobrimos os motivos, alguns apresentados neste tópico como uma forma de elucidar pormenores analíticos.

Antes de adentrar na análise do filme, creio que seja importante levantar a seguinte indagação, feita inclusive pelo diretor, quando procurado para responder algumas questões sobre a produção: por que Cinderela Baiana? Um filme considerado tão lendário e esquecido como Limite, de Mário Peixoto, um fracasso retumbante de bilheteria e produção obscura que atravessou um extenso processo judicial que culminou na retirada do filme dos cinemas depois de 24 horas da sua estreia. Por que valia a pena estudar o processo de criação e a representação da Bahia nesta obra?

Independente da falta de qualidade técnica e do baixo valor estético de Cinderela Baiana, filme medido por uma sociedade repleta de regras de conduta, optar por não analisar a produção, haja vista o seu evidente fracasso narrativo, fator mesclado aos atributos artísticos considerados questionáveis, seria no mínimo ignorância e preconceito, fator que evidencia um campo reflexivo que precisa de maior oxigenação e pessoas que realmente façam a diferença, ao invés de apenas/exclusivamente viver diante de repetições de teorias alheias e promoção de trabalhos que sequer possuem uma gota de autenticidade. Em meu processo de investigação do filme, encontrei algumas pessoas deste quilate, mas em menor quantidade, pois no geral a maioria ficava curiosa e queria entender como um trabalho acadêmico conseguia dialogar com uma obra tão peculiar.

Nesse processo de análise que circulou por vários espaços, Cinderela Baiana teve a sua estrutura esquematizada, hierarquizada, comparada, teve dados cronológicos apontados, etc. Fracasso nos cinemas, a produção fez sucesso nas locadoras de vídeos, pois mesmo diante dos processos, foi distribuído pela Playarte. Gravado pela metade, enfrentou os diversos processos judiciais, principalmente por parte de Carla Perez, pois a artista alegou que tinha sido enganada e que a produção era um equívoco. Desvendar os mistérios que encobrem este filme singular em nossa cinematografia é revelar outras nuances que determinam a nossa produção cultural, além de descortinar as encapsulações típicas sobre os baianos que gravitam em torno de toda a narrativa.

Tendo o axé como musica incidental e uma representação da Bahia equiparada ao que Lula Cardoso Ayres e Cícero Dantas fizeram pelo Nordeste, Cinderela Baiana é um musical que se aproveitou da fama de Carla Perez para a criação de uma história bem básica, recheada de músicas carnavalescas, coreografias sensuais e imagens da Bahia bucólica e festeira, como se ainda estivéssemos nos romances de Jorge Amado, arautos da modernidade.

No filme, uma menina humilde tem grande paixão pela dança e sonha com o sucesso. Depois da morte da mãe, a garota sai juntamente com o pai para a “terra prometida”. Em Salvador, depois de perambular bastante pela cidade, a moça encontra um empresário que estava à procura de um novo produto para representar há tempos. Tudo inicialmente é uma maravilha: a fama, os presentes e o dinheiro. O problema é que com o avanço, a moça percebe que seu representante é um homem inescrupuloso. Será com a chegada do seu príncipe encantado que tudo vai mudar, num final que promete ser “feliz para sempre”.

Ao seguir a cartilha da cinebiografia de celebridades, Cinderela Baiana não acrescenta nada ao subgênero que trafega entre o drama e a comédia, bastante comum nos Estados Unidos, pois geralmente toda cantora pop de sucesso já fez um filme inspirado em sua vontade de “brilhar”. A história de pobreza extrema da biografada é o combustível ideal para criação de uma história explosiva, o problema é que este material caiu nas mãos erradas.

Nos anos 1990, Carla Perez era um mito. Fez sucesso no carnaval de Salvador em 1996 e não demorou a ser capa da revista Playboy, pela primeira vez, no mesmo ano que despontou como musa do bumbum e símbolo sexual brasileiro. Logo mais, a loira tornou-se uma celebridade televisiva. Enquanto não estava em apresentações ao redor do Brasil e do mundo, Carla representava o É o Tchan em programas dominicais, tais como Domingão do Faustão e Domingo Legal. Era praticamente todo final de semana. Quando não estava em um, dava o ar da graça no outro. Ademais, também participou constantemente da grade semanal, em programas de variedades e afins, interessados em explorar os atributos da artista que faziam elevar os índices de audiência.

Verdade seja dita: ame ou odeie, Carla Perez se tornou uma das mulheres mais famosas do Brasil no período. O seu bumbum foi colocado num seguro no valor de R$1 milhão, posou nua pela segunda vez na Praia do Forte, numa revista pôster. Logo mais, começou a ensaiar uma carreira como apresentadora de TV, aproximando-se de Xuxa, sua artista influenciadora. Em 1998, foi capa pela terceira vez da revista Playboy, num controverso ensaio no Pelourinho, pelas ruas da cidade, além de repetir a quarta e última aparição na edição de dezembro de 2000, causando outra polêmica ao posar seminua com um homem que vestia uma fantasia de Papai Noel.

Na época, o professor Cláudio Cledson, da UEFS, escreveu um artigo que analisava o fenômeno televisivo nas malhas do mito de Rita Baiana, do romance naturalista O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, numa reflexão cheia de traços comparativos que flertavam com as discussões sobre representação da mulher numa perspectiva lasciva e sexualmente forte.

Em Cinderela Baiana, a personagem de Carla Perez está mais próxima do imaginário feminino baiano criado por Jorge Amado. Há, propositalmente ou não, relações intrínsecas com Capitães da Areia e Gabriela, Cravo e Canela. No bojo da alusão, a capital da Bahia parece sem perspectiva, tal como o recôncavo atrasado de Tieta do Brasil, dirigido por Cacá Diegues, apresentado por Ascânio como “o cu do mundo”, um lugar distante da civilização e avesso aos padrões da modernidade. A personagem Tieta, ao menos, utiliza as suas conquistas para banhar a cidade com a “sua luz”, o que não acontece com a Carla de Cinderela Baiana, personagem apagada pelas circunstâncias da vida, mesmo quando conquista espaço favorável na sociedade.

Cinderela Baiana traz em sua história o marco do Cinema da Retomada, período que dentre as descrições que lhe caracterizam, há a frequente produção de cinebiografias e o uso de celebridades televisivas para compor o elenco de algumas produções, estratégia associativa que tinha como ideal, promover sucesso nas bilheterias, pois se acreditava que o público consumidor de novelas e programas de TV iria até aos cinemas assistir aos seus ídolos em desempenhos dramatúrgicos diversos.

Conforme aponta Conrado Sanchez, foram seis meses para chegar até Carla Perez. A produção tinha calendário de filmagens para dois meses e foi reduzido para um, principalmente porque “era impossível filmar com Carla pelas ruas de Salvador, visto que a multidão que se aproximava era exorbitante”. Entre 04 de junho e 07 de julho de 1998, os realizadores captaram o que conseguiram para “criar” o filme. O cineasta reitera: na época, em Salvador, era “Carla e ACM”. Em uma cena na favela dos Alagados, por exemplo, uma ponte caiu cheia de crianças, tamanha a popularidade da artista que atraia multidões.

Depois que se deu conta do trabalho exaustivo de produção, Carla também desistiu. Ela não fazia ideia do que era produzir um filme e isso ajudou a produção em seu naufrágio. Era preciso acordar e filmar por volta das 5 da manhã, antes que o público se aproximasse, mas mesmo assim, os envolvidos encontraram problemas. Havia no planejamento uma parte filmada no exterior, com cenas em Paris e Buenos Aires, mas tudo foi cortado abruptamente do projeto. Carla faltava bastante e em determinado momento voltou apenas depois que foi acionada judicialmente. Os realizadores faziam várias tomadas sem a protagonista, esperando-a para fazer os contra-planos.

Com experiência em filmes da pornochanchada e largo estágio como assistente de direção, técnico de som e diretor de fotografia, Conrado Sanchez já havia dirigido produções de conteúdo erótico, tais como A Menina e o Estuprador (1982), A Menina e o Cavalo (1983), Como Afogar o Ganso (1984), Sem Vaselina (1985) e Prisioneiras da Selva Amazônica (1987). A sua associação com o filme de um símbolo sexual brasileiro era a ideal, mas a jornada não deu certo.  Para lhe assessorar, o cineasta contou com os produtores Antônio Polo Galante e Magalhães Lucas, o primeiro, um dos maiores do cinema brasileiro das décadas anteriores, ambos conhecidos por lucrar bastante com a pornochanchada.

Para a montagem, os realizadores convidaram Eder Mazzini, antigo sócio da mitológica EMBRAPI, conhecido também por seus trabalhos em parceria com Carlos Reichenbach nos anos 1980. Quando conversamos em 2011, o montador alegou que o filme “não teve roteiro, pois o produtor e a sua esposa escreviam de acordo com a produção”. Ele alega que Conrado Sanchez era um dos mais prejudicados, pois constantemente não sabia como proceder.

Mediante tantos detalhes aterrorizantes de bastidores, eis a questão: quais os problemas de representação de Cinderela Baiana? Até então explanei apenas o percurso historiográfico do filme, além da sua posição baixa no ranking hierárquico dos filmes brasileiros relevantes. Os problemas nós já sabemos que há e não são poucos: Carla Perez não é atriz e a sua atuação é condizente com a sua capacidade ao lidar com o projeto; os créditos iniciais anunciam o filme como Cinderela “Bahiana”, não Baiana, o que seria adequado às normas básicas da gramática normativa; os furos do roteiro e os diálogos são abomináveis; os enquadramentos e a fotografia equivocados; além da representação estereotipada do baiano e da Bahia, radiografados com ênfase nos chavões da baianidade que nos demoniza há séculos.

Essa expressão que para muitos é motivo de alegria esconde, na verdade, um perigoso e pantanoso terreno. Frequentemente associado ao modo de viver dos baianos, a ideia de baianidade nos remete ao que Hobsbawn (1984) chamou de “invenção das tradições”, isto é, formas de se produzir coesão e consenso social numa imagem fixa, neste caso, da Bahia, dos baianos e de suas especificidades.

A narrativa começa com parte do elenco em um trio elétrico. Todos dançam animadamente ao som da cantora Cátia Guimma e seu hit Girar o mundo, faixa que é tocada seis vezes durante o filme. Antes há uma panorâmica da cidade: Farol da Barra, Pelourinho, Elevador Lacerda e parte da orla. Depois que os créditos dão conta de nos apresentar elenco e produção, há um corte temporal para o sertão nordestino. Mandacarus, terra gretada, clima aparentemente inóspito e uma família em crise para sobreviver, numa versão caricata dos personagens já caricatos do romance de 30.

O pai da pequena Carla preocupa-se com a educação da menina, mas aguarda a oportunidade de sair do local e arranjar um trabalho em Salvador. Carla, em todas as cenas, não para de dançar. Enquanto a mãe cata moedas cobrindo buracos na estrada, com cenas filmadas em Milagres, no interior da Bahia, a filha dança qualquer música que os caminhoneiros tocam. A matriarca da família não deseja uma “cama confortável”, mas saúde, pois está à beira da morte, acontecimento óbvio que solapa a família justamente no dia que o pai é informado sobre a oportunidade de emprego em Salvador, a “terra prometida”.

Depois do enterro, pai e filha seguem para Salvador. Outro corte nos traz para os anos 1990, com Carlinha a caminhar pela cidade descalça e em busca de aventuras, enquanto o pai trabalha num escritório de contabilidade. Não demora a conhecer Chico e Bucha, seus amigos “malandrinhos” que cometem alguns atos ilícitos na maior naturalidade. Com os jovens, a moça circulará por vários locais de Salvador, sempre em rodas de samba e outras cenas do imaginário cultural baiano (capoeira, acarajé, pontos turísticos).

Certo dia, as duas linhas narrativas do filme se encontram. O empresário Pierre, interpretado por Perry Salles no momento mais histriônico da sua carreira, encontra a musa dos seus sonhos. Sabemos disso porque em paralelo aos momentos de aventura de Carla, temos a busca incessante por uma nova dançarina para compor os seus shows. Carla, então, a nova queridinha do empresário, conquistará fama, dinheiro e realizará os seus sonhos.

O problema é que depois de tanto sucesso, a “cinderela” sente-se esgotada, pois acredita que o empresário a explora demasiadamente. Neste ponto ela já dançou com vários grupos musicais de sucesso na época, tais como Araketu, Cabelo de Fogo, Jammil e Uma Noites e Jheremias, além de participações em programas como H, apresentado por Luciano Huck, na época, empregado da Rede Bandeirantes.

Carla conhece seu príncipe encantado: Alexandre Pires, na época, seu namorado. Os dois se apaixonam, protagonizam uma das cenas mais constrangedoras do filme, lutam para ficar juntos e “destruir” os laços com Pierre, o vilão aproveitador. Ela reencontra os amigos, pois lá pela metade do “roteiro” havia se afastado por conta dos deslumbramentos da fama. Caridosa, Carla doa brinquedos para o Hospital da Criança com Câncer, ajuda pessoas na rua e protagoniza a cena final, tida como inesquecível por muitos que “cultuam” o filme.

Dando segmento à estética kitsch do filme, ao final, Carla surge de odalisca, a personagem surge num carro branco, larga um monólogo para as crianças e ao final, começa a dançar uma música que na verdade desfaz todo o seu discurso, pois se “pau que nasce torto nunca se endireita”, do que adiantou toda a verborragia sobre as campanhas demagógicas?

No final das contas, em oposição ao nordestino forte de Euclides da Cunha, temos o baiano preguiçoso e festeiro, a vendedora de acarajés que depende de milagres para vender os seus produtos, a dança como único meio de sobrevivência e o uso do corpo como única alternativa para dar a volta por cima. Tão dual quanto a Gabriela, de Jorge Amado, Carla Perez mescla infantilidade e sexualidade, num festival de chavões que são bem mais perigosos e menos divertidos que os problemas estruturais e elementos dramatúrgicos desta pérola do cinema brasileiro.

Cinderela Baiana — Brasil, 1998
Direção: Conrado Sanchez
Roteiro: Conrazo Sanchez, Antônio Pólo Galante
Elenco: Carla Perez, Perry Salles, Lázaro Ramos, Cátia Guimma, Fábio Vidal, Jheremmias, Juliana Calil, Lázaro Ramos, Netinho, Paulo David
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.