Crítica | Cinderela Chinesa, de Adeline Yen Mah

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estrelas 4

Apesar de controversos, os contos de fadas tradicionais não sobreviveram a séculos e séculos à toa: suas mensagens sobre o triunfo do bem e do amor, justiça para os fracos e final feliz para os bons ainda encantam crianças e adultos ao redor do mundo. Nesse contexto, a história de Cinderela – a órfã explorada pela madrasta e injustiçada pelas irmãs – tem lugar cativo. A mensagem de esperança que se estende a toda criança órfã à espera do seu final feliz dialoga facilmente com a autobiografia de Adeline Yen Mah, acertadamente chamada Cinderela Chinesa. Em seu livro, dedicado a todas as crianças renegadas pela família, Yen Mah retrata sua triste infância na China dos anos 1940.

Quinta filha numa abastada família chinesa, Adeline não convive com a mãe, que morre poucos dias após seu nascimento. Ainda muito pequena, presencia o segundo casamento do pai e a chegada de mais dois irmãos, que, juntamente com Ye Ye (o avô) e tia Baba, formam o núcleo familiar da menina. Mesmo cercada de familiares, entretanto, Adeline não é exatamente bem tratada: os irmãos mais velhos a culpam pela morte da mãe, e são bastante cruéis com ela; a madrasta trata os enteados de maneira desprezível, reservando bons cuidados apenas aos próprios filhos; o pai se mostra tremendamente indiferente ao que ocorre na casa, e sempre se coloca ao lado da esposa. O avô e a tia, por sua vez, são os únicos que demonstram amor pela pequena Adeline, mas têm pouca voz numa configuração familiar bastante rígida e nada democrática.

Um dos aspectos mais comoventes na narração de Adeline é justamente a consciência que a garota tem, desde muito pequena, de ser uma criança mal amada, renegada. Assim, vai descrevendo ao longo das páginas como foi esquecida na escola, como não sabe quando é o próprio aniversário – já que nunca foi comemorado – e, entre outros episódios revoltantes, como ama a escola, os livros e histórias. Essa relação com a escrita e os estudos é determinante na vida de Adeline. Sempre a primeira da turma, ela sonha em cursar a universidade, escrever histórias e, de certa forma, usa isso para fugir de sua desagradável realidade.

Além disso, o sonho da menina de cursar a universidade também é um ponto fora da curva considerando seu contexto histórico-social: seus irmãos mais velhos vão estudar na Inglaterra, mas sua irmã mais velha tem um casamento arranjado. Essa desigualdade de gênero, apesar de não ser central na obra, aparece em variados momentos, também percebidos pela narradora desde muito criança – assim como outros aspectos da sociedade chinesa de então, tais como a ocupação japonesa na Segunda Guerra, a “americanização” pós 1945, a guerra civil e a ascensão do comunismo. Dessa forma, o livro se mostra bem bacana enquanto retrato da História e de costumes chineses – de sua cultura, de modo geral.

A escrita, por exemplo, tem lugar de destaque. Yen Mah sempre mostra os ideogramas originais quando se refere a uma palavra chinesa, e a figura de Ye Ye (um personagem muito fofo, por sinal) dá uma aula bastante lírica à pequena Adeline a respeito da escrita pictográfica e, principalmente, de sua identidade como garota chinesa. A avó da menina, Nai Nai, também é um retrato vivo da cultura local: tem os pés deformados pela antiga exigência de pés pequenos e o uso consequente de sapatos terríveis para evitar o crescimento “demasiado” deles. Ao longo da narrativa, as referências culturais são muitas e interessantes, além de didáticas – o que combina muito bem com o tom juvenil do livro. Ao fim da história, Adeline traz, para fechar com chave de ouro, a história original da Cinderela Chinesa (inclusive em chinês também), conto tradicional anterior ao conto europeu que conhecemos.

A configuração de personagens também é um ponto positivo. A pequena Adeline é extremamente doce, inteligente e, com todo seu sofrimento, é fácil sentir empatia por ela. Mais: querer pegá-la no colo ou guardá-la num potinho. Além dela, outras figuras familiares são bem delineadas, como o avô amoroso e sábio, a irmã mais velha egoísta e tecedora de intrigas e até o patinho de estimação que a menina tem num determinado momento. É claro que há de se considerar o ponto de vista não confiável da narradora, mas ainda assim, sem descrições maçantes, Yen Mah faz com que o leitor sinta conhecer de fato a família e sua rotina – ponto para a autora.

Apesar de triste, Cinderela Chinesa é um livro juvenil, facilmente lido por pré-adolescentes. Possui capítulos curtos, linguagem bastante acessível e um enredo familiar. Entre cenas de cortar o coração e de exaltar a ira justiceira do leitor, Yen Mah consegue alcançar seu objetivo: passar uma mensagem de esperança para quem se encontra em situação difícil. E, embora ela tenha mirado em crianças e jovens, um pouquinho de esperança, com toda sinceridade, não faz mal para nenhum adulto não.

Cinderela Chinesa (Chinese Cinderella – the secret story of an unwanted daughter) – Austrália, 1999
Autora: Adeline Yen Mah
Publicação: Editora Seguinte, 2006
Tradução: José Rubens Siqueira
176 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.