Crítica | Cine Holliúdy

estrelas 4

Eis um exemplo da nova safra de comédias que tomou o cinema brasileiro nos últimos anos. Anteriormente apresentado ao público como curta-metragem, em 2004, a produção ganhou o formato longa, com distribuição nacional, em 2013. Construído através de cenas hilariantes, exageradas, estereotipadas e memorialísticas, Cine Holliúdy é uma daquelas gratas homenagens ao cinema, arte que encanta plateia desde o fim do século XIX.

A trama se passa nos anos 1970. Somos apresentados ao falante e histriônico Francisgleydisson (Edmilson Filho), um homem que vive em constante transição com a sua família pelo interior do Ceará. Ele se muda para Pacatuba com a sua esposa Maria das Graças (Mariana Freeland) e o seu filho, tendo em mira se firmar como exibidor de filmes de monstros e de artes marciais, tipos cinematográficos que lhe atraem.

Próximo ao que Cinema Paradiso fez nos anos 1990, o cineasta Halder Gomes, ao dirigir e roteirizar Cine Holliúdy, apela para delicada película de proteção da nossa memória coletiva, fazendo-nos lembrar do dito cinema de antigamente, da época de ouro das videolocadoras e de um tempo em que a sétima arte precisou entrar no ringue por espaço nas famílias, haja vista o advento da televisão.

No que diz respeito aos elementos da linguagem, Cine Holliúdy flerta com elementos do circo e do teatro de revista. A paleta de cores é quente, o ritmo dos diálogos é verborrágico e o tom bastante farsesco. Apesar da sua devoção ao cinema, no entanto, a linguagem é televisiva, questão que para alguns críticos soa como falha. Ao contrário, penso como potência, afinal, a hibridez dos suportes audiovisuais deve ser vista como algo positivo, pelo menos no quesito industrial, pois aproxima o público da obra.

Outro detalhe da obra é a sua demarcação territorial bastante evidente. Para a distribuição ao redor do Brasil, os produtores colocaram algumas legendas, tendo em vista termos específicos do cotidiano cearense que poderia não ser bem compreendido em cadeia nacional. Ao longo dos seus 91 minutos, há um feixe de estrangeirismos adaptados ao ambiente da narrativa, bem como um repertório de palavras especificamente nordestinas, em especial, do Ceará.

Mesmo com as falhas evidentes, principalmente no que diz respeito à montagem, Cine Holliúdy é uma saudável diversão metalinguística, obra que ganha a nossa simpatia pela autenticidade. O sucesso é evidente, possibilitou o lançamento de O Shaolin do Sertão e já tem continuação garantida, haja vista a postagem do cineasta Halder Gomes nas redes sociais recentemente, exibindo uma imagem do roteiro. Nós, cinéfilos, adoramos a ideia. E você, o que acha? Acredita que há fôlego para a sequência?

Cine Holliúdy Brasil, 2013 
Direção: Halder Gomes
Roteiro: Halder Gomes
Elenco: Angeles Woo, Ary Sherlock, Bolachinha, Edmilson Filho, Falcão, Fernanda Callou, Fiorella Mattheis, Haroldo Guimarães, Jesuíta Barbosa, João Netto, Joel Gomes, Jorge Ritchie, Karla Karenina, Márcio Greyck, Miriam Freeland, Rainer Cadete, Roberto Bomtempo
Duração: 91 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.