Crítica | Cinema Paradiso

estrelas 5,0

Ao assistir Cinema Paradiso, tive a convicção de algo que me acompanha em reflexões sobre a minha trajetória no campo da crítica cinematográfica. Sou da geração contemporânea, que assiste a filmes e trailers pelo Youtube, Netflix e outros suportes, coleciona DVDS, um recurso que nos anos 1990 não era possível, pois você tinha a opção de locar os VHS com tempo especifico para devolução sem multa nas locadoras, mas consegui alcançar, mesmo que na fase final, o cinema de rua.

Geralmente os membros de gerações anteriores são nostálgicos e tornam-se pessoas sempre presas ao seu tempo histórico memorialístico, condenando práticas atuais. Não sou desses, mas confesso que havia uma magia em ter ficado horas na fila de um cinema no centro da cidade, interessado em assistir ao badalado Titanic, de James Cameron, em 1997. A sala de cinema da época, sofisticada e com aspectos estruturais de teatro, hoje não existe mais, pois o espaço foi vendido e se tornou uma igreja protestante.

Cinema Paradiso possui a mesma abordagem, pois rememora um tipo de exibição cinematográfica que se encontra diferente no contexto contemporâneo. Não só no cinema italiano, mas aqui no Brasil, por exemplo, vários centros culturais como esse perderam espaço para a massificação do padrão Multiplex. Com a direção assinada por Giuseppe Tornatore, um apaixonado pelo cinema, responsável por filmes polêmicos como Malena, com Monica Bellucci, Cinema Paradiso ganha o status de filme-manifesto, tamanha a sua reflexão e debate sobre o assunto.

Em Cinema Paradiso a narrativa é simples, mas não menos encantadora: Totó (Salvatore Cascio), cujo grande amigo Alfredo (Philippe Noiret) é o projetista do cinema, cria as suas fantasias infantis que vão de Bergman a Chaplin. Inicialmente brigão, Alfredo cede espaço para os encantos do menino. Torna-se, inclusive, o seu herói. Certo dia, ao ter gastado o dinheiro do pão e do leite com bilhetes para o cinema, Totó é salvo por Alfredo, que lhe compra as coisas e entende o cotidiano sofrido da criança, que apanha com frequência da mãe solteira e histérica.

Há um incêndio que muda a configuração local e Totó precisa assumir à frente das projeções. A paixão anteriormente amadora torna-se remunerada. A relação problemática com a mãe também muda, pois esta passa a respeitar mais o ofício do filho. Após uma desilusão amorosa, Totó deixa o local e vai para Roma, retornando 30 anos depois, com a morte de Alfredo.

No que tange aos aspectos estruturais, Cinema Paradiso possui um excelente trabalho de cenografia e montagem. A direção de arte ganha bastante com a concepção do espaço de exibição de filmes, uma típica sala de cinema nos moldes dos cinemas de rua, espaço alcançado por poucos membros da geração cinéfila contemporânea. A montagem assinada por Mario Morra justapõe os elementos do filme com as cenas de produções clássicas exibidas e mescla um interessante exercício de exibição e recepção. Temos nesse processo o uso do ritmo poético nas cenas, numa espécie de cinema de poesia, haja a vista a forma como a montagem intercala cenas de outros filmes que marcaram a história do cinema, juntamente com a trajetória de Salvatore.

O figurino, sob a responsabilidade de Beatrice Bordone, assume o caráter humilde do período, além da fotografia eficiente de Blasci Fiurato. Em suma, uma equipe competente e comprometida, bem como envolvida com o diretor. A trilha sonora é um deleite. Composta por Ennio Moricone, parceiro em outras investidas do diretor, é quase uma sessão de meditação. A sua presença nos envolve num feixe de sensações nostálgicas que nos remetem aos fatores intrínsecos a nossa própria existência. Para quem é um cinéfilo inveterado, daqueles colecionadores de cartazes e que se arrepiam até com as promessas de um bom trailer, as situações de Cinema Paradiso parece uma adaptação cinematográfica de nossas vidas.

A cenografia possui um diálogo interessante com a seara temática ao tratar das ruínas, debate que nos remete aos estudos sobre a memória e o patrimônio cultural. Os escombros que adornam as ruas de uma região em crise após o advento da Segunda Grande Guerra Mundial simbolizam uma civilização em declínio. Cabe ressaltar, porém, que a metáfora não é apenas da civilização, mas da indústria do cinema de maneira geral. A substituição do cinema pelo estacionamento é a representação da reciclagem de um patrimônio cultural por um espaço sem significância artística e, concomitantemente, desumanizado.

Entre outras discussões temáticas sobre o filme, temos a figura do padre como representação da censura. As cenas tórridas de amor envolvendo beijos e carícias eram editadas pelo personagem exibidor após a análise do padre. A censura, palavra-chave vigente no decorrer do percurso histórico do cinema encontra uma abordagem irônica em Cinema Paradiso.

Ainda no campo semântico, a produção dialoga com a psicanálise ao trazer a ideia de Luto e Melancolia, desenvolvida por Freud em 1915. Para o psicanalista, quando se perde algo, é preciso investir em outra coisa para dar continuidade à alimentação de nossos anseios cotidianos. A reflexão de Freud é um tratado sobre as relações de objeto que o sujeito sustenta e as consequências de perda inerentes à sua existência. Ao encontrar no amor um caminho árduo, desde a sua juventude, Totó dedica-se ao cinema como uma forma de dar relevo à sua existência. Há, no filme, o mergulho na fantasia para preencher a angústia do espaço vazio diante de uma perda na vida.

Emocionante, Cinema Paradiso possui amplo feixe de alcance entre os amantes do cinema em escala mundial. É um filme com aspectos do dito “cinema de arte”, mas consegue tocar os interessados em um cinema menos reflexivo e mais escapista. Ao longo dos seus 123 minutos, Giuseppe Tornatore consegue manter uma direção firme e lírica, o que resultou em um dos melhores exercícios da metalinguagem da história do cinema recente. Os resultados em bilheteria e crítica confirmam: não há nenhum manual de “filmes obrigatórios”, “imperdíveis” e “mais fascinantes” que não ofereça Cinema Paradiso como uma das produções.

Ganhador do Globo de Ouro e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o filme ainda levou o prêmio do Júri em 1989, no Festival de Cannes, além de ser indicado à Palma de Ouro. Uma produção imperdível para cinéfilos, críticos e admiradores da arte ou do gênero dramático. Confesso ser quase impossível assistir ao filme sem se emocionar ou derramar algumas lágrimas, tamanha a singeleza e carisma dos personagens e da intrusiva (e apaixonante) trilha sonora.

Cinema Paradiso (Cinema Paradiso, Alemanha, França e Itália – 1990)
Direção: Giuseppe Tornatore.
Roteiro: Giuseppe Tornatore.
Elenco: Philipe Noiret, Agnese Nano, Jacques Perrin, Leopoldo Trieste, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullota, Roberta Lima.
Duração: 123 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.