Crítica | Cinemagia – A História das Videolocadoras de São Paulo

Os cinéfilos são pessoas que ficam magnetizadas quando adentram num ambiente repleto de produtos que materializam a memória do cinema. As lojas que vendem canecas, almofadas, camisetas, chaveiros e as livrarias que disponibilizam o DVD ou BLURAY de filmes que desejamos colecionar são terrenos onde a realidade e a fantasiam se misturam. Anterior ao desdobramento da cibercultura, no entanto, este espaço era no geral das videolocadoras.

Hoje a oferta é ampla. Os serviços de streaming ofertam virtualmente uma quantidade enorme de títulos, blogs e grupos em redes sociais veiculam indevidamente links para downloads de obras que às vezes nem estreiam oficialmente por aqui, dentre outras facilidades que as videolocadoras não nos ofertavam, mas, por diversos motivos, era magnífico transitar nestes espaços. Era a cultura do tocar, mas não ter. Locávamos e tínhamos temporariamente determinado filme, para que logo depois, ele ficasse apenas em nossa memória, indo visitar outro cinéfilo.

O repertório de histórias de vida que se ergueram durante décadas dentro deste sistema de interação entre filmes, clientes e proprietários é o tema do documentário Cinemagia – A História das Videolocadoras de São Paulo, dirigido e roteirizado com eficiência por Allan Oliveira. A produção flerta com vários tópicos: os primeiros passos, a criação de revistas e congressos para sistematização do esquema, crônicas de donos de estabelecimento e suas relações afetivas com clientes, a transição do VHS para o DVD, os impactos da internet nos negócios, a difusão de medidas contra a pirataria e a importância das videolocadoras como locais de efervescência cultural e manutenção da memória do cinema.

Há depoimentos de vários tipos. Temos o crítico da elite, Rubens Ewald Filho; Marcos Rosset da CIC Vídeo; Maria A. Oliveira, esposa do empresário Gabha, o grande pioneiro das locadoras em São Paulo; Oceano Oliveira, fundador do Jornal do Vídeo e da Versátil Vídeo, a segunda, responsável pela veiculação de muito material valioso no Brasil atualmente; Lírio Parisoto, presidente da Videolar, dentre outros entrevistados legitimados para refletir sobre os tópicos em questão.

Panorâmicas de São Paulo determinam a cartilha básica dos manuais de cinema, pois apontam o espaço de desenvolvimento narrativo do documentário. Os ótimos créditos iniciais estabelecem, anteriormente, a metalinguagem, indo do VHS ao DVD. Jovens são entrevistados nas ruas, preâmbulo para as trajetórias de um numeroso grupo de pessoas e estabelecimentos, dentre eles, Renata Vídeo, Virtual Vídeo, Space Locadora, Vídeo Norte, Premiere Vídeo, Hobby Vídeo, Clement’s Vídeo, MM Vídeo, Star Videolocadora, 2001 Vídeo, etc.

O sistema começou bem precário. Não havia legislação para comércio dos filmes dentro deste esquema e tudo foi como uma lenda urbana, passando de um amigo para outro, até que um dia a coisa ganhou forma. Alguns filmes eram veiculados sem legendas, as pessoas viajavam e traziam os filmes, ou então, importavam, para mais adiante, realizar a cópia da cópia. Numa época que os filmes não chegavam por conta da censura, as pessoas datilografavam as sinopses, criavam fichas técnicas, etc. Começava ai a história de um rentável império comercial que só perdeu sua força quando a internet trouxe condições econômicas e um “certo” tipo de “democratização” de filmes, o que tornou a locação um empreendimento que não interessava mais a uma boa parte dos clientes antigos, tampouco para as gerações mais atuais, antenadas com as condições frenéticas de sua época.

As críticas dos antigos donos e clientes que habitavam estes espaços é a falta de interesse das pessoas em cultura. Eles reforçam que vivemos um momento de constante desejo de enterrar o passado. O tempo e a correria das pessoas desculpas para não sair de casa, locar, ter prazo para entregar, etc. Há também comentários sobre a falta de contato humano. Quem ia à locadora conversava, trocava opiniões, debatia, indicava filmes, além de vivenciar experiências alheias e imprimir as suas em interações, uma questão que segundo os relatos, falta na sociedade contemporânea.

Por um lado os comentários são pertinentes, pois vivi a cultura da videolocadora como local para expurgar os demônios da minha infância e da adolescência. É o que me leva a compreender que estes ambientes eram espaços onde pessoas se entregavam e viviam situações que a cultura virtual aparentemente não permite. Os teóricos da cibercultura podem discordar, bem como alguns adeptos das possibilidades virtuais como exclusividade de vida, pois nas redes sociais as trocas de opiniões sobre filmes e séries permitem um número maior de contatos para debate, discussão polêmica que se encontra como combustível para reflexões na contemporaneidade.

Em meio aos relatos sobre o fim e o começo, histórias curiosas e fascinantes pululam ao longo dos 100 minutos de produção. Sob a eficiente direção de fotografia de João Prehto, as trajetórias editadas pelo cineasta multitarefa Alan Oliveira são veiculadas organizadamente diante da tela, para deleite do espectador. Se você viveu os anos 1980, 1990 ou 2000 e visitou videolocadoras como parte da sua cultura de consumo, provavelmente viu histórias como a da Charada Filmes, locadora que comprou 55 cópias de Titanic que causaram alvoroço nos finais de semana, inclusive uma briga entre clientes na porta do estabelecimento.

Como não recordar o estojo em formato de pedra talhada do VHS de Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros? E o trabalho que dava rebobinar fitas para não pagar multa? Poucos sabem, mas seriados dificilmente eram lançados e um dos poucos saiu em um estojo com seis fitas, produtos que não podiam ficar muito tempo sem uso para não mofar. O DVD era a fase de ouro. O BLURAY, entretanto, já nasceu morto. Assim são as opiniões dos clientes e donos de locadoras sobre as mídias posteriores aos VHS. O DVD trouxe coisas que anteriormente era muito difícil ter acesso, isto é, os bastidores, entrevistas, etc. A crítica genética dos filmes para as pessoas que consumiam cinema não apenas como entretenimento, mas arte parte integrante da sua construção identitária.

No meio desse manancial de informações, há pequenos debates sobre economia e imperialismo, quando a história da Blockbuster no Brasil é esmiuçada. No que tange aos curiosos, a chegada de Evil Dead – A Morte do Demônio em VHS como um fenômeno nos anos 1980; a criação da logo da Look Vídeo inspirada nos olhos de Marilyn Monroe; o lançamento de ET – O Extraterrestre como a primeira produção com campanha em terreno brasileiro, repleta de cartazes e materiais expositivos do tipo; a famosa 2001 Vídeo, criada com o dinheiro da indenização de uma bancária que se inspirou no filme de Kubrick para nomear seu estabelecimento que faz sucesso durante longo tempo.

Por meio de uma narrativa repleta de momentos intimistas e emocionantes, Allan Oliveira radiografa uma importante era para o desenvolvimento da cultura cinematográfica em São Paulo, algo que fala também do Brasil de maneira geral. As videolocadoras, tais como grupos de leitura, times de futebol e outros aglomerados de pessoas interessadas em assuntos que se convergem, desapareceram e o documentário se ergue justamente na reconstrução da história de uma era que hoje habita a nossa memória e restam apenas alguns estilhaços físicos espalhados pelo ao redor do país. Nas videolocadoras pude forjar parte da minha identidade enquanto cinéfilo e atualmente, professor e crítico de cinema. E você, caro leitor, teve acesso a esses ambientes “mágicos”?

Cinemagia – A História das Videolocadoras de São Paulo — Brasil, 2017.
Direção: Allan Oliveira
Roteiro: Allan Oliveira
Elenco: Rubens Ewald Filho, Maria A. Oliveira, Oceano Oliveira, Lírio Parisoto, Marcos Rosset
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.