Crítica | Cinquenta Tons de Cinza

fifty shades cinquenta tons de cinza

estrelas 1

Eu não faço amor. Eu fodo. Com força.
Christian Grey, protagonista de Cinquenta Tons de Cinza

Durante um travelling em uma das prateleiras de revistas da loja Saraiva no mês passado, o meu olhar, como numa espécie de zoom in, foi direcionado para a capa de uma edição da revista Isto É: uma ampla cobertura sobre Cinquenta Tons de Cinza e das polêmicas que vieram a reboque com o lançamento do filme. Logo, resolvi abrir o campo de captação do meu olhar, contemplar outras direções e, através deste gesto, pude observar toda a publicidade em torno do filme, incluindo as edições dos livros com a capa do filme estampada, recurso já lugar comum no mercado editorial contemporâneo.

Há várias vertentes de análise para Cinquenta Tons de Cinza, mas acredito que apenas uma palavra defina o filme de maneira geral: constrangimento. Cabe ressaltar que esta crítica não foi produzida por alguém que leu o livro e decepcionou-se com o filme. Tampouco por um profissional que, sentado no dito “Olimpo Crítico”, detona as obras de apelo popular, como é comum no exercício do nosso campo intelectual. Muito pelo contrário. Dei todas as chances possíveis para o filme, fiz campanha do “pague para ver” nas redes sociais (e continuo fazendo), mas assumo que a curiosidade foi sanada logo nos momentos iniciais e o desejo de ver os créditos finais aparecerem me tomou de maneira súbita.

Adianto que não há nada de moralista em meu ponto de vista. Nada contra as cenas de sexo, nada pessoal em relação à escritora do livro que serviu como ponto de partida para o filme, nem sequer uma abordagem de cunho feminista, etc. Esta é uma escrita sem ressentimentos. O ponto nevrálgico desta crítica é observar como Cinquenta Tons de Cinza é um filme mal contado, oportunista e absurdamente constrangedor.

Anastasia, interpretada pela frívola Dakota Johnson, é uma jovem estudante de literatura que precisa ajudar a amiga gripada numa entrevista ao milionário Christian Grey, representado pelo ator Jamie Dornan, bonitinho, mas ordinário. Durante a entrevista, um jogo de olhares abre espaço para o desejo e ambos encontram-se posteriormente. Daí, caro leitor, você já deve imaginar o que vai acontecer: os personagens vão para a cama, o sentimentalismo vai surgir para atrapalhar e as idas e vindas dentre dominador e submissa costuram a narrativa até o seu insólito final.

Dentre todos os problemas, o personagem Christian Grey parece ser um dos mais graves: Jamie Dornan não consegue passar a força e a determinação de um homem individualista e sedutor, sequer empático. Os seus olhares são constrangedores e passam insegurança para o espectador. Ele representa a sociedade de consumidores referenciada no livro Vidas para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias, do filósofo contemporâneo Bauman, ou seja, um homem que escolhe um estilo de vida onde o prazer advém do sexo e do consumo.

Nada contra, todavia, se há busca por um guia da felicidade para as mulheres, como escutei na fila da entrada e em postagens nas redes sociais, é necessário fugir urgente. O filme não representa a liberdade da mulher diante dos jogos de poder patriarcais que foram símbolo de movimentos como o Feminismo, mas o aprisionamento destas. Virgem, Anastasia parece um personagem sem imaginação, afinal, depende de Christian para ensinar-lhe a “arte” do sexo. O espectador parece estar diante de uma versão mal conduzida de um romance do século XIX, camisa de força que as mulheres ainda lutam na contemporaneidade para se livrar. Até Aurélia Camargo, personagem de José de Alencar no romance Senhora, parece ser mais altiva e menos dependente que a irritante Anastasia.

No que tange aos aspectos técnicos, a montagem assinada por Lisa Gunning é elíptica demais, com falta de equilíbrio no processo evolutivo dos personagens e situações. A direção de fotografia é recurso mais normativo do filme, com planos gerais contemplando o cinzento céu ficcional de Seattle, mas tudo um emaranhado de clichês, adornados por enquadramentos extremamente publicitários.

O roteiro assinado por Kelly Marcell é o grande vilão da história. Algumas frases como “até mais baby” e “não sou esse tipo de homem” fragilizam ainda mais a narrativa. A impressão que se tem é que filmaram os rascunhos do roteiro, de que há alguma coisa viável escrita e perdida nos bastidores da produção, tamanha a quantidade de cenas onde o sensual é trocado pelo patético, e as pessoas, ao contrário do esperado, não se envolvem, mas riem de desdém do constrangimento em tela, como aconteceu em vários lançamentos mundiais, por exemplo, o Festival de Berlim e a sessão em que estive para escrever sobre este filme.

Problemas com a censura não são prerrogativas de Cinquenta Tons de Cinza. Por ser um filme de estúdio, precisou passar por redução das cenas fortes. Alguns analistas estão colocando esta questão como justificativa para a falta de conteúdo e a fragilidade narrativa do filme, bem como a diretora, ao afirmar que o filme sofreu pelos cortes. Desculpas, em meu ponto de vista, infundadas. Á título de ilustração, o olhar da câmera mantém o padrão voyeur clássico do mundo hollywoodiano, com um ponto de vista tão machista quanto o personagem Christian Grey, afinal, as cenas de sexo são pífias: enquanto a moça aparece acorrentada, amordaçada, algemada, contorcendo-se nua, o “galã” a rodeia utilizando uma desconfortável calça jeans.

Se as cenas de sexo eram um problema para o sucesso comercial, os envolvidos deveriam ter assistido a filmes que tratam, até mesmo tangencialmente, desta questão. O que dizer dos excelentes Contos Proibidos do Marques de Sade, A Professora de Piano, Lua de Fel e Mata-me de Prazer? O poder da sugestão é mais arrebatador que uma penetração explicita na tela. A explicitude poderia ficar em segundo ou terceiro plano, trocada por um sensual feixe de diálogos, talvez, mais eficientes. Não precisa ser crítico de cinema ou psicanalista para saber disso. Os produtores de Cinquenta Tons de Cinza, no entanto, parecem mais preocupados com a polêmica, em detrimento da qualidade e da verossimilhança do filme.

As continuações, no entanto, estão mais que certas. Estamos diante de um fenômeno literário e cinematográfico, em outras palavras, uma das maiores bilheterias de todos os tempos. E, mais uma vez, sem sombra de dúvida, pagarei para ver o resultado, na esperança de que narrativas melhores virão.

Cinquenta tons de Cinza deflagra outro problema, desta vez, de ordem externa. O discurso míope da crítica de cinema por boa parte dos principais veículos de comunicação brasileiros. Ao passo que lia algumas críticas ao filme, acredito que eu tenha ficado mais ruborizado que a personagem Anastasia A maioria dos textos aborda o filme em comparação com o livro, chegando, inclusive, a fazer quadros apresentando como “tal cena” aparece no livro e como está no filme. Um dos requisitos mínimos para um profissional que trabalha com análise fílmica é compreender que cinema e literatura fazem parte de um feixe semiótico e que um filme não precisa ser fiel ao livro, haja vista que são linguagens diferentes. Um filme surge do processo de leitura de alguém (geralmente o roteirista) que vai construir uma adaptação. É um processo de escolhas e subjetividade. Esta questão já saiu das muralhas da pesquisa universitária e habita o senso comum há tempos, mas parece que ainda é um requisito vergonhoso de análise.

Cinquenta Tons de Cinza é um filme oportunista porque se apropria de problemas sociológicos e psicológicos da mulher contemporânea para produzir um filme “enlatado”, realizado para consumo rápido e sem pequenos, que dirá grandes, questionamentos que se espera de uma narrativa deste quilate. Mal contado porque o roteiro ruim não dá conta da evolução dos personagens e situações, os diálogos são frágeis e insalubres, bem como constrangedores, pois onde a missão era excitar, provocou frouxos risos.

Saudades do tempo em que Sex and The City (a série) promoveu uma revolução na representação audiovisual do sexo na mídia: tratar o tema tabu (sexo) e as mulheres com mais equilíbrio e dignidade que esta famigerada e pretensa bobagem erótica intitulada Cinquenta Tons de Cinza, um dos piores “grandes” filmes dos últimos anos.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey) — EUA, 2015
Direção: Sam Taylor-Johnson
Roteiro: Kelly Marcel (baseado em romance de E.L. James)
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Luke Grimes, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Max Martini
Duração: 125 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.