Crítica | Cinquenta Tons de Preto

CINQUENTA TONS DE PRETO

estrelas 3

Ao começar a sessão de Cinquenta Tons de Preto, percebi que havia a possibilidade de seguir por dois caminhos no posterior processo de análise do filme: a primeira, mais conservadora, seria um posicionamento focado nos aspectos técnicos, no desenvolvimento do roteiro e dos personagens, em suma, uma análise da obra cinematográfica e os seus excessos de piadas politicamente incorretas e cenas escatológicas, dignas da minha ânsia de vômito. Por outro lado, há um caminho de análise que nos faz perdoar todos estes problemas, permitindo-nos rir desta sátira que tira sarro de um dos piores filmes do cinema contemporâneo. Optei pelo segundo caminho.

No filme, Christian Black (Marlon Wayans) é um empresário milionário sedutor e aparentemente cheio de mulheres à sua disposição. Certo dia recebe a estudante Hannah (Kali Marik) em seu escritório, tendo em vista as respostas para uma entrevista a ser realizada pela estudante de literatura. Insegura e de trajes simples, a moça chega ao local coberta por seu jeito inocente de ser, sem fazer ideia de que vai se tornar alvo dos desejos sexuais nada ortodoxos do “garanhão” negro.

A ida ao escritório, tendo em vista substituir a sua amiga desbocada Kateesha (Jenny Zigrins) demarca uma mudança repentina na vida sentimental e sexual da jovem. Não demora muito para o Sr. Black começar a aparecer sorrateiramente em alguns locais por onde Hannah trafega, criando-se então uma relação cada vez mais próxima, perigosa, cheia de surpresas e… piadas nem sempre engraçadas, extremamente apelativas, mas deliciosamente ácidas ao retratar o universo banal da obra “original”, Cinquenta tons de Cinza, dirigido por Sam-Taylor Johsson, ou seja, o pior filme de 2015 segundo a crítica especializada e boa parte do público.

Com direção de Michael Tiddes, Cinquenta Tons de Preto investe em algumas piadas de teor político, principalmente ao retratar, com bastante humor, o racismo nos Estados Unidos da contemporaneidade. O efeito metalinguístico funciona bem graças à retomada de enquadramentos, planos e movimentação em algumas sequências idênticas ao infame filme-cinza. Diferente de filmes como Todo Mundo em Pânico, produções que satirizavam bons filmes, Cinquenta Tons de Preto flerta com algumas das piores obras dos últimos tempos, sendo o hediondo Magic Mike um dos referenciados.

Há ainda piadas com Donald Trump, Barack Obama, Kevin Hart, Bill Cosby, citações aos filmes de Cuba Gooding Jr., além de brincadeiras com produções sobre opressão aos negros, tais como Amistad, 12 anos de Escravidão e Tempo de Glória. Alguns chicotes para as sessões de sadomasoquismo do tal “quarto vermelho” possuem nomes de filmes que abordaram a exploração, seguida da violência física e psicológica dos negros. São citações que passam bem ligeiras, mas que não devem ficar de fora da análise macroscópica do filme.

Marlon Wayans não faz nada diferente dos filmes que protagonizou anteriormente: muitas caretas, trejeitos exagerados, em suma, todo o histrionismo de sempre. O que muda aqui é a qualidade da paródia. Diferentemente de Inatividade Paranormal (tedioso) e dos últimos fiascos da franquia Todo Mundo em Pânico, desta vez o foco é tirar sarro do maior desastre narrativo de todos os tempos, uma fonte que por si só, é digna de risos.

Sendo assim, acertou em cheio na escolha, mesmo que algumas piadas soem exageradas e apelativas. Funciona bem melhor para quem conhece o filme satirizado, pois pode incomodar muito aos que desconhecem o tenebroso mundo do Sr. Grey e de Anastacia, dois dos personagens mais estúpidos do cinema e da literatura contemporânea. Conseguem perder até mesmo para Bella de Crepúsculo, o que de acordo com o bom senso, é de se carregar a cruz da vergonha eternamente. 

Cinquenta Tons de Preto (Fifty Shades of Black) – EUA, 2016.
Direção: Michael  Tiddes.
Roteiro: Marlon Wayans e Rick Alvarez.
Elenco:  Marlon Wayans, Kali Hawk, Fred Willard, Mike Epps, Jane Seymour, Florence Henderson, Andrew Bachelor, Jenny Zigrino, Kate Miner, Affion Crockett.
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.