Crítica | Cinquenta Tons Mais Escuros (Com Spoilers +18)

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Cinquenta Tons Mais Escuros (2017) é, em tese, a gozada continuação do broxante Cinquenta Tons de Cinza (2015), e deveria ser o equivalente a visitar um dos espaços úmidos após tempo suficiente estimulando o períneo cinematográfico. Deveria mostrar mais, deveria ter épicos mammalingus, deveria ter ao menos um lollipop ou honrar a péssima referência imagética ao longa De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999), usando a máscara não apenas como parte de um baile, mas como caminho erótico simbólico, misterioso, dramaticamente mais escuro. Nem uma dessas coisas, porém, acontecem e o filme, que propõe mostrar “o outro lado” de Christian e Anastasia, nos faz partir de uma perspectiva parecida com a de uma colossal felação para uma simples e rápida luta de cinco (ou dois) contra um.

Em um momento da projeção, confuso diante das atrocidades cênicas, me perguntei a qual gênero o filme deveria pertencer, e então vieram as classificações. Se Cinquenta Tons Mais Escuros for um romance, ele não mostra nada além de uma jovem tendo que abrir mão de sua vida pelo macho-alfa milionário, além de diálogos que até aquelas páginas de Facebook que criam historinhas com conversas do Whatsapp pensariam em algo melhor:

__ Quer casar comigo?

__ Por que?

__ Porque quero passar cada minuto do resto da minha vida com você.

Se o filme for um drama, 20 minutos de história seriam o suficiente, já que o roteiro insere três vertentes dramáticas no início (relação de Christian com a mãe, com uma ex-dominada louca e com a mulher que lhe ensinou as “artes eróticas”), e se empenha em ignorá-las durante uma hora, voltando a elas depois e resolvendo tudo com cenas curtas no final. Por fim, se o público for ao cinema na expectativa de assistir a uma boa história erótica, sairá profundamente decepcionado, especialmente com a visão juvenil que a obra passa do sadomasoquismo — para produtores e roteirista, essa vertente do prazer se resume a sexo oral, vendar alguém, acorrentar as mãos por um curto período, usar Ben-Wa (as famosas “bolinhas de pepeca“) e dar uns tapinhas na bunda enquanto rola uma música pop para deixar a cena mais açucaradamente tesuda, como naqueles soft porn pífios que passavam de madrugada na TV aberta. Em resumo, a obra se mostra incompetente e desinteressante em qualquer gênero possível.

Procurando continuar a sarrada sacana com Anastasia, Christian, que havia sido deixado com blue balls no final de 50 Tons, resolve dar o braço a torcer e procura recomeçar o relacionamento com a mulher que aprendeu toda a teoria sobre quem ele era e, mesmo depois de um contrato e de pesquisas na internet, ficou espantada com o fato dele ter um quarto para hard sex com ajuda de acessórios e adição de dor à guisa de prazer. É mole?

Anastasia deveria saber o comportamento do sádico e do masoquista e o que resulta a união desses dois comportamentos. Como consequência, deveria saber o que esperar de alguém com esses interesses; na teoria, Grey deveria estar no miolo de classificações (na verdade, nem sádico ele é. Por seu comportamento, ele se enquadra mais no grupo dos switch). Ou seja, todo esse ambiente é algo bastante fora do comum, mas o filme o resume a atos que qualquer pessoa em busca de maiores animações sexuais já fez, como algemar/prender alguém ou tentar uma posição diferente (aliás, em determinados momentos, tive a audácia de pensar que minha vida sexual é mais interessante que a dos protagonistas, e o filme deveria me fazer pensar exatamente o contrário!). Alguns poderão dizer, “mas ele larga esses hábitos porque está se libertando!”. Essa afirmação, porém, faria do roteiro um oceano ainda maior de nonsense, posto que sádicos e masoquistas não mudam seus fetiches por um amor romântico e, posto isso, Christian está mais para poser sexual. Mas a coisa fica ainda pior.

Vem à tona o lado machista, infeliz e escroto que o enredo destaca. Repare como as ex-dominadas de Grey são retratadas como loucas e desequilibradas, inclusive, quando uma delas invade o apartamento de Anastasia. A garota é rapidamente encaminhada para tratamento psiquiátrico, enquanto ele, o macho feeder, facilmente abandona o fetiche, basta alguns beijinhos e mergulhos majoritariamente no estilo “papai-mamãe” com Anastasia e pronto, o homem que utilizava das memórias de infância para castigar mulheres parecidas com sua mãe cracuda (isso não é sadismo, é um sério trauma psicológico que o personagem, de tão egoísta e infame que é, tentou sublimar através de BDSM), está apaixonado, entregue ao fairy sex e se esforçando para “não precisar mais daquilo”. O dominador consegue se livrar disso facilmente. As dominadas são doentes inconsequentes, invejosas, rancorosas e impossíveis de se livrar do hábito.

O roteiro ainda nos traz terríveis surpresas dramáticas, daquelas tipo “sonho molhado em colchão de acampamento”, inserindo personagens aleatórios com um nível de importância incoerente na obra (Rita Ora, a irmã de Christian, não funcionou no filme anterior e também não funciona aqui); ou que só fazem mesmo preencher espaço, mas não possuem importância real para a presente fase da narrativa (Victor Rasuk, que interpreta José, o amigo apaixonado por Anastasia, é um exemplo); ou que surgem como uma promessa para “apimentar” a relação meia-bomba do casal protagonista e acaba se tornando o pior tipo de vilão possível, aquele ressentido com bobagens, que muda drasticamente de comportamento por pequenezas e tem atos que desafiam qualquer padrão de verossimilhança imaginável. Adicione a isso e o fato de a ex-dominada de Grey conseguir passar por toda a segurança possível de sua garagem e apartamento. Talvez o roteiro estivesse fazendo uma homenagem à Spider-Woman do Milo Manara e ninguém entendeu…

Nessa miríade de falsos orgasmos múltiplos, temos o absurdo do clímax, onde Grey sobrevive a uma queda de helicóptero e trata o acidente como o evento mais natural que podia acontecer a ele. É impressionante constatar como viagens entre Portland e Seattle podem ser mais rápidas do que realmente são, visto que o personagem sofre um acidente em um lugar e se dirige a outro mais rápido que uma ejaculação precoce em um voo a jato. O filme parece querer vendê-lo como um super-homem sado[masoquista?] com fixação pela posição “papai-mamãe” e nuances de um híbrido louco entre neo-romântico-abusivo-e-possessivo sem jamais se confirmar como qualquer uma dessas coisas, inclusive desmentindo em texto, a principal delas. Nem o amparo dramático do passado dele serviu para trazer verdades permanentes, uma vez que desvia o motivo de seu fetiche. O primeiro filme deveria se passar, portanto, em um hospital psiquiátrico para que este fizesse sentido.

Os únicos componentes que tentam criar um aspecto “mais escuro”, como o título sugere, é a direção de fotografia aliada a uns poucos elementos técnicos, utilizando uma paleta repleta de tons apagados/esbranquiçados, figurinos concentrados em roupas escuras e um desenho de produção focado em construir cenários sombrios ou que pelo menos sugiram um certo mistério. Contudo, esses elementos se mostram inúteis diante de um roteiro infantil, que não poderia estar mais distante da parte técnica. Mesmo cenas que são construídas com maior cuidado, como a que Grey pede Anastasia oficialmente em casamento; ou mesmo o baile de máscaras, acabam se tornando ilhas isoladas em um continente de cinza-escuro, concreto e questões pessoais de pessoas que transam muito. Parece que estamos assistindo a uma maratona de episódios de uma série sobre o Barney, de How I Met Your Mother.

Um destaque parcialmente positivo vai para a trilha sonora. As canções escolhidas são boas, mas a repetição desmedida de algumas delas, especialmente da faixa principal (de Zayn e Taylor Swift), não tem um bom efeito sobre o espectador. Notem também que a edição tenta fazer algo diferente nas primeiras cenas, mas abandona qualquer intenção de penetrar com um ritmo mais intenso em planos de ângulos tão desconfortáveis.

Cinquenta Tons Mais Escuros é um filme que busca se conectar com sua outra parte e abrir espaço para um componente seguinte, mas não consegue fazer isso. O filme até poderia ser autossuficiente em termos de drama, mas a linha episódica e falha do roteiro não proporciona esse luxo. A busca por se conectar com uma linha maior e mais grossa da luxúria se dispersa aqui, e a trilogia se frustra como concepção, da mesma forma que frustra ao espectador. É o pior tipo de surpresa, exatamente como a da pessoa que passa muito tempo atrás de uma “outra metade da laranja”, mas ao encontrá-la, percebe que está sendo chupada por outra pessoa.

Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker) – EUA, 2017
Direção: James Foley
Roteiro: Niall Leonard (baseado na obra de E. L. James)
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Kim Basinger, Eloise Mumford, Luke Grimes, Bella Heathcote, Eric Johnson, Rita Ora, Victor Rasuk, Robinne Lee, Fay Masterson, Max Martini, Brant Daugherty, Tyler Hoechlin, Hugh Dancy, Rowan Blanchard
Duração: 130 min

LUIANDO CAMPIAGO . . . O espelho abriu a boca e me engoliu. Como um gato com fome, um tanto mal-educado, completamente violento. Na hora eu não pensei em nada. O caso era esse: pelos meus crimes de falar mal de filmes ruins, fui condenado ao inferno, pelo meu povo, os Saporcos do planeta Porsapolândia. Eu morri, e vim para o inferno. Parece que aqui vocês chamam o lugar de Terra. Sabe-se lá por quê.