Crítica | Cinzas no Paraíso

estrelas 4,5

O nome de Terrence Malick, tido como um dos últimos dos vanguardistas do cinema nos anos 70, é quase um patrimônio cultural da leva contraculturalista de cineastas que surgiram naqueles meados, um cinema de visão já findada para nossa época cada vez mais cínica e desacreditada. Mas quando Malick explodiu e foi taxado como gênio (seguido por seu hiato de 20 anos logo após suas primeiras incursões), eram seus filmes que oscilavam entre a vida do homem em contato com a natureza exposta e a busca por traduzir sentimentos tão banais como o amor em celulóide, o verdadeiro encanto de um Hollywood cada vez mais libertária e abraçada à realidade cotidiana, seja ela urbana ou rural.

Cinzas no Paraíso, o segundo longa de Malick, se encaixa neste segundo campo e, diante de sua aparente simplicidade narrativa e imagética, o cineasta reserva uma das experiências cinematográficas mais exuberantes que o cinema já ambicionou conceber, um feito aprimorado do que o diretor já havia conseguido em Terra de Ninguém, um road movie aliado entre imagens e discursos no objetivo de atingir sua própria poesia. E no caso de Cinzas do Paraíso, a poesia é o que emana da tela através da inacreditável beleza plástica dos quadros concebidos por Malick.

Apegado a um sentimento tão comum e humanista como o amor, sentimento este que viria acompanhar várias de suas obras posteriores sobre outros viés, o roteiro centraliza três personagens em sua trama: Bill (um jovial Richard Gere), Abby (Brooke Adams) e O Fazendeiro (Sam Shepard), que acabam por formar um triângulo amoroso na Chicago do século XX, ambientada em sua fase de crise econômica, industrialismo em alta e péssimas condições de trabalho para quem buscava a sobrevivência. Bill e Abby, vagando pelos EUA atrás de emprego, acabam parando nas atividades de colheita na fazenda do Fazendeiro. Bill, ao saber que restava pouco tempo de vida para o dono da fazenda, finge ser irmão de Abby e a convence a casar-se com o Fazendeiro e herdar toda a fortuna após sua morte. E a partir daí, as relações entre essas três figuras  começam a se intensificar e fragilizar.

Desapegado de qualquer sentimentalismo choroso como já havia feito em Terra de Ninguém, Malick novamente dá voz mais as suas imagens e ambientação do que ao que sai da boca de seus personagens, valorizando aqui a percepção imagética do espectador para o que se desenha na tela. Quando o roteiro permite que algo seja verbalizado, é através das falas em off de Linda (Linda Manz), uma criança que narra os acontecimentos através de seu olhar simplista, distante, inocente, mas que cria um paralelo seco  e sufocante sobre o ambiente trabalhista hostil que cerca os personagens e suas relações cada vez mais conturbadas. E junto a isso, Malick insere a força significativa de suas imagens de tons pastéis fortes, quentes, igualmente simbolizando a tragédia iminente que cerca aquele triângulo.

E aqui, vale lembrar uma das principais curiosidades históricas da produção: Cinzas no Paraíso foi filmado apenas nas chamadas “horas mágicas” do dia, ou seja, os horários do amanhecer e entardecer. Enunciando o caráter metafísico e filosófico de sua narrativa, a fotografia do finado Nestor Almendros (que já havia trabalhado com nomes como Eric Rohmer e François Truffaut) acompanha, com sua paleta de cores, o desenrolar e intensificar dos acontecimentos quase como um personagem à parte, elaborando toda uma beleza plástica que muito se traduz como as próprias pinturas norte-americanas na era pré-industrial, o que faz com que Cinzas no Paraíso se assemelhe a uma pintura em movimento, tamanho seu rigor estético e controle de sua unidade visual. Almendros foi merecidamente agraciado com uma vitória no Oscar. E ainda assim, não é apenas o magnífico trabalho do diretor de fotografia que completa Cinzas do Paraíso, mas igualmente funcional é a trilha melancólica e evocativa do mestre Ennio Morricone, em igual sintonia com as imagens da obra e os sentimentos dos personagens.

E Malick, nada gratuito como contador de histórias, alia constantemente a exuberância técnica de sua equipe com sua narrativa simbólica e representativa sobre o estado de espírito que assola aquele ambiente, seja pela ironia da já mencionada narração em off por uma criança (ironia também presente no título original), seja pelas alegorias bíblicas que acentuam o anúncio de uma tragédia (a cena dos gafanhotos é indescritível), seja pela destruição da natureza ao redor pelo fogo em sintonia com a decaída do homem em meio a sua ambição desmedida. Não há como não dizer que Cinzas no Paraíso é, de fato, poesia pura. E tudo isto através de uma abordagem sóbria, simplista, mas não menos tocante em seus fatores humanos.

Cinzas no Paraíso (Days of Heaven) — EUA, 1978
Direção:
Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Richard Gere, Brooke Adams, Sam Shepard,  Linda Manz, Robert J. Wilke, Jackie Shultis, Stuart Margolin,  Timothy Scott, Gene Bell, Doug Kershaw, Richard Libertini
Duração: 94 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.