Crítica | Círculo de Fogo (2001)

estrelas 2

A indústria cinematográfica coleciona uma série de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. As produções mais conhecidas são ocidentais e em suas narrativas, geralmente, fazem circular infames estereótipos ou incorreções de dados históricos, em situações que chegam a ser constrangedoras do ponto de vista lógico e intelectual, tudo em nome do favorecimento da nação de origem dos envolvidos na produção. Um dos mais comuns é a imagem da bandeira dos Estados Unidos hasteada em lugares onde a mesma deveria etar suja, rasgada e com diversos pedaços espalhados.

Em tramas europeias isso não é diferente, assim como em filmes brasileiros encomendados sob o ponto de vista partidário. Círculo de Fogo, drama de guerra “multinacional”, dirigido por Jean-Jacques Annaud, o francês responsável pelo ótimo O Nome da Rosa, é uma dessas produções: as suas cenas de ação, apesar de poucas, são bem executadas, a trilha sonora dá conta das poucas emoções e a trama, nas partes que funciona, é bem executada, criando um fosso em relação aos problemas de roteiro e ao relacionamento amoroso “barato” colocado no filme para ampliação do “gradiente” narrativo. Resultado: a fórmula não funcionou.

Baseado no livro Enemy at the Gates: A Batalha de Stalingrado, de William Craig, o roteiro foi assinado por Alain Godard e nos oferta a seguinte trama: Vasily Zaitsev (Jude Law) é um jovem atirador convencido por seu companheiro de batalha, Danilov (Joseph Fiennes), a se tornar um dos ícones da propaganda soviética durante a Segunda Guerra. Logo, tal iniciativa desperta a atenção do exército nazista, e com isso, escalam o melhor atirador de elite (Ed Harris) para exterminar o ícone propagandístico soviético, uma das representações da esperança neste terrível período de perdas e violência.

Violento, por sinal, o período descrito. As imagens do filme são bem contidas se comparadas ao derramamento de sangue em filmes como O Resgate do Soldado Ryan e Além da Linha Vermelha. O desenvolvimento dos personagens também ficou por conta desta contenção: são figuras rasas que passam diante de uma trama situada em uma era complexa para a humanidade. Há a amizade entre amigos que se abala com a paixão pela mesma mulher, a bela recruta Tania (Rachel Weisz). Os “momentos de amor” não acrescentam praticamente nenhuma fagulha para acender a chama da narrativa, mas também não atrapalham. Podiam, enfim, ter economizado um personagem e se preocupado em reparar os erros históricos.

Para compreender a insistência neste tópico, é preciso mergulhar no período em questão. Stalingrado, de 1942 a 1943. A batalha que durou 199 dias foi um ponto de virada na frente oriental da guerra, haja vista que marcou o limite da expansão alemã em terreno soviético. O Exército Vermelho (no filme) precisava de um herói que encorajasse os soviéticos a repelir os nazistas. Assim, os “homens de vermelho” (nos relatos históricos) empurraram as forças alemãs até Berlim, numa das batalhas mais sangrentas do século XX, com “vitória” soviética, cabe ressaltar. Mas como o filme representa tudo isso?

Da forma mais anti-comunista, anti-soviética e carregado de teor folhetinesco. Os soldados (malvados) batem na população quando na verdade tinham esvaziado praticamente todo o local por conta da guerra em 1942. Os soviéticos, diferentes dos personagens estadunidenses que costumam hastear as suas bandeiras e dizer “eu amo a minha nação”, surgem sem firmeza ideológica, em constante estado de indecisão. Não é a toa que muitos veteranos de guerra consideraram o filme uma piada.

Círculo de Fogo, entretanto, consegue ser bem melhor que muitas narrativas sobre o período histórico em questão. Nada contra o amor, mas se você conseguir abstrair o romance abobalhado que surge para preencher o roteiro e for capaz de não se importar com as imperfeições históricas do enredo, é bem possível que este seja um filme memorável. A produção estreou em 2001 no Festival de Cannes e recebeu, no geral, críticas positivas.

Círculo de Fogo (Enemy at the Gates) – Alemanha, França, Irlanda, EUA e Reino Unido/2001.
Direção: Jean-Jacques Annaud.
Roteiro: Jean-Jacques Annaud e Alain Godard, baseado no livro Enemy at the Gates: A Batalha de Stalingrado, de William Craig.
Elenco:  Jude Law, Ed Harris, Joseph Fiennes, Rachel Weisz, Bob Hoskins, Ron Perlman, Sophie Rois, Mario Bandi, Eva Mattes.
Duração: 131 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.