Crítica | Círculo de Fogo: A Revolta

Obras como Aliens, O Resgate e Blade Runner 2049 ensinaram que, para realizar uma continuação bem sucedida, é necessário ter respeito pelo material original, mas também ousadia para expandi-lo de maneira coerente e, principalmente, interessante. Obviamente, essa não é uma tarefa fácil, mas os exemplos citados acima mostram que é possível. No caso de Círculo de Fogo: A Revolta, a dificuldade está em continuar a história de um diretor autoral como Guillermo del Toro, dono de uma assinatura visual marcante. Portanto, diante de um projeto tão desafiador, o realizador Steven S. DeKnight (showrunner da primeira temporada de Demolidor) falha completamente ao comandar o segundo capítulo da franquia.

O longa acompanha o jovem Jake (John Boyega), filho do herói de guerra Stacker Pentecost (Idris Elba), e que vive atualmente como ladrão de peças. Após envolver-se em uma fuga com a adolescente Amara (Cailee Spaeny), Jake é obrigado a retornar ao programa Jaeger por sua meia-irmã Mako Mori (Rinko Kikuchi).

No primeiro filme, devido ao foco nos jaegers, as motivações dos alienígenas foram resumidas a colonizar o planeta e dominá-lo. Por isso, o caminho óbvio neste segundo filme seria aumentar a ameaça e potencializar o vilão. Contudo, o roteiro, escrito por DeKnight, Emily Carmichael, Kira Snyder e T.S. Nowlin, opta pelo caminho inverso, utilizando a maior parte do tempo para apresentar mais robôs, personagens estereotipados e uma trama sobre drones que o próprio longa descarta depois. Para piorar, além de trazer os kaijus apenas no terceiro ato, o surgimento das criaturas é ancorado por uma reviravolta envolvendo um personagem que, por mais que seja impactante, não faz sentido dentro da narrativa. Inclusive, a explicação de que o Programa Jaeger continuou para estudar o funcionamento dos kaijus é incompreensível e ilógica, uma vez que os robôs gigantes continuaram sendo construídos mesmo sem uma ameaça aparente.

Assim como a questão envolvendo os drones, que apenas ensaia uma crítica às corporações globais, Círculo de Fogo: A Revolta parece predisposto a estabelecer ideias para eliminá-las em seguida. No início, uma narração em off mostra como a terra reagiu à guerra contra os kaijus, seja socialmente ou economicamente, como no aumento de contrabandistas de peças de robôs gigantes. Aliás, Jake era um desses ladrões e vivia como rei, como ele mesmo descreve. Porém, na virada para o segundo ato, o protagonista parte para o Programa Jaeger, mesmo com muita resistência, e essa abordagem não é resgatada novamente. Falando em descartar ideias, o desfecho que a obra dá para Mako Mori é extremamente banal, visto que ela era a personagem mais interessante do primeiro longa e é pessimamente utilizada aqui. Além disso, a trama familiar de Amara, traumatizada pela perda da família, é rigorosamente igual a de Mako, soando como algo genérico.

Outro grave erro aqui são determinadas falas expositivas do roteiro. Há cenas que duvidam enormemente da inteligência do público, como no momento em que Lambert comenta ‘‘os kaijus não podem chegar ao Monte Fiji’’ logo após Dr. Hermann explicar exatamente o mesmo. Além das exposições, o roteiro abusa de personagens genéricos, com direito a um grupo de adolescentes composto pela valentona metida, o garoto gentil e a jovem que sofre bullying por sua altura. Enquanto isso, Lambert não recebe desenvolvimento algum, impedindo que Scott Eastwood realize alguma coisa com o papel, ao passo que John Boyega faz muito com seu personagem, destacando o lado rebelde e irreverente de Jake. Aliás, a maneira como o texto explora o sentimento do protagonista após perder um ente querido beira o infantil, visto que seu luto dura segundos, impedindo que a história tenha qualquer carga dramática.

Porém, os roteiristas não constroem a tragédia sozinhos, uma vez que DeKnight mostra-se sem inspiração na direção do longa. Por mais que o diretor seja eficiente durante as cenas de ação, mantendo a câmera aberta e evitando cortes desenfreados, não há aqui a mesma intensidade visual do primeiro filme. A opção por tomadas diurnas impede que a obra tenha as cores vibrantes do antecessor, tornando-a mais pálida do que deveria, como na sequência que se passa na Sibéria. Outra escolha equivocada do diretor é segurar a trilha tema de Círculo de Fogo apenas para o terceiro ato, visto que faixa musical era grande responsável pelo tom pop da obra. Dito tudo isso, fica claro como A Revolta sequer lembra a energia de seu antecessor.

Porém, o longa não é composto apenas por problemas. As batalhas entre kaijus e jaegers, no final, são empolgantes e homenageiam com precisão as histórias japonesas de monstros gigantes, levando a ação para Tóquio e mostrando a cidade sendo destruída em uma sequência digna de Godzilla. Além disso, o design dos novos jaegers é atrativo, principalmente pelas armas novas, como o mangual e o chicote. Aliás, o momento em que três kaijus fundem-se para formar um maior, empolga qualquer fã do gênero. No entanto, apesar do final entreter com eficiência, o desfecho é tão decepcionante e simplista que a sensação é de desapontamento, trazendo uma solução simples demais para o tamanho do problema que os personagens tinham pela frente.

Círculo de Fogo: A Revolta é maior que seu antecessor apenas no número de jaegers, visto que em todos os outros elementos o longa está abaixo. Aliás, mais do que isso, mesmo que seja analisado sem qualquer comparação, o longa é clichê, desinteressante e leva tempo demais para chegar no real objetivo do filme, a luta entre robôs e monstros gigantes.

Círculo de Fogo: A Revolta (Pacific Rim: Uprising) – EUA, 2018
Direção: Steven S. DeKnight
Roteiro: Steven S. DeKnight, Emily Carmichael, Kira Snyder, T.S. Nowlin
Elenco: John Boyega, Scott Eastwood, Cailee Spaeny, Jing Tian, Rinko Kikuchi, Charlie Day, Burn Gorman, Karan Brar, Ivanna Sakhno, Zhang Jin, Adria Arjona
Duração: 98 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.