Crítica | Círculo de Fogo

estrelas 4,5

Personagens estereotipados, roteiro padrão, forte carga de efeitos especiais e muita pancadaria. Fórmula infalível para um típico arrasa-quarteirão do verão americano, daqueles que vemos aos borbotões e que quase nada verdadeiramente se aproveita, não é mesmo? Círculo de Fogo seria assim, uma diversão descartável e esquecível no momento em que os créditos finais começassem a rolar, não fosse por um pequeno detalhe mexicano: Guillermo del Toro.

E o diretor fez toda a diferença em relação a esse filme, definitivamente separando-o do lugar comum a que ele estaria destinado se tivesse caído em mãos menos hábeis. Guillermo del Toro empresa sua atenção a detalhes e amor legítimo ao que faz para Círculo de Fogo, transformando o que poderia ser mais um filme estilo Michael Bay em uma criatura completamente diferente, rico em caráter, mas sem perder o que faz um filme de mostro ser um filme de monstro.

Mas primeiro, a história: uma fenda abriu-se no Oceano Pacífico e dela saem gigantescos monstros (os kaiju, que significa “criatura estranha” em japonês e é o termo usado para identificar os filmes de monstro notadamente japoneses, como Godzilla) cujo único objetivo parece ser destruir todas as cidades litorâneas do chamado Círculo de Fogo (daí o título certeiro em português, que foi xingado de todo jeito pelos reclamões de plantão que, aparentemente, deviam preferir “Borda do Pacífico” ou algo literal assim). A solução? Ora, é evidente: para lutar contra monstros gigantes, faz-se necessária a construção de robôs gigantes. Nascem, assim, os jaegers (caçadores, em alemão), comandado por dois pilotos que trabalham em sincronia via ponte neural.

Del Toro, que também trabalhou no roteiro, não perde muito tempo detalhando a origem dos monstros. Usando uma narrativa em off um tanto maçante, mas necessária, ouvimos Raleigh Becket (Charlie Hunnam, de Sons of Anarchy) contando sobre o quase-apocalipse e como os jaegers salvaram o mundo. E, com isso, somos jogados imediatamente na ação, com Raleigh e seu irmão Yancy (Diego Klattenhoff) pilotando Gipsy Danger contra um monstrão. Arrogantes e seguros de si, os irmãos apanham como cão ladrão e, junto com a tragédia anunciada, vem a queda dos jaegers.

Del Toro pilota o filme com a segurança dos irmãos Becket, mas completamente sem arrogância. Ele sabe que o material é, basicamente, uma colagem de clichês, mas ele também sabe que nem todo o clichê precisa ser trabalhado de maneira descuidada. Sua primorosa atenção a detalhes, em primeiro lugar, cria visuais arrebatadores trazidos à vida por um design de produção primoroso de Andrew Neskoromy e Carol Spier. É sabido que Del Toro interferiu e palpitou em todos os estágios da produção, trazendo seu conhecimento nerd/geek para a mesa tantas vezes quanto necessário e isso é refletido em cada fotograma, cada monstro e cada robô.

Aliás, os desenhos dos gigantescos seres e máquinas emprestam personalidade a elementos da composição cinematográfica que, na mão de um diretor menos competente, seriam só mesmo aquilo que eles são: buchas de canhão. O que Del Toro faz é o que de certa forma Shawn Levy fez em Gigantes de Aço. Nós nos importamos tanto pelos seres inanimados quanto pelos imensos monstros que povoam as telas. Sabemos seus nomes, torcemos e vibramos como se fossem personagens humanos.

E o mesmo vale para os soldados, cientistas e contrabandistas que vemos em cena. São todos basicamente unidimensionais, com funções únicas e específicas dentro da trama, mas, mesmo assim, del Toro trabalha ângulos e câmeras focadas em seus rostos de forma que vivamos o que eles vivem. Em uma análise rasteira, Raleigh seria só mais um valentão que se acha invencível, mas del Toro, ao escalar Hunnam para o papel tinha um objetivo: humanizar o estereótipo. O mesmo vale para a escalação de Idris Elba no papel do Marechal Stacker Pentecost. Ele faz pose, gestos e discursos saídos de personagens feitos de cartolina (diabos, até seu nome parece mais um boneco de G.I. Joe!), mas o enquadramento, a emoção, intensidade e o fiapo de história pregressa e os discursos (“Hoje, nós cancelaremos o apocalipse!”) que del Toro e Elba imprimem ao personagem, acabam retirando-o do básico e transformando-o em algo verdadeiramente memorável.

A dupla de cientistas, Dr. Newton Geiszler (Charlie Day) e Gottlieb (Burn Gorman), são alívios cômicos que del Toro usa até o limite do razoável, talvez indo um pouco além. Os dois atores funcionam bem em seus papéis antagônicos, quase como dois, dos três patetas, mas em um filme que já não se leva a sério, sua presença poderia ter sido cortada aqui e ali, especialmente porque a ponta do sempre ótimo Ron Perlman, como o contrabandista Hannibal Chau (mais um nome sensacional, não?) já vale como todo alívio cômico que a fita precisa.

No entanto, no campo de atuações, o destaque vai mesmo para a pequena Rinko Kikuchi, como Mako Mori. Sua presença é impactante, especialmente quando a contrastamos com todos os demais personagens principais. Ela rouba as cenas em que atua, mesmo na presença do imponente Idris Elba.

Mas del Toro vai além do design, roteiro e atuações. Ele consegue entregar um filme com um trabalho de câmera que deveria servir como padrão para filmes dessa categoria (a de “pancadaria incessante”). Tentem reparar com o diretor é cuidadoso em identificar os oponentes e em coreografar as lutas de forma que nós possamos, a qualquer momento saber que robô está lutando contra que criatura. Mesmo que a pesada dose de efeitos especiais tenha exigido que muito da ação se passe à noite e com chuva – para minimizar defeitos – fato é que nunca nos deparamos com uma situação da trilogia Transformers, em que é impossível identificar que robô está lutando.

Guillermo del Toro, ao emprestar seu enorme talento para criar mundos imaginários, nos presenteia com um filme que diverte e emociona, que nos faz sofrer e vibrar junto com os personagens clichê como se não houvesse amanhã. Entrega uma obra que, com trocadilho, se agiganta perante as demais do verão americano de 2013.

Círculo de Fogo (Pacific Rim) – EUA, 2013
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Travis Beacham, Guillermo del Toro
Elenco: Charlie Hunnam, Diego Klattenhoff, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Charlie Day, Burn Gorman, Max Martini, Robert Kazinsky, Clifton Collins Jr., Ron Perlman
131 minutos

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.