Crítica | Citizenfour

estrelas 3,5

Assunto extremamente atual e interessante – na verdade indutor de paranoia! – com uma execução pouquíssimo engajante. Independente do que você ache sobre as ações de Edward Snowden e o vazamento de informações por ele perpetrado para desmascarar o sistema de vigilância mundial estabelecido pela NSA, dos Estados Unidos, não há como negar que as discussões propostas em Citizenfour são extremamente profícuas e essenciais para nossos conceitos de liberdade de expressão e privacidade.

Vivemos em um mundo em que esses dois conceitos, na verdade, não só se confundem como estão encolhendo. A Internet veio para derrubar não só as barreiras geográficas entre países, mas, também, as barreiras invisíveis que cercam cada um de nós. Facebook, Twitter, Instagram estão aí para provar isso diariamente. Claro, há o argumento que, se alguém escolhe estar em uma das redes sociais e lá se expor, essa pessoa está abrindo mão daquele pedacinho de sua privacidade. Ok, raciocínio perfeitamente válido e do qual, na verdade, compartilho (mas minha posição sobre o assunto não interessa), mas a questão que Snowden literalmente jogou no ventilador, por intermédio de Laura Poitras, a diretora desse documentário e dos repórteres Glenn Greenwald e William Binney vão muito além do que cada um de nós escolhe revelar.

O que eles trazem ao mundo é coisa de ficção científica, amplamente prevista por diversos escritores, talvez o mais célebre deles sendo George Orwell em seu seminal 1984, lançado profeticamente em 1949, quando a Guerra Fria começava, computadores engatinhavam e a Internet era apenas um conceito extraterrestre. Portanto, não senti um pingo de surpresa quando a história de Snowden tomou a mídia e a internet de assalto. Na verdade, imaginar o contrário era, para mim, inimaginável. Não havia dúvidas em minha mente que, especialmente depois do 11 de setembro, os EUA (e também diversas outras nações do mundo – não adianta vilanizar apenas um país, pois seria muita inocência pensar dessa forma) tomaram todas as medidas legais e ilegais para monitorar ligações, vídeos, e-mails e, em última análise, todas as interações humanas, cada vez mais intermediadas por um tela de computador.

Mas não há dúvidas que efetivamente ouvir de Snowden e dos vários especialistas que surgiram a partir de sua delação corajosa em Hong Kong o escopo da empreitada americana é ao mesmo tempo embasbacante (é mesmo possível monitorar TODA comunicação humana?) e aterrorizante. Afinal, a História é cheia de exemplos de nações coletando dados sobre seus cidadãos, tirando conclusões quaisquer e tomando medidas drásticas. Foi assim na Roma antiga, durante a Idade Média e também na época moderna em literalmente todos os países do mundo, com especial destaque, claro, para ditaduras militares como em Cuba, Coréia do Norte, União Soviética, com resultados desastrosos (o fato da Rússia, hoje, dar abrigo a Snowden é uma contradição em termos, lógico, com a ironia que esse tipo de coisa carrega). E claro, os Estados Unidos sempre foi centro das atenções mundiais, por ser a maior potência atual e, por consequência, ter literalmente o poder de fazer o que quiser.

O documentário de Laura Poitras é história em movimento, acontecendo agora. Seu trabalho começa quando ela recebe comunicações de alguém que se identifica, apenas, pela alcunha Citizenfour. Como documentarista investigativa (e, segundo ela, perseguida pelos EUA) ela vai atrás do assunto até se encontrar com Snowden e os dois repórteres (um americano e um britânico) em um hotel em Hong Kong. Vemos o início desse contato, quando literalmente ninguém sabia quem Snowden era. Vemos o assunto ser desvelado na mídia pelo filtro dos repórteres, que também passaram a ser perseguidos, valendo especial destaque para o namorado de Greenwald que foi famosamente detido em Heathrow, em Londres. O Brasil aparece diversas vezes como local escolhido por Greenwald para estabelecer base depois que o assunto toma proporções astronômicas, com direito até a depoimento no Congresso Nacional.

O grande problema do documentário, porém, é estrutural. Sim, é fascinante ver os bastidores do maior ataque às liberdades civis que já se teve notícia, mas a escolha de Poitras em mostrar a realidade como ela é acaba tornando o documentário muito arrastado, com entrevistas longuíssimas com Snowden, momentos também muito longos de silêncio e contemplação e quase nada de narração. Como disse, o assunto em si é muito interessante e Poitras sabia disso e literalmente contou com isso para, digamos, interferir o mínimo possível com a objetividade do que estava filmando. No entanto, o resultado é potencialmente alienante. Não quero “fogos de artifício” ou invencionices, mas, muito sinceramente, às vezes as entrevistas com Snowden – sempre muito centrado e calmo – eram semelhantes a assistir depoimentos perante CPIs no Congresso, mas sem os xingamentos que nossos parlamentares “educadíssimos” gostam de fazer por total falta de educação, mas que apimentam o momento. Ou seja, é como ver pintura secar em diversas ocasiões.

Assistir Citizenfour em uma sentada só é difícil. É uma tarefa essencial, porém, que todos deveriam fazer, mas o documentário é pouco atraente, pouco chamativo e nada engajante. Vive pelo assunto excitantemente terrível que trata e isso é justificativa suficiente para correr atrás dele. Mas preparem-se para passar por momentos de lentidão que exigirão uma boa camada de esforço e resiliência.

Citizenfour (Idem, EUA/Alemanha – 2014)
Direção: Laura Poitras
Com: Edward Snowden, Glenn Greenwald, William Binney, Jacob Appelbaum, Ewen MacAskill, Jeremy Scahill, M. Margareth McKeown
Duração: 114 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.