Crítica | Class – 1ª Temporada (2016)

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estrelas 4

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Anunciada em outubro de 2015, Class, spin-off de Doctor Who, foi criada por Patrick Ness (que assinou o conto Na Ponta da Língua, com o 5º Doutor), e é dedicada ao público jovem adulto, diferente de The Sarah Jane Adventures, de caráter infanto-juvenil e de Torchwood, de caráter adulto. Houve uma grande desconfiança por parte dos whovians (inclusive eu) quando o projeto veio a público, mas este é o tipo de série que não parece assim tão animadora na premissa, mas que de alguma forma consegue superar as expectativas da maioria dos espectadores, entregando um produto sólido, criativo e que mantém um enorme potencial para a sua continuação.

A trama se passa na antiga Coal Hill School (agora Coal Hill Academy), a mesma escola onde estudou a neta do Doutor, Susan, e de onde vieram seus primeiros companions humanos, os professores Ian e Barbara (An Unearthly Child); onde Clara e Danny Pink deram aula e onde o Doutor foi zelador (The Caretaker). O quadro de memória aos professores já mortos ou aos alunos desaparecidos da escola (Clara, Danny e Susan estão lá) ainda traz outros easter-eggs de professores que conhecemos em outras ocasiões: A. Okehurst, J. Gibson e D. Hatcher (do livro Tempo e Afins); H. Parson (Remembrance of the Daleks) e A. Dunlop (The Magician’s Apprentice).

Já nos primeiros minutos do Piloto, For Tonight We Might Die — que tem a participação de Peter Capaldi, o 12º Doutor — temos uma apresentação funcional e levemente cômica dos personagens centrais da temporada: Charlie (Greg Austin, de Mr Selfridge), April (Sophie Hopkins), Ram (Fady Elsayed, de Brotherhood), Tanya (Vivian Oparah, em sua estreia na TV), Matteusz (Jordan Renzo) e Miss Quill (Katherine Kelly, de Mr Selfridge e da famosa novela britânica Coronation Street).

Patrick Ness não perde tempo na escalação dos problemas que os heróis (ou não tão heróis assim) irão enfrentar. O vilão Shadow Kin, do planeta The Underneath (cuja ideia de “oposto sombrio” da Terra me lembrou o Upside Down, de Stranger Things) aparece no baile e as mortes que se seguem, especialmente da namorada de Ram, mostram que Class não veio apenas para falar de presenças alienígenas que serão combatidas por um grupo de jovens (ou uma Quill adulta badass, com um Arn na cabeça, punida pelo príncipe contra o qual se levantou). Existe uma linha fraterna que aos poucos evolui, gerando amizades improváveis no melhor estilo Clube dos Cinco, que desembocará em um dilema moral tremendo, algo que certamente supera qualquer expectativa para um show com esta proposta e com esse público-alvo.

A criação dos novos vilões é outro elemento de destaque. Os efeitos especiais para a figuração de cada um deles, a inclusão nos roteiros e o modo de combate deles e contra eles estão organicamente relacionados com as linhas centrais da temporada (não há nenhum filler aqui) e afetam o grupo de estudantes e Miss Quill de formas diferentes, como vemos com o Leaf Dragon macho em forma de tatuagem no treinador Dawson; o Inspetor-robô em nome da Ofsted, instituição responsável por fiscalizar escolas, e que já tinha sido citada como forma de intimidação por Amy à matriarca das Saturnynianas em The Vampires of Venice [aqui, a Ofsted está afiliada aos Governadores]; os Lankin, criatura parecida com uma Videira que se alimenta de luto; as Killer Petals — que ideia sensacional para uma criatura mortal! — e The Prisoner. Em cada um desses momentos, os roteiros fazem questão de tornar realista a relação entre os membros do grupo que se uniu de forma abrupta, mas nunca deixou de apresentar rusgas em seus relacionamentos.

O tom humano de toda a série e os discursos de aceitação, inclusão e compreensão (sexual, social, étnica, religiosa e em relação a culturas diferentes, aqui diretamente ligado à presença dos aliens Charlie e Miss Quill) são maduros e nada forçados. Eles esbarram em muitos momentos na dramaturgia — Charlie e Matteusz são os personagens que realmente sofrem com isso. Por outro lado, o fato de serem um casal de humano + alien nos ajuda a compreender em parte suas posturas –, mas em nenhum momento temos uma fuga absurda do texto em relação aos problemas pessoas que todos possuem, além das ameaças em comum, tanto na dinâmica interna do grupo, quanto nos esforços em conjunto para deterem as ameaças que não só afetam o planeta de forma genérica, mas possuem impacto emotivo diretamente ligado a cada um eles, vide as mortes do pai de Ram e da mãe de Tanya em The Lost.

A BBC Three não poupou investimentos na pós-produção. Raros são os momentos onde os efeitos geram aquele desconforto que tão bem conhecemos (Rose…), mas nos quais vemos algum charme. Minha única reserva está na animação final para as almas do Cabinet of Souls e seu dispersar por todo o Reino Unido. Em comparação aos efeitos gerais da série, para os quais eu só tenho elogios, este foi o único momento aquém do esperado, muito embora a chegada das almas em The Underneath e sua consequente destruição tenham recebido um belo tratamento visual. Ainda em relação aos efeitos, vale citar a beleza da animação feita para o Leaf Dragon (tanto na forma de tatuagem quanto na forma real) e toda a representação do planeta dos Shadow Kin e seus habitantes.

Na direção de arte, o destaque absoluto é do onírico The Metaphysical Engine, or What Quill Did; na direção de fotografia, ressalto que toda a temporada contou com um excelente trabalho, mas pela dificuldade de iluminação e uso preciso de cores, além da movimentação inteligente de câmera e trabalho bárbaro com luz e sombras, o destaque vai para Brave-ish Heart. Já a melhor direção vai para Wayne Yip (Misfits e Utopia), no episódio mais difícil de se dirigir pelo caráter teatral, pelo ambiente claustrofóbico e pelo soberbo roteiro com emoções à flor da pele: Detained.

No Finale, tivemos acertos que vinham sendo problematizados ao longo de toda a temporada (vocês acham que Charlie e Matteusz permanecerão juntos?), culminando com a transição da essência de April para o corpo de Corakinus, o rei (aqui, pela segunda vez) dos Shadow Kin. Vemos a Sala M17 e os Governadores, instituídos em 2016 na Coal Hill School pela EverUpwardReach Ltd. (esse nome é visto abaixo do nome da escola, no marco que tem na frente o prédio), depois de ser reformada e mudar de nome para Coal Hill Academy. Sabemos até agora que os Governadores pesquisam, teorizam e agem junto a falhas no espaço-tempo (a UNIT parece não saber ou ter certeza de que existem ou que apresentam algum “perigo”) e, assim como seus empregadores, acreditam que essas brechas acontecem em certos lugares por um motivo especial. O mais interessante de tudo é que descobrimos que eles estão agindo juntamente com os Weeping Angels.

Impiedosa, com excelentes roteiros e com dilemas das mais diversas ordens (o espectador demora para se recuperar do tsunami de duras e cruéis verdades ditas em Detained), Class surpreendeu mesmo aos espectadores mais chatos (como eu) que não estavam dando a mínima para a série, até assistir ao primeiro episódio. A sólida temporada de estreia e a citação d’A Chegada, o que quer que isso seja, já nos deixam em estado de alerta para o ano dois da saga. E pelo visto, haverá viagens no tempo! Mais um vício adicionado com sucesso à realidade cada vez mais insana dos whovians.

RESPONDAM: Vocês têm alguma ideia do por quê o Weeping Angel matou a “diretora” Dorothea Ames, ao invés de mandá-la de volta no tempo? Ok, a parte óbvia a gente consegue mensurar: estando aliados aos Governadores, os Lamentadores talvez estivessem agindo assim a seu pedido. Mas os Anjos não “matam” mandando a vítima para o passado e vivendo de seu tempo restante na linha que permanece? O que vimos aqui é uma nova forma de matar (ou uma que não conhecíamos) aliada a esses vilões?

Class (2016) – 1ª Temporada –Reino Unido
Criador: Patrick Ness
Direção: Edward Bazalgette, Philippa Langdale, Wayne Yip, Julian Holmes
Roteiro: Patrick Ness
Elenco: Greg Austin, Fady Elsayed, Sophie Hopkins, Vivian Oparah, Katherine Kelly, Jordan Renzo, Aaron Neil, Pooky Quesnel, Shannon Murray, Paul Marc Davis
Duração: 44 min. cada episódio

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.