Crítica | Clinical (2017)

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estrelas 3

O segundo longa metragem do diretor Alistair Legrand, que dirigira Diabolical, seu filme de estreia, mantém o realizador no gênero do terror. Clinical, mais um Netflix Original, vem anunciado como um terror psicológico, que poderia se estabelecer com-o um ótimo thriller não fosse suas tentativas constantes de inserir momentos sanguinolentos em tela, que facilmente o poderiam colocar em nossa coluna semanal, o Sábado de Sangue. Curiosamente, são exatamente esses pontos que enfraquecem a narrativa da obra, que tenta transitar entre o suspense e o terror sem, de fato, conseguir se firmar em nenhum dos dois, nos entregando uma história que beira a profundidade, mas não consegue mergulhar tão fundo.

A trama gira em torno de Jane Mathis (Vinessa Shaw), uma psiquiatra que passa por um grande trauma após uma de suas jovens pacientes tentar se matar em seu consultório e levar a terapeuta junta no processo. Dois anos se passam e Jane ainda está lidando com o ocorrido, se consultando com um colega de profissão, que a aconselhara a tratar de casos menos extremos. Sua especialidade em PTSD, contudo, leva Alex (Kevin Rahm, de Mad Men), um sobrevivente de acidente, que tivera de ter seu rosto reconstruído, a procurá-la. Receosa, a psiquiatra decide aceitar o paciente, mal sabia ela que isso faria seu passado ressurgir com toda a força.

Na teoria, Clinical poderia se tornar um ótimo suspense psicológico, lidando com essa difícil síndrome vivenciada por milhares de pessoas (e não somente por policiais ou veteranos de guerra). O roteiro de Luke Harvis e Alistair Legrand, contudo, não parece se decidir se permanece no thriller ou cai direto no terror, inserindo um desfecho que desperdiça totalmente a construção de personagens em favor de um plot-twist totalmente maluco, que ora nos faz levantar uma das sobrancelhas, ora dar risadas de tão mirabolante. Temos aqui uma violência totalmente desnecessária, que acaba com a narrativa de tal forma que gostaríamos de ganhar um what if iniciado antes do terço final da obra.

Felizmente, a trama até esse momento explora com eficácia o trauma da protagonista e consegue nos deixar na angustiante dúvida se ela realmente está vendo sua paciente que tentará o suicídio ou se a menina realmente está ali diante de seus olhos. Enxergamos em Jane uma mulher que vai do mal ao pior e a caracterização de Vinessa Shaw chega a ser perturbadora, ao ponto de se tornar trágica, de uma mulher que estava prestes a se recuperar, ela se torna um poço de insônia e paranoia.

A direção de Legrand enriquece esse lado da narrativa ao empregar uma câmera na mão em determinadas sequências, que muito bem simboliza a instabilidade da psiquiatra. O clássico plano ponto de vista de alguém misterioso, escondido, olhando para o personagem, também se faz presente, abraçando características do Slasher movie que seriam retomadas no desfecho do longa. Além disso, são seus enquadramentos que fortalecem nossa ideia de que nem tudo o que vemos em tela é necessariamente a verdade, visto que ele opta por não dar a certeza absoluta do que acreditamos enxergar, construindo a paranoia da personagem com bastante eficácia.

O trabalho da atriz principal, também, não deve ser descartado – ela oscila entre a atitude mais distante e fria da psiquiatra e o papel de vítima abalada com uma fluidez assustadora, ao ponto que quase enxergamos duas personagens em tela. Essa mudança, porém, de forma alguma é repentina, sendo catalisada por eventos que forçam a personagem a relembrar de seu trauma. Ao seu lado temos o ótimo Kevin Rahm, uma constante incógnita que torna cada sessão de terapia nos pontos altos do longa-metragem, visto que não sabemos ao certo quando ele será atingido por mais uma crise de ansiedade provocada pelo seu rosto desfigurado.

Além dessas experiências traumáticas, a obra também lida com a pedofilia e o estupro de forma contundente até o seu trecho final, nos mostrando os terríveis impactos desses crimes nas vítimas e como suas vidas podem ser moldadas por tais eventos. Infelizmente, como já falado anteriormente, o final estraga tudo isso, deixando de lado essa questão a fim de finalizar a narrativa quase como um slasher movie, como se já não tivéssemos o suficiente desses no cinema.

No fim, Clinical é um filme que jamais se concretiza, abandonando suas boas ideias, que não chegam a atingir seu ápice, a favor de um encerramento mirabolante e esquecível. Uma verdadeira pena que Alistair Legrand tenha optado por um caminho que desperdiça toda a construção narrativa realizada até o seu terço final, ainda assim, temos aqui uma obra que consegue nos entreter, nos levando por uma espiral de incertezas, que lidam com questões psicológicas que mereciam um tratamento mais rebuscado. Está longe de ser uma das melhores produções originais da Netflix, mas certamente consegue nos divertir na maior parte da projeção.

Clinical — EUA, 2017
Direção: Alistair Legrand
Roteiro: Luke Harvis, Alistair Legrand
Elenco: Vinessa Shaw, Kevin Rahm, India Eisley, Aaron Stanford, Nestor Serrano, Wilmer Calderon, William Atherton
Duração: 104 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.