Crítica | Closer: Perto Demais

estrelas 5,0

Poucos filmes foram tão corajosos quanto Closer: Perto Demais. Assim como nós, o filme mergulha de cabeça numa trama com direcionamento pessimista, sem se preocupar com o que poderá vir disso tudo. Numa era em que o cinema tornou-se também terapia, o realismo e a exploração de nossas contradições ganham um olhar bastante elucidativo nesta trama que trata com seriedade os temas aparentemente simples, mas tratados com humor de primeira qualidade durante as seis temporadas de Sex and The City: a fuga da solidão através de um relacionamento, mesmo que este não seja bem sucedido; a necessidade de prever o término de um casamento e sair ileso; a busca por um estepe durante o impacto que é o final de um relacionamento; o interesse em manter a pessoa que abandonamos por perto, tendo em vista uma relação sexual em caso de carência, etc.

São estes e muitos outros tópicos que perpassam os 104 minutos do ótimo Closer: Perto Demais, seja de forma direta ou tangente. Dirigido com eficiência por Mike Nichols, o roteiro foi assinado por Patrick Marber, dramaturgo que se baseou em sua peça homônima montada pela primeira vez em 1997, e que no Brasil, no ano 2000, teve a sua versão nos palcos sob a direção de Hector Babenco. Longe da previsibilidade comum aos filmes de amor a que somos submetidos constantemente pela indústria cinematográfica, Closer: Perto Demais é a antítese das comédias românticas convencionais. Com os seus diálogos bem cuidados, roteiro dinâmico e condução sem pudores, o filme nos mostra o quanto a linha entre os nossos sentimentos é tênue, principalmente quando se trata do secular tempero de narrativas ficcionais: o amor e o ódio.

Aqui, entretanto, devemos somar ego, obsessão, vingança, tortura psicológica, dominação, etc., afinal, neste filme, vale tudo quando o foco é permanecer ou se afastar de uma relação, tendo em vista sair ileso. Intimista, a narrativa oferece poucas tomadas externas, além de focar no roteiro e evitar exibicionismos técnicos, sem deixar, no entanto, de entregar uma belíssima direção de fotografia, assinada por Stephen Goldenblatt.

Quando lançado em 2004, Closer: Perto Demais logo foi designado como “uma história de amor madura”, “um olhar focado nas relações humanas”, “uma aproximação dos sentimentos entre pessoas apaixonadas”. Em sua trama, quatro personagens nos mostram como manter uma relação requer uma série de ressalvas. A linda história de uma prostituta sortuda que conhece um empresário rico e torna a sua vida mais feliz passa longe deste drama intensamente realista. Anna (Julia Roberts) é uma fotografa que durante uma sessão com o jornalista Dan (Jude Law), esquece por hora o profissionalismo e acaba tendo um envolvimento que mais adiante complicará a sua vida. O moço é namorado da insegura Alice (Natalie Portman). Logo, durante uma situação inusitada, Dan se passa por uma garota e num chat, conhece Larry (Clive Owen) e marca encontro num aquário. O roteiro não demora a fazer Larry conhecer Anna, torna-los um casal, para logo depois, os relacionamentos de todos fracassarem e um começar a magoar o outro.

Sem perder o foco com coadjuvantes que não dizem muita coisa, o filme nos apresenta os quatro personagens muito bem delineados: Anna Cameron acredita ser forte, mas na verdade, é tão frágil e insegura que termina o filme de forma circular, provavelmente temendo a solidão; Alice Ayres é a mais incomum dos personagens, pois aparentemente fraca, é quem consegue soar enigmática e dona de si no momento da “virada” em sua vida; Larry Gray é o elo paranoico, um dermatologista que usa todo o sadismo possível para conduzir as coisas a seu favor; Dan Woolf é o simplório escritor de obituários do jornal que tem entre as suas características, a postura egoísta de terminar o relacionamento com Alice, mas mantê-la sob a sua vigilância, sentindo ciúmes, inclusive, quando a moça parece ter caminhado com a sua vida.

Desta forma, tendo em vista tais perfis dramatúrgicos, é de se esperar que comportamentos destrutivos pululem pelos diálogos, nos mostrando como podemos ser cruéis quando queremos machucar alguém, ou então, sairmos ilesos de uma situação que envolva sentimentos. “Eu não transei com ela para que houvesse diversão, eu transei com ela para acabar com você, afinal, uma boa guerra nunca é limpa”. Doloroso, não? Palavras de Larry Gray. E o que dizer de “você não entende nada de amor porque nunca soube o que é ceder”. Forte, concorda? Já experimentou dizer isso a alguém egoísta e fazer a pessoa de contorcer com esta realidade?

Acredito que seja muito raro encontrar uma pessoa adulta que assista ao menos uma cena de Closer- Perto Demais sem ter qualquer laço de identificação. Em certo momento, um personagem reforça, sem dó nem piedade, que “eles” (os depressivos), precisam ser infelizes para que seja confirmado o seu status de depressão. Como reforça durante um dos diálogos mais intensos do filme, “se eles forem felizes não poderão mais ser depressivos, pois teriam de sair pelo mundo e viver”. Como dizer isso para uma pessoa que se encontra derrubada por conta de uma fragilidade sentimental? No filme, os personagens pouco se importam. O que está em jogo é dominar a situação e manter as suas obsessões bem gerenciadas.

Em algumas partes da narrativa, “Cosi fan tutte”, uma das óperas mais famosas de Mozart, surge como boa escolha no que diz respeito à música incidental, bem aliada aos comportamentos dos personagens ao passo que estes atravessam as suas respectivas jornadas. No que tange ao tema musical The Blower’s Daughter, a escolha foi certeira, pois a canção na voz de Damien Rice toca nas cordas sensíveis de nossos sentimentos já abalados com os diálogos cruéis, mas sinceros, distribuídos ao longo deste drama que radiografa com maestria, a liquidez dos relacionamentos contemporâneos.

Closer: Perto Demais não passou despercebido pelos eventos anuais de premiação da indústria cinematográfica. Concorreu ao Oscar, Globo de Ouro e BAFTA em categorias de performance (Clive Owen e Natalie Portman). Antes de encerrar, cabe uma associação coerente: para quem conhece as ideias do filósofo Bauman em seu livro Amor Líquido, torna-se quase impossível não traçar associações. Ao investigar o “amor” na contemporaneidade, o autor afirma que há, cada vez mais, insegurança e inflexibilidade nos relacionamentos humanos. Em certo trecho, Bauman alega que “as relações afetivas são marcadas pelas inconsistências, superficialidades de sentimentos e visam satisfações do próprio ego”. No final das contas, a incapacidade dos humanos diante dos seus próprios desejos, como o filme ilustra de maneira nada convencional.

Na abertura desta reflexão, tracei uma relação rápida com Sex and The City, mas há um detalhe importante a ser notado. Salva as devidas proporções comparativas (e há muitas), não temos o que posso chamar de grafismo sexual comum ao seriado, pois em Closer-Perto Demais, o que está em jogo em muitos trechos é o desdobramento do contato sexual, esquema que torna as coisas ainda mais complicadas para os que estão envolvidos nesta teia de mágoas. Para os que conhecem o ambiente dos aplicativos comuns ao mundo contemporâneo, o filme parece uma transposição da realidade: conhecemos alguém hoje, depois de semanas flutuando atrás de um perfil que nos agrade. O problema é que após algumas conversas, promessas e até um primeiro encontro agradável, a pessoa se mostre exatamente o oposto e nos magoe com atitudes inesperadas de egoísmo e cafajestice.

Será a sina da humanidade? O filme nos mostra um pouco disso e traça, através de um painel nada otimista, que a tendência das relações humanas diante de tantas ansiedades é justamente o desapego, a liquidez e a fuga diante das incertezas, afinal, não está cada vez mais complicado emplacar um bom relacionamento? No entanto, fica a reflexão: será que o problema está em nós ou no “outro”? Ou em “ambos”? Acredito que a mensagem não seja exatamente nos fazer desacreditar no amor, pois prefiro apostar que o filme, baseado na famosa peça, tenha mesmo é o interesse de nos tirar da gravitacional alienação comum ao cotidiano, e nos mostrar, através das posturas de seus personagens, que o “amor” é um conceito amplo, complexo e escorregadio, difícil de ser conceituado.

Closer – Perto Demais (Closer) – Estados Unidos/2004
Direção: Mike Nichols
Roteiro: Patrick Marber
Elenco: Clive Owen, Jude Law, Julia Roberts, Natalie Portman, Steve Benham, Antony Gabriel, Daniel Dresner, Peter Rinic, Steve Morphew.
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.