Crítica | Cloverfield: Monstro

estrelas 4

Ah, os tempos em que a internet realmente sacudia o marketing de um filme. Em que era possível se surpreender e sentir-se parte de uma brincadeira maior dentro do cinema. Foi em 2007, durante as primeiras exibições de  Transformers, que o mundo viu pela primeira vez o misterioso trailer de Cloverfield: Monstro. Ninguém sabia do que se tratava. Nem a Paramount havia anunciado formalmente o que era aquela prévia em found footage que mostrava um ataque à Nova York e a cabeça da Estátua da Liberdade sendo arremessada no meio da rua. Só que tínhamos era um título e um site, que logo iniciava uma envolvente campanha viral.

Quase uma década depois, permanece divertido assistir ao filme de estreia de Matt Reeves, apadrinhado pelo produtor J.J. Abrams. Seguindo a estética de câmera dentro da história, Reeves nos leva para o lado civil de um ataque de monstro gigante, que se desenrola justamente quando um grupo de amigos arma uma festa de despedida.

Um mero pretexto do roteirista Drew Goddard para que Reeves execute um eficiente exercício de direção. Ainda que inserido na estética do found footage, os enquadramentos de Reeves são elegantes a fim de manter o aspecto cinematográfico da experiência, mas nunca muito elaborados ao ponto de suspender a descrença do espectador. Os movimentos são bruscos, incessantes e até chegaram a provocar enjoo em parte do público durante o período de sua estreia, e em meio a esse caos, Reeves constrói um suspense digno daquele feito com maestria por Steven Spielberg em Tubarão – Gareth Edwards demonstrou grande esforço, mas foi incapaz de replicar o efeito em seu Godzilla.

Nenhum dos trailers ou material de divulgação revelou o visual do monstro que arrasa a cidade, o que favorece Reeves em sua provocante revelação: entre desfoques e pans aceleradas, temos vislumbres de pernas, patas e silhuetas. Vemos aspectos de sua pele nem câmeras de televisão, até que Reeves enfim nos mostra sua grande ameaça; um suspense tão bem construído e fotografado com eficiência por Michael Bonvillain que compensa pelo design pouco imaginativo da criatura. Juro, nunca me senti tão nervoso para conferir a aparência de algo como em minha primeira sessão do filme em 2008.

Ainda que não passe de um pretexto, o elemento humano do filme é muito bem trabalhado, em grande parte pelo elenco. Há uma desilusão amorosa entre os personagens de Michael Stahl-David e Odette Annabelle que é tão clichê quanto sonolenta, mas que funciona graças às intensas performances do casal, principalmente na dramática cena final. Nosso cameraman, Hud, vivido por T.J. Miller funciona como um leve alívio cômico, ainda que irrite ao fazer comentários do tipo “Nossa, você conhece o Superman?”; frase que foi ridicularizada em 2008 e que ainda merece escrutínio de tão absurda.

Cloverfield: Monstro permanece tão misterioso e intenso quanto no período de seu lançamento, rendendo uma descompromissada e envolvente história de humano que surpreende pelo cuidado com seu fator humano.

Cloverfield: Monstro (Cloverfield, EUA – 2008)

Direção: Matt Reeves
Roteiro: Drew Goddard
Elenco: Michael Stahl-David, Odette Annabelle, T.J. Miller, Jessica Lucas, Lizzy Caplan, Mike Vogel
Duração: 84 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.