Crítica | Clube da Lua

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Há quem seja audacioso o bastante para tecer comentários negativos acerca do cinema brasileiro, utilizando dos mais variados adjetivos a fim de desqualificar as produções nacionais. Obviamente, são pessoas que não conhecem toda a grandiosidade do cinema nacional por nunca terem tido contato com filmes que não os veiculados na grande mídia ou por outro motivo qualquer, algo consideravelmente triste. Essas críticas, contudo, não se limitam aos filmes brasileiros. Sobra para praticamente todos os países, com exceção dos EUA, com sua multimilionária Hollywood. Felizmente, é possível mudar esse pensamento — e espero que essa crítica sobre a ótima película argentina Clube da Lua auxilie para ilustrar que há cinema fora do distrito de Los Angeles (e dos bons). Nesse caso, falo especificamente do cinema argentino.

Com boa parte da equipe participante do excelente O Filho da Noiva (Juan José Campanella, Fernando Castets, Ángel Illarramendi, Ricardo Darín, Eduardo Blanco e Atilio Pozzobón estão presentes em ambos, seja na frente ou atrás das câmeras), Clube da Lua retrata a triste realidade de falência vivida pelo tradicional clube ‘Luna de Avellaneda’, outrora um enorme centro cultural e esportivo da província de Avellaneda, na Grande Buenos Aires. Fundado na década de 1940, o clube viveu um grandioso passado, chegando a possuir um número superior a oito mil pessoas em seu quadro social, inversamente proporcional à sua realidade no início do século XXI com seus pouco mais de trezentos associados.

Dirigido por Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos, O Filho da Noiva), a narrativa acompanha principalmente Román (Ricardo Darín), um integrante da direção do clube e que recebeu título de sócio vitalício por ter nascido em uma das festas do local nos seus tempos áureos. Extremamente apegado e ativo para com a agremiação, Román luta de todas as formas para que seja possível um ressurgimento da instituição ao passo que tenta conciliar e superar suas dificuldades financeiras e emocionais com sua família, já que estão todos cada vez mais afastados.

O filme apresenta histórias e personagens simples, porém muito cativantes e profundos ao mesmo tempo que controversos. Para exemplificar, Amadeo (Eduardo Blanco), também integrante da direção do clube, é o carismático melhor amigo de Román e está sempre tentando conquistar a professora de dança Cristina (Valeria Bertuccelli). Desde as diversas cenas com Román até as declarações que faz para Cristina, Amadeo é sempre engraçado e seu jeito único torna fácil criar identificação com a personagem. O que não faz dele, no entanto, livre de falhas e fraquezas, como o seu vício em álcool evidencia e o leva a agredir a professora durante uma festa organizada pelo clube.

É possível citar também o caso extraconjugal de Román com uma das diretoras do clube, Graciela (Mercedes Morán). O protagonista, que sempre busca o melhor para o local tão amado pela comunidade e que nos identificamos desde o início da película, mostra-se falho e controverso. Logo após passar a noite com Graciela, participa da votação que decidirá o futuro do clube e diz, em frente a todos os presentes, que não pode viver sem a admiração de sua família (que com certeza seria afetada caso soubesse da traição). Contraditório, de fato, mas humano, afinal.

E é justamente isso que faz a obra ser tão maravilhosa: o fator humano explícito durante a narrativa. Não há dualismo, há personagens extremamente humanos e, consequentemente, falhos. Personagens com motivações diferentes e que nem sempre optam pelo melhor caminho, mas que estão todos ligados por algo em comum e, mesmo não concordando com alguma escolha, é perfeitamente possível compreender a razão pela qual tal atitude foi tomada.

Tecnicamente falando, o filme também se sai muito bem. A trilha sonora de Ángel Illarramendi é, outra vez, ótima. Apesar de não aparecer a todo instante, assim como em O Filho da Noiva, é sempre certeira em maximizar a dramaticidade das cenas e criar atmosferas carregadas de sentimentos. Já a fotografia de Daniel Shulman também merece destaques, principalmente quando harmoniza perfeitamente com a trilha de Illarramendi, criando cenários belíssimos que simbolizam desde sentimentos até a história das personagens.

O Clube da Lua é uma obra tocante que possui uma carga dramática muito pesada e igualmente linda. Desde excelentes atuações até recursos técnicos admiráveis, o filme apresenta o lado mais humano de suas personagens ao contar suas histórias nos momentos de crise que todos vivem, seja pessoal ou financeira. É mais um maravilhoso acréscimo ao cinema argentino e latino-americano e que merece ser dado uma chance de assistir.

Clube da Lua (Luna de Avellaneda) — Argentina, Espanha, 2004
Direção: Juan José Campanella
Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets, Juan Pablo Domenech
Elenco: Ricardo Darín, Eduardo Blanco, Mercedes Morán, Valeria Bertuccelli, Silvia Kutika, Atilio Pozzobón, José Luis López Vázquez, Daniel Fanego, Horacio Peña, María Victoria Biscay, Francisco Fernández De Rosa, Micaela Moreno, Alan Sabbagh, Sofia Bertolotto
Duração: 143 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.