Crítica | Cobra Kai – 1ª Temporada

  • Leia, aqui, a crítica de toda a franquia Karatê Kid.

Hollywood não deixa nada de sucesso quieto por muito tempo. Depois que Karate Kid – A Hora da Verdade marcou época em 1984, duas continuações diretas vieram em 1986 e 1989, mas sem a mesma qualidade, com um semi-reboot sem Daniel LaRusso, mas com o Sr. Miyagi (o saudoso Pat Morita), sendo lançado em 1994, o que enterrou a franquia até 2010, quando um reboot completo e ambicioso foi lançado com Jackie Chan e Jaden Smith nos papeis de mestre e pupilo, mas com kung-fu no lugar de caratê.

Corta para 2018 e o filme original revive na forma de uma websérie pelo canal de streaming por assinatura YouTube Red, trazendo os arqui-inimigos Daniel-San e Johnny Lawrence de volta sendo vividos pelos atores originais, Ralph Macchio e William Zabka. A nostalgia já seria suficiente para correr atrás de Cobra Kai, mas a grande verdade é que a série oferece mais do que apenas isso, em um formato despretensioso, leve e repleto daquelas lições de moral que o filme original continha.

O segredo dessa continuação “apenas” 34 anos depois do filme que começou tudo é ela ser auto-consciente, sem se levar completamente a sério, mas também com o cuidado de não descambar para o pastiche. No entanto, diferente de classificações que vi por aí, não se trata exatamente de uma comédia, mas sim um drama que bebe muito diretamente de sua fonte, com aquela pegada simples e leve que foi a marca de muitos clássicos oitentistas.

A premissa é daquelas que nós já vimos algumas dúzias de vezes por aí: a inversão completa da estrutura clássica. Se Johnny antes era o valentão rico e bonitão que fazia bullying na escola, agora ele é um homem entregue à bebida e sem dinheiro nenhum vivendo em um apartamento que mais parece um chiqueiro. E se Daniel-San era o garoto-vítima fracote e sem dinheiro, agora ele é um empresário confiante dono de uma rede de concessionárias. Continuando a inversão de papeis, quando Miguel (Xolo Maridueña), um garoto de bom coração, é ameaçado por bullies, é Johnny que vai ao seu resgate, despertando seu passado com o caratê que o inspira (depois de um momento Águia de Aço) a reabrir o dojo Cobra Kai, com seu protegido como primeiro aluno. Isso desperta a ira de Daniel que faz de tudo para sabotar os esforços de seu antigo rival.

E o mote de inversões de papeis continua sem parar ao longo de todos os episódios, com a entrada no elenco de Robby (Tanner Buchanan), filho de Johnny e de Samantha (Mary Mouser), filha de Daniel, com os protagonistas mais velhos tentando conciliar passado e presente, com direito a flashbacks para sequências do filme original, algumas não utilizadas no corte final, e pontas de outros atores desse passado longínquo. As reviravoltas, as trocas de lado, as mudanças de opiniões e os momentos anticlimáticos parecem excessivos, mas a curta duração de cada um dos 10 episódios não deixa o passo esmorecer em momento algum, ainda que as situações tornem-se absolutamente previsíveis desde seu começo, o que não é algo necessariamente ruim.

Além disso, a história é contada primordialmente a partir do ponto de vista de Johnny e de seu dojo, que mantém o mesmo lema meigo de seu antigo professor, “ataque primeiro, ataque com força, sem misericórdia”, o que choca o espectador acostumado com o lado mais pacífico do Sr. Miyagi, inclusive com diversos momentos politicamente incorretos extremamente divertidos. Com isso, os showrunners nos mantêm envolvidos e cúmplices daquele que, lá no fundo, sabemos que é o “inimigo”, aquele que aprendemos a odiar, não torcer. E a estratégia realmente funciona, especialmente porque Daniel é travestido propositalmente de um ar mais empolado que dificulta a empatia, algo que Ralph Macchio, por alguma razão que não sei bem explicar, consegue tirar de letra, mesmo com uma atuação limitada e “dura”, quase robótica. Nesse mesmo diapasão, é muito mais fácil criar conexão com Johnny, até porque ele é uma caricatura do durão oitentista que só sabe ser daquele jeito, ainda que ele mesmo perceba os problemas que isso lhe causou. William Zabka ainda lembra muito sua versão mais jovem e sua atuação mais sofrida, como o “cara que não deu sorte na vida”, estabelece um ar de familiaridade, permitindo a imediata conexão.

Sem grandes arroubos em termos de design de produção, com poucos cenários e uma estrutura que pega clichês e os coloca no liquidificador criativo, Cobra Kai faz muito com pouco e captura com maestria o espírito do filme original, ampliando – e repetindo – alguns conceitos e criando um universo que mostra potencial por pelo menos mais uma temporada, especialmente considerando o cliffhanger duplo que encerra o último episódio. Diversão carateca oitentista mais do que garantida!

Cobra Kai (Idem, EUA – 02 de maio de 2018)
Desenvolvimento: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg e Josh Heald (baseado em criação de Robert Mark Kamen)
Direção: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Jennifer Celotta, Josh Heald, Steve Pink
Roteiro: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Jason Belleville, Jay Piarulli, Luan Thomas, Stacey Harman, Michael Jonathan Smith
Elenco: William Zabka, Ralph Macchio, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Tanner Buchanan, Mary Mouser
Duração: 22 a 36 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.