Crítica | Cocanha – As Várias Faces de Uma Utopia, de Hilário Franco Júnior

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estrelas 4

A Cocanha é uma terra mágica, um lugar de fartura, ociosidade, juventude e liberdade, que marcou o imaginário de muitos povos. Os registros sobre esse lugar de vida feliz e cheia de maravilhas surgiram pela primeira vez na França medieval, uma elaboração fictícia que servia como válvula de escape para a situação de muita gente naquela sociedade. Surgia, então, uma resposta imediata e “simples” para os problemas, tensões, deficiências, angústias e necessidades da época, uma utopia que seria revisitada, recontada e reconstruída por diversos povos nos séculos seguintes, enraizando-se no imaginário popular e vindo parar até no Brasil, no folheto de cordel brasileiro, datado de 1947, escrito pelo paraibano Manoel Camilo dos Santos: São Saruê.

Utilizando critérios históricos para a seleção de textos e gravuras que vão do século XIII ou XX, o pesquisador paulista especializado em Idade Média, Hilário Franco Junior, faz uma verdadeira arqueologia cultural sobre esse “País-Paraíso”, utilizando a apresentação do livro para apontar traços semelhantes entre as visões folclóricas que mais se sobressaíram ao longo da História e comentando brevemente sobre as particularidade de cada uma dessas variações, tanto na poética e linguística quanto no nome: Cocanha, Cocagne, Cockaygne, Cuccagna, Jauja, Schlaraffenland, Luilekkerland, São Saruê.

O livro traz 20 versões da Cocanha ao longo de 700 anos de História em lugares diferentes. A apresentação do volume contextualiza rapidamente o cenário utópico e faz uma leitura da herança histórico-cultural que esse mito representa. O que o leitor lamentará é que a mesma linha de análise não seja repetida a cada uma das representações. Seria muito mais rico para o livro se houvessem ampliações sociais, políticas, econômicas e culturais dos povos e épocas onde cada um desses registros apareceram, abrindo espaço para uma discussão munida de dados sobre o que impulsionou esses povos a criarem a sua versão da fantasia.

Um dos elementos interessantes que eu percebi ao ler a obra foi a semelhança desse cenário de delícias com a visão que o Cristianismo apresenta para o Paraíso, principalmente para contrastar os horrores do mundo pós-Apocalipse e os gozos do Céu, morada daqueles que serviram a Deus e foram (serão) arrebatados. É bastante comum ouvir comparações da geografia do Paraíso com descrições dadas ao povo hebreu sobre Canaã (a terra que mana leite e mel). Em uma comparação e pergunta finais, trago isto: seria a Cocanha registrada a partir do século XIII uma revisão ou forma “pagã” (pelas muitas coisas que se fazem na Cocanha histórica, “pagã” seria o nome mais correto para classificá-la) das promessas feitas no Apocalipse, escrito na última década do século I?

Cocanha – As Várias Faces de Uma Utopia é uma excelente fonte de pesquisa sobre esse país imaginário. Fala contra a obra uma ausência de respaldo histórico para cada versão, de modo que o volume pode ser enxergado mais como uma antologia organizada por Hilário Franco Júnior do que uma obra SOBRE as muitas Cocanhas. Ainda assim, não deixa de ser um material excelente. Após a leitura, duvido que alguém não vá querer passar as férias em um lugar desses. A não ser que seja vegetariano ou vegano, porque o que se fala dos animais nessas histórias não é algo que vá agradar a essas pessoas. Mas… quem sabe, para os novos tempos, não se crie uma Cocanha Vegetariana ou uma Cocanha Vegana? Ou muitas outras variações de Cocanhas para caber no leque de particularidades dos nossos tempos? Uma coisa é certa: nós ainda não cansamos de utopias.

Cocanha – As Várias Faces de Uma Utopia (Brasil, 1998)
Autor: Hilário Franco Júnior
Editora: Ateliê Editorial
177 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.