Crítica | Cocoon

estrelas 3

O fim para alguns. O começo de uma grande jornada. A velhice já foi tratada em diversos filmes, dos mais variados gêneros. No geral, são dramas onde estas personagens mais “maduras” são acometidas por doenças incuráveis, com direito a muitas lágrimas e sofrimento. Em outros casos, são mentores, físicos ou intelectuais, que ajudam o “herói” no caminhar das etapas de sua jornada. Em Cocoon, os idosos são personagens comuns, homens que vivem as suas pacatas vidas em um asilo, até que uma novidade surge para mudar o rumo das coisas.

Ganhador do Oscar de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Ator Coadjuvante para o competente Don Ameche, Cocoon nos oferece a seguinte estrutura narrativa: seres de outro planeta estão em nosso planeta com a missão de recuperar casulos deixados em outra ocasião em que estiveram nos visitando. Paralelo a isso, o trio Art (Don Ameche), Ben (Wilford Brinley) e Joe (Hume Cronyn) são homens idosos que estão instalados em um asilo e sempre usam uma mansão abandonada do vizinho para mergulhar e curtir a piscina.

Com o tempo, percebem a presença de corais no local, ao passo que utilizam a piscina para se divertir e um efeito inesperado surge na vida de cada um: ganham maior disposição e vitalidade, além de uma milagrosa cura para o câncer de Joe. Logo, descobrem que os casulos estão sob a responsabilidade de Walter (Brian Demmehy) e Kitty (Tahmee Welch). Humanos e extraterrestres inicialmente se desentendem, mas depois se relacionam de maneira afetiva, nos levando a um epílogo amoral e interessante, tendo em vista o caráter hipócrita que uma narrativa desse tipo poderia seguir.

O filme aborda questões como a velhice com muito humor, principalmente ao tratar de temas como o sexo. Ao aprofundar-se no ethos pós-moderno, nega a reafirmar estereótipos ligados ao determinismo biológico e social. É com otimismo que a velhice é tratada, diferente dos dramas onde essa fase da vida geralmente representa o desfecho de uma jornada. Há, se relacionarmos com o contexto social, uma possível crítica à busca incessante pela juventude, por não se conformar com a fugacidade da vida, algo que funciona muito bem mesmo décadas depois, numa era onde as intervenções cirúrgicas ajudam aos indivíduos a chegar perto do que os personagens de Cocoon desejam até certo instante: longevidade.

No que tange aos aspectos políticos, em uma cena chave para o desenvolvimento do filme, uma personagem conversa, ao dialogar com um dos extraterrestres, lança a seguinte questão: “oferecem algum perigo para a América?”. Esta frase é um dos pontos críticos do enredo, numa narrativa que também possui seus traços subliminares ao tratar do tópico “invasão”, um dos temas sempre frequentes na agenda midiática e política da sociedade estadunidense.

Aos longos dos seus 117 minutos de duração, Cocoon consegue surpreender. É um filme do Ron Howard, um diretor competente, mas geralmente responsável por filmes monótonos. Por ser uma ficção científica, gênero pouco atrativo em meu ponto de vista, também consegue se destacar, tendo em vista que os efeitos visuais e o invasor ganham menos destaques que as relações humanas.

Com aquela “cara” de Sessão da Tarde, o filme é agradável e edificante, principalmente se visto a distância da continuação desnecessária, Cocoon 2 – O Regresso, narrativa que desfaz toda a construção amoral e subversiva deste primeiro filme.

Cocoon – Estados Unidos, 1985
Direção: Ron Howard
Roteiro: Tom Benedek
Elenco: Don Ameche, Wilford Brinley, Jack Gilford, Steve Guttenberg, Jessica Tandy, Linda Harrison, Maureen Stapleton.
Duração: 117 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.