Crítica | Colateral

estrelas 3

Durante a década de 90, quando Michael Mann estava à frente de algum projeto era certeza que algo bom resultaria dali, sendo responsável por três ótimos filmes no período: O Último dos Moicanos, Fogo Contra Fogo e O Informante. Porém, no início dos anos 2000, Mann apresentou o regular Ali, que é sim um bom longa, mas abaixo de seus anteriores. Portanto, a expectativa para Colateral era o retorno do realizador a sua grande forma.

A obra conta a história de Max (Jamie Foxx), um motorista de táxi que, em uma noite aparentemente tranquila, encontra Vincent (Tom Cruise), um assassino de aluguel que está na cidade para completar o plano de um cartel do narcotráfico, tendo como objetivo matar 5 pessoas que vão testemunhar contra a organização criminosa. Obrigado a ajudar o assassino a escapar de seus crimes, Max precisa lidar ainda com a possibilidade de ser morto por seu passageiro a qualquer momento, já que Vincent pode usá-lo para proteção pessoal.

O início do longa mostra-se extremamente promissor, estabelecendo bem a personalidade de seus dois personagens principais. Enquanto Max é destacado como uma pessoa tímida, perfeccionista e conhecedora das ruas de Los Angeles através de um diálogo bem construído entre ele e a advogada Annie, Vincent aparece como um homem frio, misterioso e calculista, aliás, a ponta de Jason Statham em sua primeira aparição contribui para impor respeito sobre o personagem logo de cara. A boa apresentação dos protagonistas aumenta a expectativa sobre como será o relacionamento entre eles dentro do táxi, fechando o primeiro ato com competência e dando a impressão que dali para frente o filme crescerá ainda mais.

Contudo, a partir da segunda metade, o roteiro, escrito por Stuart Beattie, cai em obviedades ou coincidências absurdas, prejudicando enormemente o potencial que a obra tinha. O primeiro problema do longa está nas incessantes conversas entre Max e Vincent, onde o assassino tenta convencer o motorista a ajudá-lo, diálogos necessários para destacar a boa índole do taxista, mas extremamente repetitivos. Além disso, é muita coincidência o último nome na lista do assassino ser exatamente a advogada que deu seu número para Max, dando a impressão de que a personagem está ali para servir como prêmio final do herói da história. Pior do que isso é a terrível cena em que dois policiais simplesmente deixam o táxi passar após terem vários indícios de que algo errado estava acontecendo, parecendo uma espécie de deus ex machina. Por fim, há também momentos implausíveis que exigem muita boa vontade de quem assiste, como alguém sair ileso de um grande acidente de carro ou tomar um tiro que acerta apenas a orelha, sem acertar a cabeça.

Apesar das falhas, a obra desenvolve um arco interessante para Max. O taxista, que no início sentia vergonha ao falar sobre seus projetos, temia a mãe e mal tinha coragem para pedir o número de uma moça, transforma-se em um personagem cheio de lábia e coragem para enfrentar o que teme. Portanto, mais interessante do que saber o que vai acontecer na história, é assistir a transformação do taxista, tornando fácil a identificação com ele.

Com um roteiro instável, o que realmente atrai e prende a atenção em Colateral é o ritmo imposto na obra através de mais uma direção precisa de Michael Mann. O diretor opta aqui por um tom mais realista e enérgica, através de vários planos com a câmera na mão e enquadramentos que priorizam o close-up, aproximando constantemente os personagens de quem assiste, porém, vale ressaltar como há também belos planos panorâmicos da cidade de Los Angeles que ressaltam a obscuridade do local. Aliás, iluminação intercala o uso de luzes fluorescentes com momentos mais sombreados, criando uma bela representação das divergências presentes na cidade. Mas o que realmente torna a obra dinâmica é a edição, que em nenhum momento deixa que a história caia na monotonia, e a trilha sonora, representando o estado de espírito dos personagens, note como na cena onde Max e Vincent se conhecem uma música clássica ecoa ao fundo, mostrando como ainda estão polidos um com o outro.

Outro grande mérito da direção reside na escolha de seu elenco. Jamie Foxx é perfeito é transmitir toda a timidez e ingenuidade de Max no início para construir com perfeição as mudanças de postura pelas quais o personagem passa depois. No mesmo nível está Tom Cruise, que talvez tenha aqui a atuação mais contida de sua carreira, com uma voz sempre tranquila e trazendo-nos um trabalho minucioso que ressalta a frieza, falta de empatia e objetividade de Vincent. No entanto, outros grandes nomes presentes na obra acabam sendo desperdiçados por um roteiro que não dá muito material para eles, como Mark Ruffalo e Javier Bardem, que pouco tem a mostrar aqui.

Assim como Ali, Colateral não se iguala as obras do auge de Michael Mann, mas o longa apresenta uma trama envolvente e uma atmosfera que prende o público. Além disso, o trabalho do diretor aqui mostra que ele não perdeu o talento para criar um tom energético e realista em seu filme, utilizando com habilidade edição, fotografia e trilha sonora para isso. Se não tivesse sido traído por um roteiro que cai em vários clichês, o resultado teria sido ainda melhor.

Colateral (Collateral) – EUA, 2004
Direção: Michael Mann
Roteiro: Stuart Beattie
Elenco: Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo, Peter Berg, Javier Bardem, Irma P. Hall, Barry Shabaka Henley, Bruce McGill, Jason Statham
Duração: 120 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.