Crítica | Colheita Maldita / Discípulos do Corvo (Curta – 1983)

  • Filme três de sete da Maratona de Horror que relatei em detalhes aqui

A primeira adaptação cinematográfica do conto As Crianças do Milharal (Children of the Corn), de Stephen King, originalmente publicado em 1977 na revista masculina Penthouse e, no ano seguinte, inserido na coletânea Sombras da Noite (Night Shift) não foi, como muitos devem imaginar, o razoavelmente famoso Colheita Maldita, de 1984, e que acabou gerando uma verdadeira franquia com, até agora, 10 filmes para cinema, TV e vídeo. Um ano antes, John Woodward começou sua inexistente carreira de diretor e roteirista com uma versão de menos de 20 minutos inspirada no conto e alterando a ação do Nebraska para Oklahoma em dois períodos temporais diferentes.

O filme, originalmente lançado como Disciples of the Crow ou Discípulos do Corvo em tradução direta já que ele nunca foi disponibilizado oficialmente no Brasil, também tornou-se conhecido como The Night of the Crow. A cópia que assisti, porém, continha o título do conto original, Children of the Corn, pelo que optei em também citar como título a versão em português do filme de 1984. Além disso, peço de antemão desculpas pela qualidade da imagem que ilustra a presente crítica, mas foi a melhor que encontrei por aí.

O completamente desconhecido curta, que foi distribuído em VHS em uma compilação de obras “de orçamento zero” baseados em criações de King, começa em 1971, com o sinistro garoto Billy em um ritual macabro. Sem palavras e com Billy reunindo-se às outras crianças, todos matam seus respectivos pais na noite seguinte. Corta para o presente e Burt (Gabriel Folse) e Vicky (Eleese Lester) viajam pelos EUA de carro quando atropelam um garoto em uma estrada vicinal em Oklahoma cercada de milharal. Quando se aproximam do corpo inerte, descobrem que o menino, na verdade, tivera sua garganta cortada e que provavelmente morreria de toda forma. Colocando o jovem no porta-malas, os dois partem para Jonah, a cidadezinha mais próxima que eles encontram vazia a não ser por crianças cujas intenções eles só percebem quando é tarde demais.

Por incrível que pareça, Woodward é muito eficiente em capturar o espírito do conto de King e transformá-lo em um eficiente curta que, se comparado ao filme que seria lançado no ano seguinte, consegue ser melhor em concisão e na geração de uma atmosfera claustrofóbica e tensa. Claro que os valores de produção do curta são praticamente inexistentes, com atuações que deixam muito a desejar. Mas há uma clara reverência ao material fonte e um cuidado em se estabelecer um tom genuíno de terror que vai aos poucos se embrenhando na projeção, especialmente nas sequências após a chegada do casal à cidade abandonada.

O grande destaque, portanto, fica com a fotografia cuidadosa, com uma câmera normalmente fixa que captura a aridez do local e o ar kafkiano que aos poucos vai sufocando os protagonistas em uma breve e inevitável jornada ao inferno. Filmado em locação, sem cenários visíveis além talvez do interior da Igreja, há um quê documental também, possivelmente extraído como dano colateral pela qualidade do material de captura e processamento de imagens, mas que acaba amplificando o natureza macabra do conto.

Obscuro, mas disponível por aí para quem quiser experimentar, o curta baseado em Colheita Maldita mostra o potencial nunca realizado de John Woodward, que poderia, se a ele tivesse sido dada a chance, ter levado para as telonas um filme melhor do que o que começaria a franquia cinematográfica logo no ano seguinte. Woodward, porém, continua tão desconhecido quanto seu trabalho original, talvez engolido pela máquina hollywoodiana que não deve ter gostado nada de ver um curta baseado em filme que já devia estar em produção.

Colheita Maldita / Discípulos do Corvo (Children of the Corn/Disciples of the Crow/The Night of the Crow, EUA – 1983)
Direção: John Woodward
Roteiro: John Woodward (baseado no conto As Crianças do Milharal, contida na coletânea Sombras da Noite, de Stephen King)
Elenco: Gabriel Folse, Eleese Lester, John Woodward
Duração: 19 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.