Crítica | Colheita Maldita

estrelas 1

O gênero de suspense e terror já produziu grandes talentos tanto na literatura como no cinema. Dos contos funestos de Edgar Allan Poe (cuja morte é mais um elemento macabro em sua vida e produção) aos filmes inventivos e originais de Alfred Hitchcock, o gênero deu origem a obras-primas inesquecíveis. Na literatura, outro importante nome a ser citado é o de Stephen King, que, mesmo sem a riqueza da prosa de Poe, consolidou-se como um importante autor. Tal como ocorre nos filmes de suspense e terror em geral, as adaptações cinematográficas de suas obras variam enormemente em qualidade. Grandes diretores, como David Cronenberg e Stanley Kubrick, adaptaram suas obras de modo digno ou até superior ao original (no caso do segundo).  Mas esse não é o caso de Colheita Maldita, de 1984.

O conto de Stephen King e o filme de Fritz Kiersch narram a história de um casal que encontra uma pequena cidade dominada por uma entidade demoníaca, chamada de “Aquele que Anda por Detrás das Fileiras”. Ela domina a mente das crianças e comanda o sacrifício de todos os adultos. Isaac (John Franklin) é o líder do grupo e Malachai (Courtney Gains) seu condiscípulo. O enredo não é ruim e poderia render bons frutos. Talvez até renda no conto de King. Mas o filme de Kiersch não passa de um amontoado de clichês e cacoetes irritantes. Colheita Maldita é um ótimo exemplo de como o zoom pode ser usado de modo démodé e terrivelmente bobo, em momentos completamente equivocados e sem qualquer imaginação. O que dizer então do extenuante uso do close-up em facas e foices e na sombra dos personagens? Todos os vícios de linguagem do longa-metragem são insistentes e o diretor não disfarça sua falta flagrante de ideias.

Na adaptação de Fritz Kiersch, há todo tipo de bobagens para garantir a continuidade dos acontecimentos. Burton (Peter Horton) e Vicky (Linda Hamilton) não hesitam em sair às ruas berrando um o nome do outro e se expondo como tolos inverossímeis ao grupelho de crianças armadas. Como se não bastasse tudo isso, o personagem de Horton protagoniza a cena mais constrangedora de todo o filme. Em sua fuga, ele tropeça. Nada mais óbvio, mas o ator parece levar bastante a sério a ideia de que nada é tão ruim que não possa ser piorado. Sua execução ridiculamente canastrona torna um desafio continuar assistindo a Colheita Maldita. E o que vem depois não melhora em nada a situação geral do filme, cujo ritmo é claudicante do começo ao fim. Todas as expectativas que cria são abortadas subitamente e, em momento algum, cria-se realmente uma atmosfera de tensão. O filme não sai do morno.

Para não dizer que não há nada de positivo em Colheita Maldita, eu citaria unicamente a atuação de John Franklin, especialmente na cena em que ele olha pela janela de um café. Talvez, em uma tentativa hercúlea de garimpar algo bom em meio a tantos problemas, poderíamos citar também a trilha sonora, cujo tema funciona, ainda que minimamente, e também o uso de um interessante contra-zenital na cena em que Vicky é levada ao milharal. Mas esses são apenas lampejos de inspiração em um filme que não tem a capacidade de criar mistério e tensão – a grande característica dos contos e romances de Stephen King. O final da adaptação de 1984 é de um nonsense sem par, mas não há como negar: é um fechamento adequado para uma obra que não sabe a que veio e que permanece em busca de um arrimo durante longos e entediantes 90 minutos.

Muitos dirão que Colheita Maldita deve ser entendida em seu contexto e em sua época. Estranho argumento. Ao que consta, já se fazia cinema de boa qualidade em todos os gêneros na década de 80. O ano de lançamento de um filme não pode justificar tantos problemas de estrutura, ritmo e linguagem de uma obra. Talvez ela tenha obtido êxito em sessões vespertinas da TV aberta há 30 anos. Mas hoje, sinceramente, nem isso.

Colheita Maldita (Children of the Corn) — EUA, 1984
Direção:
 Fritz Kiersch
Roteiro: George Goldsmith (baseado no conto As Crianças do Milharal, de Stephen King)
Elenco: Peter Horton, Linda Hamilton, R.G. Armstrong, John Franklin, Courtney Gains, Robby Kiger, Anne Marie McEvoy
Duração: 92 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.