Crítica | Colony – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Colony, do USA Network, é o perfeito exemplo de que não é necessário uma história original e orçamento alto para se fazer um bom sci-fi. A temporada inaugural da série, de bem equilibrados e utilizados 10 episódios, faz impressionantemente muito com muito pouco, trabalhando muito mais uma narrativa engajante do que oferecendo “fogos de artifício” vazios para seus espectadores, como muito se vê por aí.

A estrutura macro da série é o batido “espaço confinado” e como os humanos reagem a esse tipo de situação, algo que tem sido recorrente em diversas outras obras para a TV, como a eficiente Wayward Pinesa desapontadora Between e a tenebrosa Under the Dome, isso só para citar as mais recentes. O grande trunfo de Colony, porém, é trabalhar o conflito humano em primeiro lugar, deixando em segundo plano o fato de a série se passar em um futuro próximo distópico na cidade de Los Angeles cercada por um gigantesco e misterioso muro e controlada pela força militar de uma Autoridade Colonial Transicional (ou Ocupação) que aparentemente recebe ordens de seres misteriosos (potencialmente alienígenas), conhecidos como Hospedeiros ou simplesmente Raps.

E o conflito humano, no caso, é encapsulado pelo casal principal, Will e Katie Bowman (respectivamente Josh Holloway, de Lost e Sarah Wayne Callies, de Prison Break e The Walking Dead). Pelas circunstâncias do destino, que são logo estabelecidas no primeiro episódio, Will, por seu passado no FBI, acaba sendo recrutado pelas forças da Ocupação para desbaratar uma célula terrorista na cidade, enquanto que Katie passa a trabalhar justamente para a Resistência investigada por Will. Enquanto a nova função de Will é conhecida por Katie, a recíproca não é verdadeira, levando a momentos de tensão que equilibram bem o jogo de espionagem e contra-espionagem.

Dando estofo a esse relacionamento conturbado, o casal tem dois filhos morando com eles e um terceiro – o filho do meio – que  fora perdido do lado de fora do muro, na região de Santa Monica, quando os Hospedeiros chegaram. O desespero em recuperar o terceiro filho é a força motriz para as escolhas de Will e Katie e o roteiros se esmeram em deixar tudo em uma zona cinzenta, dificultando conclusões fáceis sobre que lado está agindo mais corretamente, se é que algum está. Se as forças militares que mantêm o controle da cidade o fazem na base da violência e toques de recolher, a Resistência também não se furta de colocar vidas de civis na linha de fogo sempre que necessário. Ainda que a simbologia utilizada para ilustrar a Autoridade Colonial Transicional carregue nos ares ditatoriais de controle do Estado sobre o cidadão, com drones potencialmente dos visitantes em constante vigilância aérea, o que passa a impressão de uma “escolha de lado” pelos criadores e showrunners, fato é que a Resistência, representada principalmente pelo friamente eficiente Eric Broussard (Tory Kittles) não é mostrada com simpatia ou como exemplo a ser seguido.

Além disso, os meandros políticos são bem trabalhados, tendo a figura do governador local, Alan Snyder (Peter Jacobson), como centro das atenções nesse respeito. O mesmo vale para o microcosmo das diferenças sociais agudas criadas pela existência de uma casta dominante vivendo em luxo em oposição à população em geral que, se não vive na penúria, não tem as mesmas escolhas que antes da Ocupação (a série começa menos de um ano após esse misterioso evento). Esse aspecto é abordado pelo ponto de vista de Maddie (Amanda Righetti), irmã de Katie que faz de tudo para ascender socialmente.

Como se pode ver, a sucessão de clichês do gênero é enorme, mas, de alguma forma, os roteiros são bem amarrados e a tensão é bem construída em todas as linha narrativas, especialmente, claro, as de Will e Katie. Talvez o grande acerto seja a manutenção em segredo das circunstâncias do que aconteceu há pouco menos de um ano nesse futuro distópico (um ataque extraterrestre? de que magnitude? quem sobreviveu? o que os visitantes querem?). Pouco sabemos sobre a situação passada ou mesmo a atual e tudo o que aprendemos é a partir do ponto de vista dos personagens da série, ou seja, os showrunners não recorrem a flashbacks didáticos ou outros expedientes semelhantes para nos deixar em pé de igualdade com os personagens. Nós pegamos a história andando e aprendemos aquilo que é estritamente necessário para permitir a compreensão mínima do que está acontecendo naquele momento. Com isso, a série prende a atenção do espectador, evitando ser reveladora demais, evitando parar a ação para entregar detalhes do que está acontecendo ou como Los Angeles passou a ser cercada por um gigantesco muro.

Ao nos manter no escuro, mas sem amontoar irritantes mistérios desconexos como em Lost, Colony mantém sua mira apontada para o dia-a-dia de Will e Katie, cada um de lado opostos no conflito, ao mesmo tempo que nos apresenta uma história que faz sentido e nos faz pensar. Claro que a ginástica do roteiro também tem uma função prática muito clara, que é justamente criar um ambiente sci-fi sem empregar os recursos visuais normalmente necessários ao gênero para que o orçamento mantenha-se modesto. Com poucas exceções aqui e ali, Colony poderia ser a história de um pequeno país invadido e mantido em estado de sítio por uma força invasora qualquer.

Josh Holloway e Sarah Wayne Callies, apesar de não despontarem como grandes atores, sustentam mais do que eficientemente seus papeis, especialmente Holloway, que consegue unir, sem canastrices, os sentimentos intensos por sua família a um senso de dever hesitante e estranho em relação a seu novo empregador. Carl Weathers, o eterno Apollo Creed da franquia Rocky, tem um divertido papel coadjuvante como Beau, o preguiçoso parceiro de Will e Peter Jacobson ganha destaque como aquele burocrata que, lá no fundo, apesar da aparente crueldade, tem bom coração ou, ao menos, um senso deturpado de honra.

Se perdoarmos conveniências e atalhos que os roteiros tomam, como tornar Will o único caçador de terroristas eficiente de toda a força repressora da cidade e se aceitarmos algumas decisões de personagens – como o posicionamento de Katie – como algo realmente ideológico e que, portanto, pode desafiar a lógica fria, Colony é uma pequena série que demonstra já no seu começo grande potencial. É torcer para que os segredos da Ocupação não se revelem bobos ou simplistas demais quando forem inevitavelmente revelados.

Colony – 1ª Temporada (EUA – 2016)
Criação e showrunners: Carlton Cuse, Ryan J. Condal
Direção: Juan José Campanella, Nelson McCormick, Scott Peters, Roxann Dawson, Tim Southam
Roteiro: Ryan J. Condal, Wes Tooke, Daniel C. Connolly, Dre Alvarez, Anna Fishko, Carlton Cuse, Sal Calleros
Elenco: Josh Holloway, Sarah Wayne Callies, Peter Jacobson, Amanda Righetti, Tory Kittles, Alex Neustaedter, Isabella Crovetti-Cramp, Kim Rhodes, Paul Guilfoyle, Carl Weathers, Ally Walker, Kathy Baker, Kathleen Rose Perkins, Gonzalo Menendez
Duração: 500 aprox. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.