Crítica | Colóquio de Cães

Apenas três cineastas sul-americanos dedicaram-se com grande afinco às questões surrealistas e fantásticas no cinema, cada um deles explorando temas muito pessoais dentro de momentos artísticos diversos, e da história de seus países. José Mojica Marins (Brasil), Alejandro Jodorowsky e Raoul Ruiz (Chile) são nomes que conquistaram a cena cinematográfica mundial com obras de relevância histórica e artística. Dessa tríade, o realizador mais prolífico, com 112 filmes dirigidos entre 1963 (A Maleta) e 2011 (Mistérios de Lisboa) é Raoul Ruiz, que despertou o reconhecimento da crítica após seu exílio na França, em meados do anos 1970.

O cinema de Ruiz é um misto de descontinuidade narrativa, experimentações imagéticas através da manipulação do cenário ou da cor, e inserção do mundo fantástico, muitas vezes trazido de maneira cáustica. O interesse pelo comportamento humano se faz presente em todas as obras, e a maior parte delas articulam técnicas do impressionismo francês, do surrealismo e do cinema fantástico. O resgate da cultura através de uma lente pouco convencional ganha patamar autoral, como podemos perceber em O Presente, curta metragem do diretor produzido para o filme-episódio Cada Um Com Seu Cinema (2007).

Nos dramas mais realistas, Ruiz adota uma postura psicanalítico-social, trazendo das questões internas do homem algumas justificativas para viver e agir de determinada forma. Colóquio de Cães (1977) é um desses filmes. O curta-metragem tem uma história aparentemente simples, mas aos poucos, os acontecimentos dão ao espectador a noção de um ciclo vicioso que cerca os dissabores de uma mulher. A personagem principal é o protótipo dramático e a partir dela histórias idênticas acontecerão com outros à sua volta. Podemos entender aqui uma provocação do diretor ao comportamento da violência doméstica, dos crimes passionais e do “mortal instinto de sobrevivência” do homem.

Para trabalhar o assunto, o diretor aproximou o título do filme a indicações metafóricas dentro do filme. O colóquio dos cães pode ser qualquer uma das falas ou posturas da história, desde o narrador até os muitos amantes das prostitutas protagonistas. Com esse quadro polêmico e difícil de captar, o diretor preferiu usar fotografias para representar os seres humanos em planos individuais ou de conjunto; e pequenas filmagens para mostrar o espaço da cidade e os cães que “fecham o cerco”. Do isolamento individual para a interação coletiva há um obstáculo intransponível. Ninguém se entende e acaba por fazer a única coisa possível frente a um “mistério” que nos persegue e ameaça: matá-lo. Assim como a violência e agressividade de uma “conversa entre cães”, o curta-metragem atravessa as diversas atitudes puramente animais cometidas por um ser humano. Vale ainda lembrar de durante todo o desenvolvimento do suspense a manipulação dos objetos fotografados alteram a visão do espectador sobre o que há na realidade e o que há no pensamento dos protagonistas. A dose de subjetividade no filme é aplicada de maneira sutil e incrivelmente sugestiva.

É possível vermos técnicas de Chris Marker, Jean-Luc Godard e Agnès Varda na montagem e narrativa de Colóquio de Cães. A diferença é o resultado final ser um trabalho de autor e que não deixa nada a desejar em relação aos seus exemplos criadores. Partindo de uma premissa banal e improvável, Raoul Ruiz entrega para o espectador uma bomba moral e ética, e fecha o filme tão bem que não há como o espectador não “comprar a briga”. Se há obstáculos entre as realidades do mundo diegético, eles desaparecem quando o filme termina, e nós somos atingidos em cheio pelas investidas ferozes da civilização retratada.

Colóquio de Cães (Colloque de Chiens, França, 1977)
Direção: Raoul Ruiz
Roteiro: Raoul Ruiz e Nicole Muchnik
Elenco: Eva Simonet, Robert Darmel, Silke Humel
Duração: 22min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.