Crítica | Colossal

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estrelas 3

Há um quê de deliciosidade bizarra em saber a sinopse de antemão e acompanhar os pouco mais de 100 minutos de Colossal. Anne Hathaway, de peruca duvidosa e uma posição não exatamente atraente (em termos de curiosidade) nos pôsteres, encarna Gloria, uma mulher que após ter sido chutada por seu namorado devido aos seus problemas de alcoolismo e falta de compromisso, decide retornar para sua cidade e dar um tempo na vida, e lá ela reencontra  Oscar (Jason Sudeikis), um antigo amigo dos tempos de escola. Não demora para que surja nos noticiários o aparente ataque de um monstro gigantesco à cidade de Seul, na Coréia do Sul, com quem Gloria logo descobre possuir ligações mentais, uma vez que o monstro parece copiar os movimentos e trejeitos da personagem.

Um “what the fuck” básico certamente é capaz de surgir da boca de quem analisa o ponto de partida de Colossal à primeira vista, e isto certamente está nos planos do diretor Nacho Vigalondo, também responsável pelo script. Adotando para si toda a aura  de um cinema indie que se formata desde os anos 80 (o descompromisso estético, os personagens deslocados, o humor melancólico como acompanhamento da veia dramática), Vigalondo parece buscar para si a desconstrução desse falso realismo para a inserção de sua expressão social e política, uma vez que em seu caminho, Colossal falará principalmente sobre a independência feminina. Certamente um ponto a favor quando atestamos as alegorias promovidas por Vigalondo, o que nem sempre significa que tais simbolismos consigam ultrapassar a barreira do óbvio.

Algo há se louvar em Colossal é seu desejo e esforço em se firmar como um ponto fora da curva, algo construído de maneira honesta por Vigalondo e seus personagens belamente consolidados em cena. Por mais que certos rostos sofram com um desenvolvimento superficial e a dramaticidade pouco justifique algumas viradas na história, o filme sabe como se estabelecer como um produto que se firma em bases clichês, mesmo que inesperadas, para aos poucos fugir do que há de típico em seu desenvolvimento. Colossal é estranho, é bizarro, e é honesto nessa construção de identidade.

O problema é quando Vigalondo apoia suas alegorias em cima desta identidade e sabota seu filme, que entre seu misto de humor e a seriedade discursiva dos temas que aborda, sofre de um desequilíbrio que diminui as boas intenções da fita em algo banal. Não que exista a obrigação do diretor em trabalhar somente com sutilezas, mas para um filme de alegorias e simbolismos, parece faltar tato para que a mensagem certamente ambiciosa dentro do “gênero” alcance sua universalidade. Ser simplista é uma coisa, ser superficial é outra.

Mas não há como não se entregar aos principais acertos de Colossal, alguns certamente criativos e de bom gosto, o que denota a segurança dos envolvidos no material, independente das falhas. As brincadeiras com as aparições do monstro arrancam risos e uma sensação de incredulidade honestas, algo que nos aproxima das reações iniciais dos personagens. a câmera claustrofóbica, especialmente nas cenas no interior da casa de Gloria, também nos aproximam dos conflitos e do sentimento de impotência da protagonista, algo ressaltado por uma Anne Hathaway surpreendentemente à vontade, relembrando até mesmo seus tempos de O Diário da Princesa. E claro, há de se comentar os artifícios (corretos) de Vigalondo na inserção de sons fora do campo de cena que representam tanto acontecimentos externos quanto o interior conflituoso dos personagens.

É uma pena que, mesmo diante de um plot arriscado e esperto até em seu sarcasmo sobre a grandiloquência sob grandes produções, Colossal se acovarde quando ameaça decolar para grandes vôos e se contente com a superficialidade e a unidimensionalidade de uma narrativa repleta de boas intenções e inteligente em muitas de suas escolhas, mas que encontra dificuldades em firmar com força seus principais temas, em especial a emancipação feminina.

Colossal — EUA/ Canadá/ Espanha/ Coréia do Sul, 2016
Direção:
 Nacho Vigalondo
Roteiro: Nacho Vigalondo
Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Austin Stowell, Tim Blake Nelson, Dan Stevens,  Hannah Cheramy,  Nathan Ellison
Duração: 109 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.