Crítica | Com 007 Só Se Vive Duas Vezes

Com quatro filmes bons seguidos, era uma questão de tempo para a franquia de 007 cambalear e isso acontece em Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, o quinto da série. Mas, também, pudera: os produtores mexeram em time que estava ganhando e não só não conseguiram contratar Richard Maibaum, roteirista de todos os capítulos anteriores como, também, os roteiristas encarregados, Harold Jack Bloom (egresso da televisão) e Roald Dahl (romancista britânico, autor de O Fantástico Mr. Fox) resolveram inspirar-se apenas muito de longe do livro homônimo de Ian Fleming, mantendo nomes e localidades, trocando todo o resto, a primeira vez que essa distância do material fonte aconteceria.

O resultado foi uma equivocada aventura que coloca James Bond (Sean Connery) no meio da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, tentando impedir que as duas potências entrem em guerra depois que suas respectivas cápsulas espaciais são seqüestradas com seus respectivos astronautas. Claro, tudo é parte de um mirabolante plano da S.P.E.C.T.R.E., com a ajuda dos estranhamente maquiavélicos japoneses.

O maior equívoco do filme foi a tentativa de misturar todos os ingredientes da cultura japonesa em uma receita só, sem cozinhá-los separadamente antes. Todos naturalmente, acabaram ficando com um gosto só e não muito apetitosos. Querem exemplos? Em um mesmo filme, Bond finge que foi assassinado, assiste uma luta de sumô sem nenhuma razão  aparente, arregimenta a ajuda de um teatral agente secreto japonês (Tiger Tanaka, vivido por Tetsurô Tanba), pilota um frágil ultraleve chamado Little Nelly (presente de Q) no lugar de usar um dos helicópteros de Tanaka, aprende a ser ninja em alguns dias (!!!), é maquiado como japonês (essa cena é vergonhosa), literalmente casa com uma japonesa para se infiltrar na base inimiga e, finalmente, resolve o problema no proverbial último segundo.

No entanto, para piorar o cenário, os eventos listados acima acontecem de forma estanque, quase independente, como se fizessem parte de filmes diferentes. O roteiro nos leva de um lugar a outro em longas cenas que, em última análise, não adiantam a trama de maneira eficiente e a edição não ajuda nesse processo. Vejam, por exemplo, a cena em que Bond faz um tour pelas instalações (não tão) secretas de Tanaka. Durante dez minutos, vemos dezenas de extras de quimono de judô nos mais diversos treinamentos para, conforme somos informados várias vezes, tornarem-se ninjas. Mais tarde, quando os tais ninjas são finalmente acionados, eles se revelam como não mais do que soldados comuns em uma batalha em que ser ninja ou não pouco importa. Chega a ser involuntariamente cômico quando alguns dos soldados de Tanaka desembainham katanas para lutar contra soldados da S.P.E.C.T.R.E. armados com metralhadoras.

São construções forçadas como essa que permeiam o quinto capítulo da franquia de 007, tornando-o, talvez, o filme mais fraco de Sean Connery na pele do herói. O diretor Lewis Gilbert que, pela primeira vez, dirige um filme de James Bond, voltaria mais duas vezes à série para dirigir Roger Moore em 007 – O Espião Que Me Amava e 007 Contra o Foguete da Morte. Ele até demonstra bom controle de câmera, com belíssimas tomadas aéreas, especialmente a que mostra Bond, no telhado de um armazém, fugindo de uma horda de capangas de Osato (Teru Shimato). No entanto, isso não é suficiente para equilibrar sua pouca habilidade em dosar o timing das cenas para dar mais fluidez ao filme.

Nem mesmo a charme de Connery consegue salvar a trama. Afinal, até podemos tentar suspender nossa descrença para aceitar tudo que se passa diante de nossos olhos. No entanto, é exigir demais que nós, espectadores, aceitemos que Connery pode facilmente passar-se como um japonês, bastando uma peruca estranha e olhos puxados. É como se Gilbert estivesse parodiando a própria série, adiantando o que, de certa forma, veríamos na “fase Roger Moore”.

Os efeitos especiais da película também não resistiram ao teste do tempo. Enquanto mesmo hoje em dia podemos ficar impressionados com as cenas aquáticas de 007 Contra a Chantagem Atômica justamente por não serem efeitos especiais, as cenas espaciais desse capítulo ficam bem abaixo da média, algo indesculpável mesmo para o já longínquo ano de 1967.

Se há uma coisa realmente memorável em Com 007 Só Se Vive Duas Vezes é a revelação de quem é o nº 1 da S.P.E.C.T.R.E., cuja presença já havíamos visto em Moscou Contra 007 e 007 Contra a Chantagem Atômica: o careca e deformado Ernst Stavro Blofeld (Donald Pleasance).  Blofeld, com sua túnica bege abotoada até em cima e segurando um gato angorá branco, é uma figura mitológica do cinema, talvez um dos mais icônicos vilões já criados.

Outro aspecto memorável, mas negativamente, é que foi durante a filmagem no Japão que a produtora anunciou que Sean Connery não mais voltaria à franquia, o que acabou não se revelando totalmente verdadeiro já que o ator regressaria ainda para mais uma aventura da série e mais outra, vivendo o mesmo personagem, fora da série padrão.

Infelizmente, porém, Com 007 Só Se Vive Duas Vezes não é um filmo digno daqueles que o antecederam.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.