Crítica | Com 007 Viva e Deixe Morrer

Diz a lenda que Roger Moore foi um dos primeiros candidatos a 007, mesmo antes da produção cogitar sobre a contratação de Sean Connery e que o ator só não pode ingressar na série porque ele mesmo já estava comprometido com outra série de espionagem chamada The Saint, que foi ao ar entre 1962 e 1969. Na verdade, não foi bem isso, pois o próprio Moore, em sua autobiografia, disse que só foi procurado mesmo para estrelar como James Bond depois que Connery anunciou sua aposentadoria do personagem.

Moore definitivamente tem o physique du rôle necessário para viver James Bond: tem um belo porte, é agradável aos olhos e sabe atuar. Pessoalmente – e aqui o crítico objetivo fica de lado por um momento – considero que Sean Connery é e sempre será o modelo ideal do James Bond que aprecio nas telas, não necessariamente aquele Bond que aparece nas obras de Ian Fleming.

Querendo distanciar-se o máximo possível de Connery, Moore personifica um Bond menos sisudo, menos frio e mais irônico e até mesmo cômico. E os próprios roteiros dos filmes da franquia que estrelou têm essa veia engraçada e camp ressaltada, algo que já vinha acontecendo até mesmo com as últimas duas fitas estrelando Connery.

E, com essa introdução, vem o filme propriamente dito.

Uma coisa que definitivamente não se pode dizer sobre a série de 007, é que ela é descolada dos acontecimentos mundiais. Desde seus primórdios, os roteiros acompanham os eventos políticos do mundo, como a guerra fria (Moscou Contra 007), e a corrida espacial (007 Contra a Chantagem Atômica). Em Com 007 Viva e Deixe Morrer, o foco é o movimento afro-americano nos Estados Unidos de um lado e, de outro, o gênero de filme que se convencionou chamar blaxpolitation, em que afro-americanos são usados em cenários e roteiros urbanos usualmente envolvendo crimes.

O resultado é, no mínimo, estranho. James Bond (Moore) tem que investigar o assassinato de três agentes britânicos do MI6, que ocorre nas cenas pré-créditos. As pistas acabam levando Bond de Nova Iorque para a ilha de vodu San Monique, de volta para os EUA na Lousiana e, finalmente, mais uma vez para San Monique, tudo para perseguir o império de drogas do gângster Mr. Big (Yaphet Kotto), que se vale de uma vidente chamada Solitaire (a bela Jane Seymour) para ler o futuro nas cartas de tarô.

A razão do filme ser estranho é que os afro-americanos são utilizados da maneira mais estereotipada possível. Cabelões afro, costeletas enormes, roupas espalhafatosas com correntes de ouro, pimpmobiles e gírias caracterizam absolutamente todos os afro-americanos retratados no filme, com exceção de Mr. Big e seu capanga Baron Samedi, sendo que esse último é um mestre do vodu, com direito a cartola e pintura corporal de esqueleto.  Em Nova Iorque, por exemplo, aparentemente todos os afro-americanos trabalham, de uma forma ou de outra, para Mr. Big, desde o taxista que Bond pega no aeoroporto até o engraxate na esquina. Não tem como não rir e torcer o nariz.

Mas, por outro lado, a franquia de James Bond nunca foi sutil, pelo menos não quando o mundo ainda era livre dos chatos do politicamente correto. Mulheres são absurdamente usadas e abusadas por Bond e estrangeiros são sempre caricatos, pelo que não é de se estranhar demais o que se vê em Com 007 Viva e Deixe Morrer.

No entanto, o exagero atrapalha. E há exagero na composição de todos os personagens, inclusive do irritante xerife sulista Pepper (Clifton James) que é retratado como uma figura asquerosa: racista, mascador de fumo, mal educado e portador de um sotaque forçado ao limite.

E o exagero continua no tamanho de determinadas cenas. Após a já antológica escapada de Bond da piscina de crocodilos e jacarés de Baron Samedi, o espião sai em uma fuga que dura longos 20 minutos pelos pântanos da Louisiana, com direito a troca de lanchas, destruição de automóveis e explosões típicas de Burt Reynolds em sua série de filmes Agarra-me Se Puderes. Nesse  momento, o ritmo e o tom do filme desanda de vez para o besteirol, algo completamente fora de compasso com a personalidade de Bond, mesmo considerando-se a persona mais cômica de Moore.

Com 007 Viva e Deixe Morrer somente marca a série de 007 por ser o début de Roger Moore como o espião e por conter talvez a música mais famosa já feita para um filme da franquia: Live and Let Die, composta por Paul e Linda McCartney. De resto, não passa de uma cansativa diversão rasteira.

Com 007 Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die, Inglaterra, 1973)
Direção: Guy Hamilton
Roteiro: Tom Mankiewicz
Elenco: Roger Moore, Yaphet Kotto, Jane Seymour, Clifton James, Julius Harris, Geoffrey Holder, David Hedison, Gloria Hendry, Bernard Lee, Lois Maxwell, Tommy Lane, Earl Jolly Brown, Roy Stewart, Lon Satton, Arnold Williams, Ruth Kempf, Joie Chitwood, Madeline Smith, Michael Ebbin, Kubi Chaza, Brenda Arnau
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.