Crítica | Com a Maldade na Alma

com a maldade na alma plano critico

estrelas 3,5

Não tem como falar de Com a Maldade na Alma e não levar em consideração os detalhes de sua produção, cujas raízes se estendem por décadas, desde que Bette Davis e Joan Crawford tornaram pública suas rivalidades pessoais. Em 1962, o diretor Robert Aldrich conseguiu o que parecia impossível: reunir as duas grandes estrelas decadentes em um único filme, que se beneficiou do conflito e retirou da dupla atuações esplêndidas. Quando saíram as indicações para o Oscar de 1963, Crawford não pode acreditar que Davis havia sido indicada ao prêmio de melhor atriz por O Que Aconteceu Com Baby Jane? e ela, não. A esnobada começou uma campanha que acabou dando certo: a vencedora daquele ano foi Anne Bancroft, por O Milagre de Anne Sullivan, e por conta de sua ausência, Crawford foi receber o prêmio em seu lugar, uma verdadeira bofetada em Bette Davis, que ansiava por aquele Oscar: seu sonho era ser a primeira atriz a ter recebido três prêmios da Academia.

O grande milagre viria dois anos depois, quando Aldrich novamente conseguiu que as duas atrizes — agora mais inimigas do que nunca — concordassem em fazer outro filme juntas. Nenhuma delas realmente queria aquilo, mas o fato de não terem ofertas para bons papéis (Joan só tinha feito Almas Mortas de relevante, depois de Baby Jane; e Davis, Vidas Vazias, um drama do italiano Damiano Damiani e o psycho biddy Alguém Morreu em Meu Lugar) e o fato de saberem que juntas, poderiam criar outro grande sucesso, impulsionaram-nas a aceitar o convite. O primeiro título do filme (antes de ser mudado, por exigência de Davis), What Ever Happened to Cousin Charlotte? já era uma indicação do trabalho anterior da dupla e um chamariz para o público. Porém, não havia dúvidas de que Bette Davis aceitou o convite para fazer uma armadilha para Joan Crawford. Ela queria se vingar a todo custo dos eventos do Oscar de 63.

As filmagens começaram com Davis cortando algumas falas de Crawford ou se colocando muito próxima ou mesmo se sobrepondo à voz de Robert Aldrich. Pelo menos 1/3 das cenas individuais da personagem Miriam foram filmadas, até que a situação nos sets ficou impossível e Joan Crawford adoeceu, vítima de problemas respiratórios. Bette Davis e o médico da equipe de produção alegavam que era fingimento ou algo psicológico. Aldrich e pessoas próximas à atriz convalescida acreditavam que ela realmente estava doente. Mas o afastamento durou bem mais do que deveria, atrasando as filmagens e após excederem o orçamento e o tempo inicial de produção, Aldrich viu colocadas em sua frente duas opções: ou cancelava o filme ou substituía Joan Crawford. A segunda opção foi escolhida. O diretor viajou até a Suíça para convencer pessoalmente a atriz Olivia de Havilland, que era amiga de Bette Davis, mas tinha mostrado resistência em participar do filme porque achou a concepção de sua personagem muito parecida com a que ela interpretara recentemente em A Dama Enjaulada.

Convencimentos feitos e refilmagem iniciada, a obra seguiu quase sem impasses (rusgas entre as estrelas principais surgiram na sequência de estapeamento, mas era apenas um desentendimento entre amigas). A história do filme se passa em Baton Rouge, Louisiana, nos anos 20 e 60, e envolve um assassinato que deixa a personagem de Bette Davis (Charlotte Hollis) marcada para a vida inteira. Há uma espécie de inversão de papéis em relação a Baby Jane e o roteiro cria uma progressiva revelação de responsáveis (ou atribuição de culpa atrelada a mistérios) através do suspense, espelhando o inteligentíssimo As Diabólicas (1955), de Henri-Georges Clouzot. Assim como no já citado Almas Mortas, o final de Com a Maldade na Alma compromete bastante a solidez do filme, pois se estende para uma colocação da estrela-rainha (no caso, Bette Davis) em destaque, em um momento emotivo, para que o público se conectasse a ela e se lembrasse dos horrores pelos quais passou, imaginando sua vida daí para frente.

Claro que as interpretações de Davis e Havilland são excelentes, mas não podemos deixar de lado a grande Agnes Moorehead, merecidamente indicada ao Oscar por sua performance aqui. Sua aparente loucura, sua voz com agudos pontuais e o fato de despir-se de vaidade (Davis também o faz aqui, não no nível de Baby Jane, mas de maneira marcante, vestindo-se como uma criança e mantendo as tranças em boa parte da fita) somam-se a uma atuação que sequestra todas as cenas em que ela aparece, a ponto de apagar Joseph Cotten, que não está mal no papel, mas não traz nada de extraordinário. Aqui também tivemos o último filme realizado por Mary Astor, que faz uma boa despedida dos cinemas, apesar de estar em um papel pequeno.

Mais seguro de sua capacidade como diretor, Aldrich ousa uma série de tomadas “incomuns” em Hollywood, mostrando o desequilíbrio das duas personagens principais — em esferas diferentes de suas [in]sanidades — também pelo modo como ass filmava. Essa construção, todavia, ganha ainda maior impacto quando falamos da fotografia, direção de arte, figurino e montagem do longa, todos indicados ao Oscar. A concepção gótica aplicada à casa, a excelência das tomadas noturas, o trabalho com luz e sombra, a distribuição de objetos ou uso de “cenários típicos de terror” ao longo da fita (espelhos quebrados, cabeça e mão decepadas, “fantasmas”) e todo o contexto de perturbação aliado a um romance em dois tempos ajudam a fixar as incertezas, a perspectiva de loucura e a ameaça — mesmo quando descobrimos quem está por trás de toda a farsa.

O roteiro de Henry Farrell e Lukas Heller falha na repetição de temáticas que ambos criaram em Baby Jane e acabam por se desencontrar no começo e no final da obra, que parecem blocos encaixados em um ambiente de opressão que deveria ter toda a tenção do texto, mantendo-se fiel à sua desilusão. Isso, contudo, não torna o filme ruim, apenas o impede de ser melhor. Com a Maldade na Alma fala de culpa e de um plano mesquinho para tornar pior alguém que já não é muito saudável psicologicamente falando. Até certo ponto, é uma forma criativa de retratar um tema que esteve presente na literatura e cinema dos anos 40 e 50 e que sempre retornava às telas, acompanhando as liberdades do estúdio e os novos tempos para mostrar como a maldade humana pode agir, principalmente se existe dinheiro envolvido.

Com a Maldade na Alma (Hush…Hush, Sweet Charlotte) — EUA, 1964
Direção: Robert Aldrich
Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller
Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Cecil Kellaway, Victor Buono, Mary Astor, Wesley Addy, William Campbell, Bruce Dern, Frank Ferguson, George Kennedy, Dave Willock
Duração: 133 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.