Crítica | Coming Home

estrelas 4

O diretor chinês Zhang Yimou vem, consistentemente, demonstrando sua versatilidade. Desde Sorgo Vermelho, sua estreia, passando pelo fenomenal Lanternas Vermelhas, Herói, O Clã das Adagas Voadoras e, mais recentemente, Flores do Oriente, ele demonstra que consegue abordar temas históricos, artes marciais e romance em iguais doses, todas elas com alto grau de eficiência.

Seu mais novo filme, Coming Home (Gui Lai no original, ainda sem título em português, mas que poderia ser trazido como “Voltando para Casa”) tem uma proposta histórica que poderia transformar a obra em um épico de grandes proporções, mas que o diretor prefere transformar em uma intimista e comovente história de amor ao longo de décadas, lembrando um pouco seu pequeno e esquecido romance lacrimoso A Árvore do Amor. O caráter potencialmente épico da fita é estabelecido em sua sequência inicial em que somos apresentados à jovem bailarina Dan Dan (Zhang Huiwen) e à sua mãe Feng (Gong Li) em plena Revolução Cultural na China. As duas vivem de modo espartano, com a primeira desejando, mais do que tudo, ser a protagonista em uma apresentação de balé e a segunda, uma professora, secretamente desejando que seu marido, Lu (Chen Daoming) volte para casa. É que Lu foi preso na eclosão da revolução há 10 anos e a narrativa não demora em mostrar que ele fugiu do cativeiro. As mulheres passam a ser vigiadas e, no desenrolar desse emocionante momento, Feng não abre as portas para Lu, levando-o, depois, a ser novamente preso.

Esse prólogo, de estrutura ambiciosa, com tomadas em planos fechados, com um ou dos personagens, mas também em planos abertos, com dezenas de extras, dá a impressão que veremos algo de proporções gigantescas, somente para sermos arremessados, sem cerimônia, para três anos depois, ao final da Revolução Cultural, com a “reabilitação” de Lu e sua tentativa de voltar ao lar. A partir desse ponto, tudo o que testemunhamos é, em poucas palavras, que peças o amor pode pregar nas pessoas. Lu só quer voltar para sua filha e esposa, somente para encontrar uma situação completamente mudada: Dan Dan não mais é bailarina e Feng apagou Lu de sua memória completamente. Mas a situação não ocorre por maldade, mas sim por amor, um amor tão profundo que fez com que a mente de Feng não só culpasse Dan Dan pela “perda” de Lu como a si própria. E o amor, do outro lado, gera uma gigantesca e inquebrantável vontade de Lu de voltar a ter sua família.

Não devo falar muito mais, para não estragar a história para ninguém. Basta dizer que Coming Home surpreende e emociona, mas sem ser dramático como A Árvore do Amor. Zhang Yimou trabalha com cores mudas, mas de um jeito que parece que elas querem desabrochar e aparecer, muito semelhante ao amor entre o casal. É interessante como ele usa a luz para trazer vida às sequências em que Lu quebra algum tipo de barreira em relação a Feng, acendendo não só a esperança do personagem como, principalmente, a nossa.

As atuações fortes de Gong Li e Chen Daoming ajudam a dar veracidade à narrativa. Li é impressionante ao conseguir olhar sem ver e, mesmo assim, demonstrar um emoção escondida lá no fundo. E Daoming é pura emoção, pura paixão, pura tenacidade, valendo especial destaque para seu trabalho na sequência do piano, em que seu rosto mal aparece. É de se tirar o chapéu.

Por último, é interessante notar que o filme também mostra o quanto a China avançou. De um país comunista totalitário e sanguinário, com absoluta repressão à liberdade de expressão, vemos uma nação tentando se desvencilhar das chagas do passado, aproximando-se da luz de Yimou, nem que seja apenas por alguns minutos, como no fortemente crítico prelúdio que tratei. Não tem muito tempo que abordagens como essa do regime de Mao Tse Tung só acontecia por intermédio de chineses exilados. Yimou vive orgulhosamente em seu país e ajuda, nas últimas décadas, a transformar a cultura abafada da China, enquanto que o partido em controle relaxa seus controles. Ainda estão muito longe de alcançar uma verdadeira democracia – o que é uma verdadeira democracia, não é mesmo? – mas o caminho existe e isso fica claro, nem que seja de soslaio em Coming Home.

O mais recente filme de Zhang Yimou revela-se uma surpresa intimista e bela, depois de um começo de larga escala. É o diretor fazendo muito com pouco e, vez ou outra, nos fazendo verter lágrimas.

Coming Home (Gui Lai, China – 2014)
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Zou Jingzhi (baseado em romance de Yan Geling)
Elenco: Gong Li, Chen Daoming, Zhang Huiwen, Guo Tao, Li Chun, Yan Ni, Zhang Jia-yi, Ding Jiali
Duração: 109 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.