Crítica | Como Eu Era Antes de Você, de Jojo Moyes

estrelas 4

Não sou uma grande fã desse tipo de literatura. Pode ser um pouco de preconceito meu ou apenas uma questão de identificação, ou seria a falta dela? Bom, não sei bem ao certo o motivo pelo qual me levou a adquirir Como Eu Era Antes de Você, da inglesa Jojo Moyes. Sei que quando me dei por mim estava no caixa da livraria já devorando as páginas deste livro que ganhou adaptação cinematográfica.

Avaliando um pouco mais a fundo acho que o que me atraiu no romance foi a questão da tetraplegia do personagem principal da trama, o magnata Will Traynor. Com uma lesão entre as vértebras C5 e C6, o jovem de 35 anos vive em uma cadeira de rodas desde que uma moto o atropelou na saída de casa no centro de Londres. Minha mãe foi tetraplégica com uma lesão semelhante à do personagem, entre C6 e C7. Por ter vivido tão de perto a luta dela nessa nova condição, e por ter conhecido vários tetras como ela quando descobrimos o diagnóstico, acredito que esse ponto em especial tenha me chamado a atenção para o livro na prateleira da livraria.

O livro segue a clássica história de amor entre pessoas diferentes que vivem em mundos tão distintos e que, se não fosse pelas circunstâncias da vida, provavelmente não se encontrariam. Louisa Clark tem 26 anos e sabe muito pouco do mundo e da vida. Nasceu, cresceu e viveu sempre na mesma cidade, namora o mesmo cara há sete anos e trabalha em um café que não lhe apresenta grandes oportunidades profissionais. Ela mora com seus pais, que estão sempre preocupados com os gastos da família, a irmã mais nova e o sobrinho pequeno e também o avô que tem problemas de saúde e pouco interfere na sua rotina diária. Seu mundo vira de cabeça para baixo quando o café fecha e ela se vê em busca de uma nova colocação profissional. Lou, como é conhecida pela família, é a típica personagem apaixonante. Já nas primeiras páginas percebemos a sua energia de viver, mesmo com os problemas cotidianos vividos em casa e com a promessa de casamento do namorado, que está mais preocupado em contar calorias do que em assumir um compromisso mais sério com a garota. Lou também é dedicada a tudo que faz, e isso fica evidente no trato com a família e com os amigos. Está disposta a abrir mão do quarto, da casa e do que mais for necessário pelo outro. Esse comportamento altruísta dela é o que move a história em quase todo o livro e também o que a deixa ainda mais apaixonante e emocionante.

O único emprego que aparece é para cuidar de Will, cadeirante há cerca de dois anos que vive a poucas quadras de sua casa em uma mansão que mais parece saída de um conto de fadas. Apesar de nenhuma experiência na função, Lou consegue o emprego principalmente pela sua alegria de viver e pela forma leve como trata Will. A convivência dos dois é difícil no início, mas aos poucos os dois percebem afinidades e dão início a uma amizade sincera e natural. Nathan, enfermeiro de Will, também é importante em todo esse processo, já que é nele que Lou se consola nos momentos em que o temperamento do seu “patrão” ameaça sua permanência no emprego.

As dificuldades de um cadeirante vão sendo vivenciadas por Lou e Will com leveza e são retratadas pela autora de forma sincera e bem fiel: o medo da pneumonia e das infecções urinárias, as limitações em atividades que parecem comuns a maioria das pessoas, a dependência do outro para quase tudo. O ponto de conflito da trama acontece quando Lou descobre que o seu contrato de 6 meses não era por acaso. Will deu exatamente esse tempo aos pais para que eles se acostumassem com a ideia de que ele faria uma eutanásia, já que aquela vida de limitações não combinava com o seu espírito livre e aventureiro. Quando descobre isso, Lou inicia uma busca em encontrar programas, viagens e atividades que façam com que o Will perceba o quanto a vida é importante e desista da ideia do suicídio assistido.

A maneira solta e leve como a autora leva a história resulta em um livro de fácil leitura e de um envolvimento imediato, salvo alguns problemas na tradução e da falta de uma revisão mais comprometida, mas nada que comprometa o resultado final.

A autora foi muito criticada na época do lançamento do livro por causa do final dos personagens de Will e Louisa. Mas, apesar de triste, a forma como o livro termina mostra que aquele era a única alternativa sincera e verdadeira para encerrar a história. É inevitável derramar algumas lágrimas no epílogo e em outras passagens como a dança de Lou nas Ilhas Maurício durante uma viagem com Will e Nathan, e, claro, o presente que ele dá a ela no dia do aniversário. Pequenas pílulas que a autora nos entrega ao longo do livro que nos ensinam que a vida é curta e precisa ser vivida com a maior intensidade possível, e mais do que isso, que nem sempre a felicidade está onde se espera e que precisamos, acima de tudo, sermos fieis com a nossa essência, com quem somos e com o que pretendemos ser. Uma leitura leve, triste, comovente, divertida e, acima de tudo, absurdamente verdadeira que mostra que muitas pessoas passam pela nossa vida e não mudam nada, mas aí chega aquela pessoa e a nossa vida muda, e para sempre.

Como Eu Era Antes de Você (Inglaterra, 2013)
Autor: Jojo Moyes
Editora: Editora Intrínseca
Páginas: 320

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.