Crítica | Como Fazer Um Filme de Amor

estrelas 4

Lamentável perceber que para muitos brasileiros, o gênero comédia possui referência direta com as bobagens produzidas pelo eixo Globo Filmes, em suma, tramas rocambolescas cheias de estereótipos e preconceito. Felizes são aqueles que conseguem caminhar pelo trajeto alternativo. Como Fazer Um Filme de Amor é um destes caminhos.

A trama é aparentemente simples: Alan (Cassio Gabus Mendes) é um empresário rabugento que numa ironia do destino, encontra-se com a fotógrafa Laura (Denise Fraga). Ambos estão ótimos em seus personagens, principalmente quando contracenam com a estereotipada (propositalmente) e também ótima Lilith (Marisa Orth), ex-namorada de Alan e algoz da relação que começa a se estabelecer dentro dos moldes clássicos.

Sempre à espreita do casal, Lilith investe pesado no insucesso do namoro, utilizando-se de subterfúgios como a estranha morte de Bárbara, ex-namorada de Alan, assassinada, como declarado constantemente na narrativa, “barbaramente”. É neste ritmo que José Roberto Torero, responsável pelo excepcional Terra Papagalli, endossa a sua paródia, assumindo a direção e o roteiro desta comédia reflexiva e bastante dinâmica.

No que diz respeito aos elementos da linguagem cinematográfica, o filme trabalha muito bem dentro dos parâmetros da paródia: a direção de arte carregada flerta com o kitsch, a fotografia, assinada por Kátia Coelho, também colabora com o estabelecimento do clima, setores que juntamente com a trilha sonora de Mário Manga, certeira ao nos brindar com clássicos da música popular brasileira, tais como Wando e Agepê, formam a embalagem metalinguística de Como Fazer Um Filme de Amor.

Ainda na seara da metalinguagem, o filme ironiza as tramas dos romances da série Júlia, Sabrina e Bianca, muito comuns há alguns anos, além de referenciar clássicos do cinema em cenas antológicas, como por exemplo, o surto psicológico de Jack Nicholson em O Iluminado e alguns elementos de Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. As referências não surgem aleatórias, como exibicionismo cinéfilo, mas estão encaixadas adequadamente dentro do esquema narrativo.

Há outros pormenores do roteiro que merecem destaque. O narrador questionador dialoga com o público e brinca de Brás Cubas, em reflexões hilariantes sobre o processo de construção de um filme romântico. A personagem Lilith é ótima. É um daqueles papeis que brilham graças ao eficiente desempenho da atriz, neste caso, a ótima Marisa Orth. Ela encarna a vilã que precisa explicar os motivos da sua vingança ao final.

Outro ponto interessante na seara dos personagens é a ironia acerca das funções dramatúrgicas exigidas pelos manuais de roteiro: a mãe de Laura, cega, encarna o papel de mentora, William, o mordomo de Alan, filosofa sobre o amor o tempo inteiro e também age como um mentor. O narrador, consciente da história contada, brinca com os pontos de virada, com a curva dramática e permanência de determinadas virtudes para a evolução dos personagens.

O filme traz artistas que aparecem em produções audiovisuais televisivas, mas que graças ao bom roteiro e ao empenho da produção, todos fogem dos lugares comuns e oferecem uma trama que permite ao espectador também refletir sobre diversos pontos teóricos da nossa história cinematográfica desde sempre: a miséria da distribuição de filmes brasileiros em seu próprio território, haja a vista a competição com a produção estrangeira.

No decorrer de seus 81 minutos, Como Fazer Um Filme de Amor ironiza os elementos da construção do roteiro de cinema clássico, numa clara alusão ao padrão esquemático e engessado de manuais como o de Syd Field, material teórico que nos encaminha por ótimos trajetos da escrita, mas engessa aqueles que não conseguem sair da cartilha hollywoodiana de sucesso: finais felizes e previsíveis, para o bem de todos, em especial, das bilheterias.

Como Fazer Um Filme de Amor Brasil, 2004. 
Direção: José Roberto Torero.
Roteiro: José Roberto Torero e Luiz Moura.
Elenco: Denise Fraga, Cássio Gabus Mendes, Paulo José, Ana Lúcia Torres, André Abujamra, Marisa Orth, Ilana Kaplan, Carlos Mariano.
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.