Crítica | Como Ser Solteira

estrelas 2,5

Com um mercado dominado por comédias que exploram a vida de solteiro masculina, é com certo alento que embarcamos na sessão de Como Ser Solteira, filme que promete cair na farra e explorar a esbórnia do público feminino. Porém, longe do resultado exemplar atingido por Paul Feig com suas últimas comédias (vide Missão Madrinha de Casamento e A Espiã que Sabia Demais), o filme de Christian Ditter acaba perdido em clichês e uma inconsistência inacreditável.

A trama começa da forma mais básica possível. Alice (Dakota Johnson) termina seu relacionamento de 4 anos a fim de mudar-se para a casa de sua irmã Meg (Leslie Mann) em Nova York e iniciar um novo e promissor emprego. Lá, conhece a festeira Robin (Rebel Wilson), que lhe mostrará a agitada vida noturna para solteiras em Manhattan.

Desde a ambientação até a premissa, Como Ser Solteira oferece um vasto universo de possibilidades que fariam até o mais medíocre dos roteiristas ter um súbito sopro de inspiração. E, em partes, o texto de Abby Kohn, Marc Silverstein e Dana Fox se diverte ao criar padrões e estereótipos de comportamento, como a longa jornada de Robin para curar sua ressaca ou o hábito do solteirão Tom (Anders Holm) deliberadamente cortar a água de sua casa para evitar um envolvimento de suas parceiras intercambiáveis.

A performance central de Dakota Johnson também é agradável, e seu carisma já a comprova como uma sólida aposta na nova geração de Hollywood. Além de bom timing cômico, a atriz também consegue inserir uma carga dramática que se encaixa na diegese da narrativa, sem soar deslocada. Já Rebel Wilson permanece completamente aborrecente e sem o menor timing cômico, como se a comediante australiana estivesse confortável em reciclar todos os seus papéis: a escandalosa, porra louca.

Leslie Mann e Alison Brie infelizmente acabam em um piloto automático, mas a segunda sofre principalmente pelo desenvolvimento porco de seu arco. Na pele da obsessiva Lucy, Brie surge divertidamente caricata como uma mulher sonhadora e idealista, que inicia uma inimizade curiosa com Tom, mas que jamais atinge uma conclusão satisfatória. A inconsistência entre independência do sexo feminino e total perseguição em relação ao macho também tornam a experiência confusa, já que o roteiro não parece se decidir qual via levar. Nem preciso dizer, é algo muito mais original quando temos a primeira, mas atinge um nível Nancy Meyers de breguice ao trazer Alice abraçando seu ex após este arrumar uma configuração da televisão. Santa contradição!

Outro problema grave é a distribuição da história. Ainda que encoste nas 2 horas de projeção, a narrativa é terrivelmente mal distribuída, já que, ao concentrar sua maior porção no arco de Alice e seus interesses amorosos, temos o sumiço de personagens, situações mal resolvidas e relações apressadas. Nunca de fato há um aproximamento entre Alice e Robin que justifique o clímax passional, ou até mesmo a amizade das duas. A necessidade de amarrar pontas soltas também gera mais enrolamento e inconsistência, já que o longa acaba debruçando-se sob um inesperado drama familiar envolvendo o personagem de Damon Wayans Jr; aliás, o irmão dos “mestres” da paródia trash contemporânea revela um ótimo potencial para o drama.

Finalmente, vale comentar o cuidado estético que normalmente não encontramos em uma comédia. Geralmente adotando uma paleta mais realista e sem grandes invencionismo, a fotografia adotada por Christian Rein é estilosa e bem contrastada, captando belíssimas imagens noturnas de Nova York. Já Ditter revela-se mais inventivo, até tentando construir um plano-sequência falseado para relatar a rápida decoração do apartamento de Alice. E, entre os já batidos balõezinhos de mensagens de celular na tela, Ditter surpreende por outros recursos visuais dinâmicos, como a contagem de garrafas no segundo encontro entre Alice e Tom.

No fim, Como Ser Solteira agrada e surpreende pela direção inteligente e inventiva, mas acaba se perdendo em um roteiro contraditório e que realmente não precisava de tantas personagens e subtramas.

Como Ser Solteira (How to Be Single, 2016 – EUA)

Direção: Christian Ditter
Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein e Dana Fox
Elenco: Dakota Johnson, Rebel Wilson, Leslie Mann, Alison Brie, Anders Holm, Damon Wayans Jr, Nicolas Braun, Jacke Lacy
Duração: 110 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.