Crítica | Como Sobreviver a uma Praga

O título engana. Como Sobreviver a uma Praga é muito mais sério e interessante que parece. A primeira coisa que me veio à cabeça vendo esse documentário, que concorre ao Oscar 2013 em sua categoria, foi O Óleo de Lorenzo, lindo filme baseado em fatos reais protagonizado por Susan Sarandon e Nick Nolte em que pais dedicados e leigos que descobrem a cura de uma doença até então incurável para salvar seu filho.

Como Sobreviver a uma Praga nos revela basicamente a mesma coisa, mas em proporções muito, mas muito maiores e significativas. David France, iniciante na direção, faz um impressionante trabalho de garimpo audiovisual, trazendo-nos imagens verdadeiras a partir da metade da década de 80, durante o começo da praga chamada AIDS. Observamos o movimento LGBT tomar corpo diante das incontáveis mortes que mais fortemente atacou esse grupo de pessoas para obter aprovação mais eficiente de drogas que combatam o vírus HIV.

O grande trunfo de France é exatamente ter encontrado filmagens “antigas” absolutamente sensacionais, de boa qualidade, que transmitem muito precisamente aquilo que ele deseja transmitir: o preconceito, a luta e a vitória. Seu trabalho de montagem, que faz muito pouco uso de entrevistas atuais criadas exclusivamente para esse documentário, conta o passo-a-passo de pessoas comuns, em sua grande maioria diagnosticadas como portadores do vírus HIV para criar o grupo chamado ACT UP (que depois sofreu uma cisão, gerando o TAG, também muito importante) e literalmente derrotar a morosidade das autoridades em lidar com um problema que a percepção preconceituosa da época afirmava que vinha de comportamentos pouco naturais.

Aliás, a visão preconceituosa de políticos (incluindo um sensacional trecho de uma resposta de George Bush em sua campanha de reeleição em que afirma que os hábitos precisam mudar para a doença desaparecer) e de alguns especialistas, além da Igreja Católica, é muito bem ilustrada ao longo da obra de France, que absolutamente não perdoa quem quer que seja. Apesar do preconceito ainda existir nos dias de hoje, é de cair o queixo ver como ele era arraigado e publicamente exposto pelos políticos em discursos e até mesmo debate presidencial. E esse preconceito ajudou na proliferação da doença, pois o FDA (similar à nossa ANVISA, responsável pela aprovação de medicamentos e alimentos) não tratou a rápida proliferação da doença e a correspondente necessidade de remédios que a combatesse com a celeridade que o assunto demandava. O resultado? Em meados da década de 90, segundo o documentário, quase 9 milhões de pessoas já haviam perecido por complicações resultantes da AIDS. 9 milhões! Um verdadeiro holocausto.

Só que o documentário aborda o assunto de maneira positiva – se é que isso é possível – relatando a gigantesca luta do movimento LGBT para provar que o problema era e é ainda gravíssimo e que um novo enfoque sobre a aprovação de medicamentos era essencial. Não só mais investimentos eram necessários como, também, o FDA precisava encarar a AIDS literalmente como uma epidemia semelhante à que assolou a Europa na Idade Média. Pessoas sem o menor treinamento médico estudaram e geraram importantíssimos relatórios com sugestões de criações de testes humanos muito mais eficientes que acabaram efetivamente reformando o modus operandi do FDA e transformando uma epidemia mortal em uma situação altamente controlável para quem tem acesso aos coquetéis de medicamentos hoje existentes. É incrível ver essa vitória sendo aos poucos revelada no documentário e isso sem que o diretor tenha tido que recorrer a gráficos, explicações técnicas ou mesmo longos depoimentos. A dinâmica de Como Sobreviver a uma Praga funciona quase como um drama de ficção,  tamanha a impossibilidade do feito alcançado.

Se há um lado negativo no filme é exatamente dar a impressão que o problema acabou. Apesar das terríveis imagens que vemos, o tom do documentário é esfusiante, vitorioso mesmo e o tempo dedicado a mostrar que a questão continua e que ela não foi resolvida completamente fica espremido no final, com uma explicação textual que não deixa evidente a urgência do assunto. É um pequeno ponto, é verdade, mas um que achei que precisava ter sido explorado um pouco melhor, nem que o documentarista tivesse que ter alterado seu estilo e imposto uma narração em off ou imagens um pouco mais contundentes. Não que ele precisasse retirar o mérito do que foi alcançado, mas sim demonstrar, sem deixar dúvidas, que muito foi feito, mas que muito mais precisa ainda ser feito.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.