Crítica | Conan, o Bárbaro (1982)

conan_o_barbaro_1982_b_plano_critico

estrelas 4

Dentre os vários “filmes de brucutu” dos anos 80, Conan, o Bárbaro é, sem dúvida alguma, um dos que mais merece destaque, ao lado de Rambo – Programado para Matar, O Exterminador do Futuro e Duro de Matar. Um dos últimos exemplares genuínos do subgênero espada e sandálias e produzido por Raffaella De Laurentiis, filha do mítico, exagerado e quase trash produtor italiano Dino De Laurentiis, que não tinha medo de arriscar, o filme é um épico violento e inesquecível que marca o efetivo começo da meteórica carreira cinematográfica de Arnold Schwarzenegger.

Baseado nas histórias pulp de Robert E. Howard sobre seu personagem Conan que escreveu a partir de 1932 e que ganhou o imaginário popular mais tarde ao migrar para os quadrinhos, onde continua sendo publicado até hoje, o roteiro original foi escrito por ninguém menos do que Oliver Stone, que situou a ação não no passado remoto como nas obras originais, mas sim em um futuro pós-apocalíptico. No entanto, a visão de Stone exigiria que o filme tivesse três ou quatro vezes o orçamento planejado e o roteiro foi, então, reescrito por John Milius quando ele entrou para dirigir a empreitada. Milius, ato contínuo, reverteu tudo para a ideia original de um passado remoto, inserindo exatamente o tipo de “mitologia misturada e anacrônica” característica de Howard, com elementos das Idades Antiga e Média, tanto europeia quanto asiática para facilitar a ligação com o público em geral a esse seu mundo de fantasia, misticismo e muito sangue, que ainda bebe de Nietzsche e filosofia de guerreiros como Genghis Khan, além de filmes como As 4 Faces do Medo e Os Sete Samurais.

Schwarzenegger, que ganhara o prêmio Mr. Olympia de fisiculturismo em 1975, foi a única escolha para viver o icônico personagem e ele começou sua preparação ainda em 1979, deixando o cabelo crescer ao ponto que vemos no filme (não é peruca ou enxertos) e novamente entrando em plena forma física que o levou a concorrer – e ganhar – o Mr. Olympia novamente em 1980, ainda que, aparentemente, com um certo grau de controvérsia. De toda forma, fica fácil perceber como o ator se amolda perfeitamente ao papel desde os primeiros segundos que o vemos, depois de crescido, na roda de moagem – a Roda da Dor – onde passou acorrentado algo como 15 anos. Ali, vemos um troglodita nascendo, primeiro como alguém que apenas reage sem entender a ataques em uma pequena arena gladiatorial e, depois, como um guerreiro nato com pleno controle de sua técnica que é ainda mais afinada com ensinamentos posteriores.

Mas o que realmente empresta o tom épico do filme é o uso de um razoavelmente extenso prólogo – uma das grande mudanças feitas por Milius, aliás, que expandiu o breve começo escrito por Stone – em que vemos sua origem, desde muito jovem, com sua vila sendo atacado por Thulsa Doom (James Earl Jones usando sua imponente presença e, especialmente, sua marcante voz para criar um personagem que, apesar de raso, é perfeito para o filme) e seu exército em busca do “enigma do aço”. Seu pai (William Smith) é morto por uma combinação de machado e cães de caça e sua mãe (Nadiuska) diretamente por Doom com a bela e recém-forjada espada do pai, iniciando, assim, a Jornada do Herói movida à vingança e muita dor. Somando-se a isso, há a narração feita pelo mago sem nome vivido por Mako que só entra na história diante das câmeras bem mais para a frente e que nos conta a história a partir de um futuro em que Conan já se tornou uma lenda, lenda essa que é vislumbrada pelo guerreiro quando ele encontra a sala do trono de um rei atlante milenar e toma sua espada e prevista por uma bruxa que ele sem cerimônia arremessa no fogo.

A construção da mitologia ao redor do protagonista é exemplar. O roteiro não corre, mas também não se perde e estabelece as bases para um personagem instigante, com ramificações potencialmente interessantes, mas que nunca foram levadas à fruição em sua plenitude (Schwarzenegger viveria Conan apenas mais uma vez em continuação bem inferior de 1984 e uma versão genérica do personagem – Kalidor – logo no ano seguinte em Guerreiros de Fogo). De toda forma, o material de Conan, o Bárbaro se sustenta sozinho, sendo fechado nele mesmo com a visão final do Rei Conan, barbado e sentado em seu trono, sendo a proverbial e aqui necessária cereja no bolo.

Outro elemento que solidifica o caráter épico do filme é a poderosa trilha sonora composta por Basil Poledouris, que começara sua carreira no cinema exatamente com John Milius em The Reversal of Richard Sun (sem nome oficial em português), de 1970 e repetiria a parceria com sucesso em Amargo Reencontro, de 1978. Usando forte percussão e um leit motif maleável para Conan à base de cordas e metais – batizado bem propriamente de Riddle of Steel – que ele adapta para as diversas situações trágicas vividas pelo personagem, de preparação para a vingança, passando pela morte de personagens até sua vitória final, os acordes do compositor estabelecem a atmosfera grandiosa da produção e a força física e moral do protagonista.

Enquanto o design de produção é bem trabalhado, com figurinos convincentes e que estabelecem as regiões de nosso mundo em que as ações desse mundo de fantasia acontecem, além de cenários grandiosos e diversas tomadas em locação, há um certo exagero dramático que carrega a marca registrada dos De Laurentiis. Orgias, canibalismo e sangue falso aos borbotões pontuam a produção do começo ao fim e John Milius, infelizmente, por muitas vezes não sabe usar sua  direção para tirar proveito do material que tem, focando nesse lado mais trash, com direito a alguns closes constrangedores de Schwarzenegger e uma inépcia ao lidar com as sequências de ação em planos gerais, o que somente amplifica a sensação de teatralidade que acaba ofuscando um pouco o lado mais gutural da obra.

No entanto, se pararmos para pensar na origem literária de Conan, com Howard e suas famosas pulp fictions, a pitada trash que Milius deixa inadvertidamente passar pode ser perfeitamente perdoada, especialmente diante de um conjunto decididamente inesquecível que não só marca a estreia definitiva de Schwarzenegger em Hollywood, como estabelece o Conan definitivo logo na primeira tentativa. Sem dúvida alguma, um perfeito exemplar da estética oitentista que passa com honras pelo teste do tempo.

Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian, EUA – 1982)
Direção: John Milius
Roteiro: John Milius, Oliver Stone (baseado em criação de Robert E. Howard)
Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow,  Gerry Lopez, Sandahl Bergman, Ben Davidson,  Cassandra Gava, Mako, Valérie Quennessen, William Smith,  Luis Barboo
Duração: 129 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.