Crítica | Condado Macabro

estrelas 3

Antes de continuar a ler o texto, pergunte-se: quantos filmes de psicopatas você já assistiu? Quantas vezes presenciou na sinopse de filmes de terror o esquemático “jovens se divertem em local isolado e são dizimados por um misterioso assassino”? Qual a opção brasileira, apimentada por elementos próprios da nossa cultura, numa espécie de regionalismo que emula fórmulas do cinema estadunidense e as aplica com mão firme por aqui? Uma? Nenhuma?

Depois destes questionamentos, feche o ciclo de autorreflexão na busca de compreensão da força do gênero slasher na indústria cinematográfica dos anos 1980 aos dias atuais. Ainda há espaço para oxigenação de ideias depois de tantas investidas neste tipo de narrativa? A polêmica acerca do Brasil e os filmes de terror é dá pano para manga. Se de um lado temos o horror sobrenatural, sádico e fantasioso de Zé do Caixão, no que diz respeito aos demais subgêneros ficamos, até pouco tempo, devendo muito.

É ai que você descobre Condado Macabro e se surpreende. A narrativa não tem nada de diferente do que já vimos em filmes melhores, mas a homenagem rasgada aos clássicos O Massacre da Serra Elétrica, Quadrilha de Sádicos e Sexta-Feira 13 saltam aos olhos e funciona muito bem. Pode não ser “original” nas ideias, mas foi uma tentativa brasileira bem sucedida, haja vista a nossa indústria de ciclos distintos que nunca investiu neste tipo de abordagem do gênero.

No filme um grupo de jovens aluga se instala numa casa de campo para passar o feriado, sem saber que serão perseguidos por um trio de degenerados de arrepiar. Os responsáveis pelo estabelecimento do terror, Cangaço (Francisco Gaspar) e Bola Oito (Fernando de Paula), levam as suas famigeradas vidas em golpes e roubos por cidades interioranas. Ao avistarem o grupo de jovens aparentemente endinheirados e esbanjando saúde, prato feito para possíveis abusos sexuais, a dupla não perde tempo e parte para o ataque.

As vítimas são previsíveis e dá até para adivinhar a ordem do abate. Theo (Leonardo Miggiorin) é o belo, recatado e do lar. Sexualmente quieto, deseja passar um bom final de semana ao lado dos amigos. Mari (Larissa Queiroz), a sua irmã, é rasa que nem um pires, sem dúvida a personagem menos significante da história. Beto (Rafael Raposo) é a “fatia” American Pie: bobo, age por impulso e repele quase todas as suas oportunidades de se relacionar sexualmente. Vanessa (Olívia de Brito), coitada, é o ponto central do bullying cinematográfico: vítima de preconceitos e piadas infames, a garota é alvejada com termos politicamente incorretos e agressivos. Por fim, temos Lena (Bia Gallo), a final girl do filme. Luta até o fim e paga tributo para Marilyn Burns, a eterna Sally da franquia de Leatherface.

Dirigido por Marcos DeBrito e escrito em parceria com André de Campos Mello, Condado Macabro é um pastiche de tudo que já vimos antes dentro do ciclo de produção deste subgênero, com algumas inversões: a família degenerada desta versão alimenta os porcos da sua vara com carne humana, o investigador decidido a exterminar o crime na região, tendo em vista projeção social também está presente, num formato mais caricato. No ciclo de referências há espaço para um anagrama: seria o personagem Jonas uma referência “embaralhada” de Jason?

No que tange aos aspectos estéticos, também há muitas referências: a maquiagem de Fábio Servillo e Olívia de Brito é eficiente e nos remete aos elementos visuais dos filmes de Rob Zombie, um dos cineastas alvo de polêmicas na seara do terror contemporâneo. A Casa dos 1000 Corpos ou Rejeitados Pelo Diabo são duas referências possíveis, principalmente no que diz respeito ao grafismo violento da segunda metade do filme, bem como a sua fotografia estourada, a câmera lenta e bastante sujeira.

Filmado no Mato Grosso do Sul, a câmera mergulha no espaço fílmico e capta um cenário que nos remete ao tenso O Massacre da Serra Elétrica. A fotografia amarelada e os confins da região centro-oeste, somados ao som de uma trilha sonora de clássicos populares dão o tom brasileiro ao filme, diferente de obras do mesmo estilo realizadas por outros países, mas que o tom é toda estadunidense.

Por contar a sua história em flashback o filme consegue angariar mais pontos positivos. A obra é contada a partir do depoimento de um dos supostos criminosos, após ser capturado pela polícia saindo da cena do crime. O desempenho dramático da macabra personagem de Marcela Moura, um dos membros do clã assassino, também é outro ponto eficiente. Apesar da coragem em dar vida ao projeto, um trabalho de TCC realizado há 13 anos, os envolvidos na produção exageraram em outras questões: alguns personagens funcionam tal como um receptáculo de estereótipos, além do tempo de duração desnecessário de 110 minutos para um roteiro que pedia um pouco menos. Se você conseguir se desvencilhar disso, talvez aprecie o filme em sua totalidade.

Condado Macabro Brasil, 2015 
Direção: André de Campos Mello, Marcos DeBrito
Roteiro: André de Campos Mello, Marcos DeBrito
Elenco: Leonardo Miggiorin, Paulo Vespúcio, Francisco Gaspar, Rafael Raposo, Marcela Moura, Larissa Queiroz, Fernando de Paula, Bia Gallo, Beto Brito, Olivia de Brito
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.