Crítica | “Confessions on a Dance Floor” – Madonna

Depois da engajada e partidária crítica política ao american way of life, Madonna sentia a necessidade de dançar. Era preciso expurgar a fase America Life e investir em um som novo e com propostas que envolvesse, em medidas bem equilibradas, reflexão e entretenimento. O resultado dessa sensação foi o lançamento de um dos melhores álbuns da cantora: Confessions of a Dance Floor, produção metalinguística, imbricada ao som dos anos 1970 e ao passado musical da própria cantora. Quando entrevistada sobre os bastidores de realização, Madonna confessou que o seu interesse era colocar todo mundo para dançar, pois o mundo já estava doente e melancólico o suficiente. A ideia funcionou tão bem que o álbum foi sucesso de crítica e vendas, seu melhor trabalho no bojo do novo milênio.

Anteriormente focada em produções acústicas, na concepção de “Confessions”, Madonna retorna ao ritmo que lhe consagrou (dance music), além de incrementar outras experiências e estilos ao material. Produzido por Stuart Price, Mirwais Ahmadzai e pela própria cantora, o décimo álbum de estúdio trata de temas como amor, fama e religião, numa estrutura semelhante ao set de um DJ, com faixas sequenciadas sem intervalos.  Além das diversas referências aos seus grandes sucessos do passado, Madonna também buscou investimento em samples de ABBA, Donna Summer, Pet Shop Boys, Bee Gees e Depeche Mode, num retorno em tom de homenagem às discotecas.

Stuart Price efetivou os laços com Madonna após a participação na produção da Re-Invention Tour. Para “Confessions”, o produtor assumiu a realização, tendo como tarefas cuidar do vocoder, dos sequenciadores e sintetizadores, além dos teclados e sampling. A cantora assume os vocais juntamente com uma das guitarras, tendo como convidado Yitzhak Sinwani, para o vocal adicional de Isaac, uma das canções que mais gerou polêmica com os adeptos da Cabala. Giovanni Bianco assumiu a eficiente direção fotográfica e concedeu ao álbum uma deslumbrante concepção visual, repleta de unidade e vida.

Em seus 56 minutos e 34 segundos (a edição padrão), o álbum reflete a fase em que Madonna tinha “coisas no peito para tirar”, pois como afirmou na mesma entrevista, “há muita loucura no mundo e eu quero que as pessoas sejam felizes”. Madonna sendo utópica e otimista. Não há mal quando ela tem algo de tão bom para oferecer, não é mesmo? Pois é nessa linha, posterior ao agitado e severo caminho de críticas políticas do álbum American Life que Madonna retoma o seu posto de cantora pop ousada e relevante, desinteressada em se repetir constantemente, como no geral acontece com as cantoras do campo da cultura pop.

Hung Up é o “hino” de abertura e lembra bastante Two in the Champagna, de Robert Chrowning, um poema que fala sobre a necessidade de agarrar o momento certo e ter receio da perda desnecessária de tempo, principalmente pelo fato de vivermos em um mundo extremamente acelerado e opressivo. Assinada por Madonna e Stuart Price, a faixa traz uma excelente sincronia com o sample de Gimme Gimme Gimme (A Man After Midnight), de Benny Andersson e Bjorn Ualvaeus, do ABBA, além de elementos da música house, disco e dance-pop. Com um relógio que sugere o passar do tempo, liricamente a faixa trata de uma mulher destemida, forte e independente. Com arranjos de guitarra sobrepostos e vocais agudos, a canção carrega trinta anos de influências e fala sobre como você deve agarrar as oportunidades quando elas aparecem, caso contrário, “você vai acordar um dia e será tarde demais”.

Sorry, composta pela mesma dupla de Hung Up, trata da necessidade de autoconfiança e capacitação pessoal, numa faixa que dá coesão ao álbum, guiada por sintetizadores e ganchos adornados por arranjo mais grave. Com elementos de I Wanna Dance With Somebody, de Whitney Houston, e Can You Feel It, dos The Jacksons, a canção é tão boa quanto o single de abertura. Get Together, outra composição de Stuart Price e Madonna, desta vez, em parceria com Anders Bagge e Peer Astrom, é uma faixa que convida os ouvintes a seguirem Madonna num hipnótico ritmo dançante com batidas dance pop em simbiose com o estilo house music. Jump é outro single do álbum com um convite de Madonna para que todos se juntem e “pulem” os obstáculos da vida.

Ao observar o conjunto, percebemos que se trata de canções, no geral, aparentemente simples, mas revestidas de reflexões sociais importantes e clima unificador. O álbum ainda conta com o som inebriante de Let It Will Be, uma faixa sobre fama e sucesso; Isaac, suposta blasfêmia ao ritual da Cabala; Push, espécie de continuação de Borderline; Like It or Not e suas reflexões sobre passado, presente e futuro; How High, canção com menções e trechos de I Deserv It e Nobodys Perfect; além de Future Lovers, I Love New York, Forbidden Love, canções que em conjunto, representam confissões de Madonna sobre a sua trajetória. O álbum Confessions on a dance floor promoveu duas canções com videoclipes que referenciavam o cinema: Hung Up e Sorry. Em Hung Up, Madonna interpretou algumas cenas diretamente ligadas a elementos visuais do filme Os Embalos de Sábado à Noite, dirigido por John Badham. Em Sorry, dirigido por Jamie King, continuação de Hung Up, Madonna apresenta visual similar ao personagem de Olivia Newton-John no musical Xanadu, de Robert Greenwald, filme que contava com a participação de Gene Kelly no elenco.

Promovido pela Confessions Tour, a melhor turnê da cantora, o álbum é a comprovação da capacidade de Madonna em unir escapismo e reflexão, sem deixar que uma coisa atrapalhe a outra. Críticas ao catolicismo e à administração Bush foram alguns dos pontos mais altos do espetáculo, um revival de antigos sucessos em simbiose com os novos sucessos, receita que ainda conseguiu apresentar bifurcações reflexivas sobre as demandas sociais da época, dentre elas, o empoderamento feminino, o fanatismo religioso, os perigos da homofobia e a importância do respeito ao próximo. Em suma, um grande show, oriundo de um grandioso álbum, produzido por uma fenomenal artista.

Aumenta: Todo o álbum.
Diminui: Nenhuma, mantenha o som no volume máximo do começo ao fim.

Confessions on a Dance Floor
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 11 de novembro de 2005.
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: Pop, dance pop e dance music.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.