Crítica | “Confessions Tour” – Madonna

estrelas 5,0

Em 2005, alguns críticos do campo da indústria fonográfica tinham dado a carreira de Madonna por encerrada, haja vista dois acontecimentos envolvendo a artista: a recepção problemática do álbum American Life por parte de uma grande fatia do seu público, os Estados Unidos, bem como um acidente equestre que deixou a cantora em repouso por um longo período. O que eles não esperavam é que nesse interlúdio a artista preparava um álbum que reforçaria o seu posto de Rainha do Pop: Confessions of a Dance Floor, produção que serviu de base para a turnê Confessions, dirigida por Jamie King, na época, novo parceiro musical de Madonna na época.

Para o espetáculo, a artista múltipla mesclou música, cinema, fotografia, dança contemporânea, balé, jazz, moda, tecnologia e esportes. Tendo em mira o álbum supracitado, a turnê carrega anos de influência cultural, afinal, Madonna atravessou várias gerações. Ícones da cultura disco como ABBA, Donna Summer, Pet Shop Boys, Bee Gees, Depeche Mode e as trilhas sonoras de filmes musicais como Grease, Xanadu e Os Embalos de Sábado à Noite estavam na base da construção do show.

A Confessions Tour foi dividida em quatro partes: Equestrian, Bedouin, Glam-Punk e Disco, todas versáteis e interessantes. Na sequência de abertura, Madonna desce de um globo cravejado de cristais, nos remetendo à cultura disco. O primeiro número musical, Future Lovers, estabelece o clima do show, um diário íntimo que se torna aberto ao público, com as mais variadas confissões da artista: o seu passado, uma reflexão sobre o presente e as possibilidades para o futuro. No final deste trecho de abertura, Madonna oferece um sample de I Feel Love, de Donna Summer, mixado de maneira bastante eficiente.

A canção é seguida pela empolgante Get Together. Mais adiante, aparecem nos telões de LED algumas radiografias, mescladas com as imagens de cavalos frenéticos em espetáculos equestres. Há, neste momento, uma referência ao acidente ocorrido no ano anterior, tendo na canção Like a Virgin, levemente remixada, uma mensagem para os fãs e para os críticos de plantão: Madonna sentia-se como uma virgem nos palcos. Com a carreira quase ameaçada pelos acontecimentos predecessores, ela mostra que voltou com tudo, e ainda nesse bloco, intitulado Equestrian, a artista oferece uma das melhores performances da Confessions Tour: Jump.

Parte da trilha sonora do filme O Diabo Veste Prada, Jump é uma canção que fala sobre empoderamento e da necessidade do alcance de um estágio de capacitação própria por parte das pessoas para sobrevivência num mundo desigual e frenético. Neste número musical, os dançarinos se apresentam através do parkour, a arte do deslocamento. A atividade, cujo princípio é se mover de um ponto a outro de maneira mais rápida possível, é uma metáfora para a necessidade de superação dos nossos desafios cotidianos. O esporte, criado para ajudar indivíduos a vencerem os obstáculos de qualquer natureza no ambiente circundante, desde grades e paredes de concreto, aos simplórios galhos e pedras, é retomado no final do show, na alucinante apresentação de Hung Up.

No final do bloco temos um interlúdio com base sonora envolvendo Live To Tell, uma das baladas românticas de Madonna, famosa nos anos 1980, que ganhou ressignificação para o show. Eis o bloco polêmico: Bedouin, um trecho político, mas não menos dançante. Madonna surge numa representação de Jesus Cristo, crucificada numa enorme cruz cheia de pedaços de espelhos. Atrás, no telão, um contador funciona vertiginosamente, alcançando o número 12 milhões no final da canção. No roteiro do espetáculo, essa imagem representava a quantidade estimada de crianças que morrem na África em decorrência da fome e da AIDS.

Ao final da apresentação, Madonna desce da cruz e inicia a sua performance de Forbidden Love, uma canção que fala sobre amor proibido, numa menção suave à homossexualidade. Como complemento, há símbolos que representam os conflitos entre Israel e Palestina. Quatro dançarinos colaboram com o trecho, tendo os ícones destas regiões desenhados em seus abdomes. A canção é seguida pelas empolgantes Sorry e Like or Not, trechos onde Madonna reafirma a sua habilidade de magnetismo entre performance e público.

O bloco é encerrado com Isaac, a melhor apresentação da turnê. A personagem (uma dançarina trajada de burca azul, numa coreografia que nos remete à dança contemporânea) busca se livrar dos trajes e do espaço cerceador, numa espécie de metáfora para a opressão religiosa e masculina. No fundo, uma águia, símbolo da liberdade, é apresentada em vídeos dos telões. A canção, com base sonora que nos remete à musicalidade oriental, reflete as relações conflituosas entre Oriente e Ocidente.

No interlúdio para o bloco seguinte, o divertido Glam-Punk, a produção oferece ao público um vídeo contendo a canção Sorry como base sonora, estampado por imagens que sugerem a necessidade de mudança urgente no painel das relações geopolíticas. Além de apresentar o seu “arqui-inimigo” George W. Bush, o trecho fala sobre fome, guerra, autoritarismo, desastres ambientais e mão de obra escrava, principalmente infantil.

Ray of Ligth é a canção que abre o bloco, seguida de I Love New York e Let it Be. Após as altas doses de adrenalina compostas pelas três canções, Madonna deu uma pausa para falar sobre a sua equipe e da impossibilidade do show sem a ajuda de todos os envolvidos no espetáculo. Numa espécie de mea culpa por sua aparente arrogância e prepotência em momentos anteriores, como no documentário Na Cama com Madonna, a artista agradece ao público e aos seus músicos e dançarinos, pessoas responsáveis pelo sucesso da turnê. Esse talvez seja o momento menos emblemático em questão de espetáculo, haja vista que o ritmo é um pouco quebrado.

Ao fechar o bloco, Madonna oferece ao público outro interlúdio muito interessante. Dois dançarinos surgem no palco e representam o bullying e a violência através de uma coreografia bastante intensa. O momento “reflexão” prepara o público para o mais delirante bloco da turnê em termos de diversão: Disco, quarto e último “episódio”. La Isla Bonita, Music, Erotica e Lucky Star são apresentadas com samples de Borderline, Disco Inferno e Dancing Queen, números musicais que desaguam na maravilhosa performance de Hung Up, uma canção que toma de empréstimo a base sonora de Gimme! Gimme! Gimme!, do ABBA. No final da apresentação, o telão lança uma pergunta ao público: Have you confessed?.

Como diz o bordão, “em time que está ganhando não se mexe”. Woody Allen sabia bem disso quando manteve o diretor de arte Santo Loquasto por quase toda a sua produção cinematográfica nos anos 1980 e 1990. Madonna, ciente dos bons profissionais da sua equipe, carregou o eficiente guitarrista Monte Pittman e trouxe mais uma vez o suporte de voz de Donna DeLory, além dos teclados sob a batuta do diretor musical Stuart Price.

Entre outros aspectos positivos do espetáculo, temos os figurinos, assinados em dose dupla por Ariane Philips e pelo famoso estilista Jean-Paul Gaultier. Há referências ao ABBA e aos filmes musicais. Nesse aspecto, no que tange às referências ao cinema, em Music, Madonna apresentou-se como John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite. O trecho também referenciou Andy Warhol e à boate Studio 54, ícones da cultura pop e da urbanização nos anos 1970 e 1980.

Outro aspecto positivo do show é a estrutura: a cantora, os seus dançarinos e a sua banda apresentam-se em um palco com três elevadores e uma plataforma giratória, com uma pista central adornada por um excelente trabalho de iluminação, assinado por Leroy A. Bennet. A artista esteve mais próxima do público devido ao uso de três passarelas, duas laterais, com 14 metros de comprimento, e uma central, com 18 metros, detalhe que possibilitou maior interação do público com o espetáculo.

Falar de um show de Madonna sem tocar nas performances dos dançarinos seria algo leviano: alguns dos membros da equipe foram contratados após a gravação dos videoclipes Hung Up e Sorry, os dois primeiros materiais promocionais do álbum Confessions of a Dance Floor. Conhecida por exaurir a si mesma e aos profissionais contratados para os seus shows, sempre em busca da “perfeição” e da fidelização de seu público exigente, Madonna ensaiou 14 horas por dia, durante três meses. O resultado? Performances equilibradas, números musicais envolvendo estilos de danças diferentes, numa simbiose sem igual.

Ainda no que diz respeito aos dançarinos, Madonna propõe um jogo político com os coadjuvantes do show: flertou com a perspectiva multirracial do mundo contemporâneo e apresentou, de maneira proposital, profissionais de culturas distintas, tendo em mira a sua cartilha que preza por uma arte pop mais engajada, reflexiva e ligada às demandas de um mundo que reconfigura cotidianamente as demandas da globalização.

No eixo temático, a o show apresentou os tópicos tabus de sempre: tolerância religiosa, expressão feminina no bojo de uma sociedade machista, homossexualidade, racismo, preconceito, a fome e a AIDS na África, os malefícios da guerra, além de outros pontos tangentes como o bullying, o suicídio e a violência.

Ao tocar nas cordas sensíveis dos temas religiosos, Madonna mexeu, mais uma vez, com as “forças” do Vaticano: o Papa Bento XVI pediu que a artista fosse excomungada da Itália por blasfêmia e que as pessoas não fossem ao seu show. Não deu certo: o espetáculo teve os seus ingressos esgotados pouco tempo depois da abertura das bilheterias, alcançando um público estimado em 60 mil pessoas.

A Confessions Tour teve 34 apresentações. Começou dia 21 de maio de 2006 e terminou em 21 de setembro do mesmo ano. Elogiada pela crítica e louvada pelos fãs, o espetáculo ganhou o Most Criative Stage Production, no festival Pollystar Concert Industry Awards, além de levar o Top BoxScore, no Billboard Touring Awards. A turnê seguinte, Stick and Sweet, também foi apresentada exaustivamente ao redor do planeta e teve um imenso aparato tecnológico, mas a Confessions Tour, até os dias atuais, continua imbatível, tanto nos aspectos musicais, como em seus detalhes visuais e temáticos. A turnê subsequente, portanto, é tema para o nosso próximo texto.

Confessions Tour (2006)
Direção: Jamie King
Duração: 120 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.