Crítica | Consciências Mortas

consciências mortas plano critico

estrelas 5,0

É quase inacreditável que um filme tão curto como Consciências Mortas consiga trabalhar de maneira lúcida, madura e com uma dose bem medida e bem vinda de emoção uma série questões morais de importância não só dentro o universo do western, mas também dentro de toda a organização social que se dispõe a fazer e falar sobre justiça, independente dos meios utilizados para tal.

O roteiro do filme é baseado em The Ox-Bow Incident (1940), romance de estreia de Walter Van Tilburg Clark, e foi escrito de forma objetiva por Lamar Trotti, roteirista que já havia passado por westerns como Ao Rufar dos Tambores (1939) e O Filho dos Deuses (1940), ambos bem escritos. Sua abordagem em Consciências Mortas, todavia, foge aos parâmetros comuns do western clássico, não se importando com a criação de um herói nacional, de uma empreitada épica ou do enfrentamento entre colonos e índios. O longa é um libelo de caráter psicológico e extremamente pessimista contra a ação dos que optam por fazer justiça com as próprias mãos.

Para tornar isso ainda mais contundente, o texto nos apresenta uma base cíclica de todo o enredo, começando com dois homens (Henry Fonda e Harry Morgan) chegando a uma cidade da qual estiveram afastados por um bom tempo. Os cavalos chegam cansados e não há ninguém à vista. Um cachorro cruza a estrada e desaparece de um lado da tela. Após os os eventos ocorridos durante o longa, exatamente todas essas coisas voltam a acontecer: os mesmos dois homens partem com seus cavalos pelo mesmo caminho, não há ninguém à vista e o mesmo cachorro cruza a tela, no sentido oposto.

A estrutura narrativa cronista e a enxuta composição formal dos acontecimentos faz com que esses personagens pareçam ainda mais reais, como se fossem parte de uma reportagem qualquer, o relato comum de uma tragédia observada por dois forasteiros – tanto os protagonistas como nós, espectadores – que ao chegarem em um lugar onde já estiveram antes, se deparam com uma situação de caça humana onde a vontade de justiça é a última coisa em pauta. Junte-se a isso um fio tênue de informação, atitudes precipitadas e interesses ou fetiches pessoais ocultos e então teremos o cenário sociológico e até psicológico que dá o tom do longa.

Diante disso, é impossível não fazer uma leitura social de Consciências Mortas. O filme foi concebido para tanto, mas vai além, olha fundo na alma do cowboy, do rancheiro, do policial, do prefeito da cidade e então os inquire à distância: o que vocês querem com isso? O que querem encobrir, fingir, sublimar, esquecer e sentir ao condenarem sem julgamento pessoas que suspeitam ser culpadas por um crime?

Nas entrelinhas do tema principal, temos ainda histórias de peso acontecendo, como a complexa relação entre pai e filho; o papel de Rose (Mary Beth Hughes) em relação a seu esposo e o antigo amante; a amizade entre Gil e Art e a crítica ao sistema judiciário infestado de contradições, quase sempre lento, quase sempre passível de ser enganado por circunstâncias atenuantes forjadas e quase sempre ineficiente. Em Consciências Mortas, William A. Wellman orquestra essas questões com densidade cada vez maior, partindo da insatisfação e motivos pessoais do povo de uma cidade para realizar algo que denominam por justiça e, em contraparte, naquilo em que o mesmo povo se transforma ao tomar para si o papel de juiz, júri e executor.

A direção de Wellman é preciosa. O cineasta arranca de todo o elenco interpretações notáveis, com destaque para o mexicano interpretado por Anthony Quinn, os protagonistas de Henry Fonda e Harry Morgan, a tocante atuação do normalmente canastrão Dana Andrews e todo o elenco de apoio igualmente elogiável. A opção por cortes rápidos no início e mais lânguidos na segunda parte do filme também são um grande acerto do diretor, que juntamente com a montagem de Allen McNeil faz bom uso do tempo interno e externo da obra, separando dois momentos para estrutura do enredo (o prólogo e o epílogo) e executando com perfeição todo o miolo dramático do texto.

Consciências Mortas envelheceu bem, tanto em conteúdo quanto em significado. Desde 1998 o filme consta nos quadros da National Film Registry da Livraria do Congresso (EUA), preservado por sua significância cultural, história e estética. E não é pra menos. A obra não é somente um impressionante western psicológico ambientado em Nevada, no ano de 1885, mas também um convite à reflexão sobre a responsabilidade que temos diante de nossas mãos ou línguas quando nos dispomos a julgar alguém por alguma coisa.

Consciências Mortas (The Ox-Bow Incident) – EUA, 1943
Direção:
William A. Wellman
Roteiro: Lamar Trotti (baseado na obra de Walter Van Tilburg Clark).
Elenco: Henry Fonda, Dana Andrews, Mary Beth Hughes, Anthony Quinn, William Eythe, Harry Morgan, Jane Darwell, Matt Briggs, Harry Davenport, Frank Conroy, Marc Lawrence, Paul Hurst
Duração: 75 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.