Crítica | Conspiração Americana

Robert Redford conseguiu manter um bom nível de qualidade nos filmes que dirigiu desde a sua estreia em 1980, e assinou filmes realmente incríveis como Nada é Para Sempre e Quiz Show – A Verdade dos Bastidores. Conspiração Americana é o seu oitavo longa-metragem, e nele, o diretor e ativista político trouxe uma interessante versão sobre os eventos em torno do assassinato de Abraham Lincoln, em 15 de abril de 1865. A história aborda o julgamento dos conspiradores e o foco é direcionado para o drama de Mary Surrat, mãe de um dos integrantes do grupo que acaba sendo vítima do desmantelamento de valores constitucionais do país.

O que o roteiro de James Solomon e Gregory Bernstein deixa passar é o potencial oferecido pela história. Uma vez que a intenção não era apresentar uma reconstituição, mas entender o que aconteceu em torno do assassinato de Lincoln, os roteiristas perderam a oportunidade de problematizar o retrocesso do sistema judiciário dos Estados Unidos desde as suas primeiras décadas. Ao ficar com as migalhas que caíram desse aspecto geral, o filme se torna bastante híbrido, hora se importando com o drama materno e familiar, hora dando atenção indevida a pequenas intrigas, que num âmbito geral e por competência da direção, acabaram bem disfarçadas no meio da trama.

O grande acerto dos roteiristas está na batalha judicial entre a defesa de Mary Surrat e a promotoria. É nesse aspecto que as migalhas críticas ao sistema judiciário e ao próprio Estado aparecem. A força do enredo e o poder dos diálogos convencem e conquistam o público, criando uma estranha relação de dúvida e de piedade sobre a acusada, subvertendo e humanizando a própria ideia de justiça. Ficam muito claros os “jogos de gabinete” para uma acusação arbitrária da ré, e é impossível não estreitar relações com alguns usos midiáticos, não só nos Estados Unidos, realizados para condenar pessoas que na verdade são apenas bodes expiatórios de uma justiça de fachada.

Nas mãos de Robert Redford, esse ambiente ganha ares políticos e humanitários. O diretor foi muito feliz em orientar os setores técnicos para uma atmosfera sombria, o que aumenta ainda mais as intenções dramáticas da obra. A fotografia é o setor de maior destaque, saturando todas as cores do quadro, usando filtros de luz para alterar o que deveria ser um ambiente natural, e principalmente, apostando em focos luminosos pontuais, criando uma flutuação admirável de luz nas tomadas internas. Os figurinos de Louise Frogley são ordinários, e me faz crer que ela não consegue criar um guarda roupa de época tão bom como fizera nos filmes urbanos mais recentes como O Segredo de Berlim (anos 40), 007 Quantum of Solace e Syriana – A Indústria do Petróleo (anos 2000).

Não sou um grande admirador de Mark Isham e gostei menos ainda de sua trilha sonora para Conspiração Americana. A abordagem orquestral barata, com temas contritos e de violinos choramingando me deixaram profundamente irritado, especialmente pelo mau uso da música no filme, cuja intenção de florear as cenas mais dramáticas criou uma atmosfera estranha e incompreensível. Sem sombra de dúvida, a trilha sonora é o setor mais deficiente da película.

O escocês James McAvoy faz um excelente trabalho na pele do jovem advogado de 27 anos que é empurrado para o caso e acaba por abraçar a causa com um forte desejo de justiça. Outro destaque do elenco é Robin Wright no papel de Mary Suratt. A atriz realiza uma caracterização bem arquitetada, com alterações de humor bem convincentes e resignação perfeita diante de seu destino. A bela Evan Rachel Wood também faz um trabalho digno de nota, trazendo um rumo e uma força toda especial a partir do meio do filme.

Embora tendo desperdiçado grandes oportunidades de polemizar o tema central, Robert Redford realizou uma obra de boa qualidade, não tão alta como alguns exemplares de sua carreira, mais ainda assim, digna de ser vista. O filme lança centelhas de dúvida e amargura sobre o que é a justiça e as intenções do Estado em se manter acima dos cidadãos, independente do que tenha pela frente. Mesmo com o tom conciliador das inscrições ao final da última cena, o espectador não deixa de pensar sobre o que é um julgamento em tempos de guerra ou em tempos de paz. No final das contas, percebemos que as leis do nosso contrato social são frágeis, maleáveis e mutáveis, atendendo a interesses do poder político ou militar em voga, algo que não é preciso nenhuma conspiração para descobrir.

Conspiração Americana (The Conspirator, EUA, 2010)
Direção: 
Robert Redford
Roteiro: 
James Solomon e Gregory Bernstein
Elenco: 
James McAvoy, Evan Rachel Wood, James McAvoy, Alexis Bledel, Justin Long, Robin Wright, Tom Wilkinson, Norman Reedus, Kevin Kline, Danny Huston
Duração: 122min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.