Crítica | Doctor Who: Constant Companion e Twin Piques (Short Trips: Zodiac)

Os dois contos aqui analisados fazem parte da coletânea Short Trips – Zodiac, lançada no Reino Unido em 6 de março de 2002. Ambas as histórias são protagonizadas pelo 2º Doutor, em duas fases diferentes de sua vida e com diferentes companions. Como se trata de uma coletânea de histórias da série sobre os Signos do Zodíaco, cada um dos contos está representando uma casa astrológica aqui. A primeira história, Constant Companion, representa o signo de Leão. A segunda história, Twin Piques, representa o signo de Gêmeos.
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Constant Companion

estrelas 4,5

leao signo zodiaco doctor who

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Zoe e Marmaduke
Espaço: Planeta não nomeado / TARDIS / diversos planetas e lugares do Universo não nomeados
Tempo: Indeterminado

A fofura desse conto de Simon A. Forward é uma das coisas mais difíceis de definir, porque está aliada a um momento delicado da vida do Doutor (pouco antes de The War Games) e a uma atitude (necessária) dele que simplesmente nos faz suspirar um pouquinho, sem saber exatamente o que sentir ou pensar a respeito.

Ao abrir a porta da TARDIS para explorar um planeta desconhecido, o Doutor e Jamie param na porta e chamam a atenção de Zoe, que só consegue imaginar uma paisagem completamente absurda a ponto de ter causado aquela reação nos dois. Mas, além da paisagem curiosa (ou “não-paisagem”), o que chamou a atenção dos rapazes foi um animal de aparência felina, deixado na porta da nave. Ou melhor… abandonado [ao final do conto, descobriremos que foi por uma velha mulher telepata e “feiticeira”, com um senso ético questionável].

Para quem gosta de animais, o começo do conto já é um ponto de atenção. Há um recurso narrativo de não-linearidade no começo que não é exatamente algo interessante, mas nós deixamos passar porque o melhor da história (e que história!) ainda está por vir. Acontece que os viajantes do tempo resolvem adotar o quase-bichano (ele é um Id-Gato, na verdade) e a TARDIS parece que ganhou uma criança levada que derruba, destrói, rói e quebra tudo. E, a despeito disso, ele se torna um ótimo companion dessa fase final da vida do Doutor — fica muito claro que o Doutor, Jamie e Zoe viajam para vários lugares com o Id-Gato, batizado de Marmaduke, mas não há indicações de que ele tenha saído da TARDIS e explorado os lugares com o grupo, embora isso seja inteiramente possível, a tirarmos pelo comportamento do felino.

A trama é construída de forma eficiente e objetiva, abordando os sentimentos do Doutor (que acaba tendo as suas capacidade telepáticas ampliadas pela presença do Id-Gato) e elementos morais que ligam a necessidade do Time Lord em deixar seu companion brincalhão em um lugar seguro, já que era impossível manter uma bola de pelo completamente hiperativa e destruidora na TARDIS, sem contar o “problema da telepatia” que estava deixando o Doutor e seus outros companions meio loucos. A reflexão final, apesar de um tantinho atropelada, é muito bem escrita e fecha o ciclo com uma pergunta incômoda para o Doutor e para o leitor. Uma das mais dóceis e não necessariamente “seguras” despedidas de um companion que eu já vi.

Short Trips: Zodiac — Constant Companion (Reino Unido, 2002)
Autor: Simon A. Forward
23 páginas

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Twin Piques

estrelas 4,5

gemeos signos zodiaco

Equipe: 2º Doutor, Jamie
Espaço: Dois planetas idênticos
Tempo: Indeterminado

Só quem teve um irmão ou irmã, ou cresceu muito próximo a algum familiar de sua idade vai entender por completo a sensibilidade e graça dessa história de Tony Keetch, que pega fundo em questões familiares, ligando-as ao poder de dois reis, Gavin XXIII e Conrad.

O Doutor está em um dos momentos mais intricados de sua timeline e o pobre Jamie não sabe, mas já se separou do Doutor, perdeu a memória de suas aventuras e agora voltou a viajar com seu amigo Time Lord novamente. Uma bagunça sem tamanho. Mas mesmo com essas idas e vindas, a ótima relação entre os dois permanece e é muitíssimo bem retratada por Tony Keetch, que tenta fazer uma aproximação do núcleo central da história com a amizade fraterna entre Jamie e o Doutor. A partir desses laços humanos é que vemos a trama se ajustar e ganhar corpo, trazendo uma grande surpresa a cada página.

Em certo momento da história eu pensei, apesar de estar gostando do que lia: “isto aqui vai terminar de uma forma anticlimática“. E realmente dava a impressão de que a história caminharia para algo nesse sentido, mas Tony Keetch nos engana com uma facilidade enorme. A inicial história dos planetas gêmeos, dos irmãos gêmeos e dos governos gêmeos liderados por indivíduos diferentes, mas iguais — à exceção de um bigode — é apenas uma parte da trama. O autor capturou bem a mania de querer cavar respostas do 2º Doutor (e todas as suas encarnações, convenhamos), elencando algo ao final que só pode representar uma lembrança do Doutor ao seu irmão Braxiatel.

O mais interessante é que há cenas de pura diversão, no melhor estilo “aproveitar o dia”. Como o próprio Doutor observa, no início da trama, este foi um dos poucos momentos em que ele apareceu em um lugar e não foi preso, socado ou ameaçado. O conto tem ainda descrições precisas do lugar e dos costumes de ambos os planetas (dá uma fome enorme lendo a história!) e um dos melhores diálogos que podemos ler entre o Doutor e um companion:

__ You know, I spent last night with the princesses…

The Doctor coughed.

__ Now, Jamie, you’re a grown lad and I can’t stop you doing… Just be glad the King didn’t find out…

__ No, Doctor, the lassies took me up the hill and showed me their constellations.

The Doctor looked uncomfortable.

Para irmãos ou parentes que compartilharam a infância e cresceram brigando, Twin Piques é o perfeito exemplo em Doctor Who para uma leitura em conjunto. Aqui não há aliens, mortes sangrentas nem nada do tipo. Mas há ódio, amor, vingança e… infantilidade. Sim, essa é a palavra. Como em qualquer relação entre irmãos.

Short Trips: Zodiac — Twin Piques (Reino Unido, 2002)
Autor: Tony Keetch
25 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.