Crítica | Constantine 1X01: Non Est Asylum

estrelas 3,5

Após uma adaptação para as telonas em 2005, que também optou pelo nome Constantine, Daniel Cerone e David S. Goyer optaram por realizar algo mais aproximado dos quadrinhos. A proposta seria entregar o John Constantine dos quadrinhos, tanto em aparência quanto em personalidade e, acima de tudo, trazer o distinto tom da obra original para as telinhas. A série, contudo, já veio com alguns empecilhos desde seus estágios iniciais. A começar, não mais veríamos o hábito fumante do protagonista, algo que foi recebido com muita negatividade por qualquer um que conheça o personagem – e com razão, afinal, esse é um marcante traço da personalidade de John, definidor na construção de sua imagem. Complicando ainda mais a situação, tivemos um piloto (que não foi ao ar oficialmente) com uma recepção nada positiva, que levou Cerone e Goyer a optarem por outra via criativa, dispensando a personagem Liv Aberdine, interpretada por Lucy Griffiths.

De fato, tal escolha pouco teve a ver com a interpretação da atriz, que cumpre seu papel como ponto de identificação com o espectador. Através dela, somos inseridos nesse universo de anjos e demônios. O que realmente definiu sua saída foi a estrutura óbvia que a narrativa assumiria através dela, algo deixado claro logo neste primeiro episódio e chegaremos neste ponto em breve.

A projeção é iniciada com o protagonista em uma instituição mental – ele mesmo decidiu se internar para esquecer algo, alguma coisa que deixara uma profunda cicatriz. Constantine, porém, não consegue se isolar por muito tempo e logo uma das pacientes do hospital psiquiátrico é possuída, forçando-o a agir. Dito isso, o exorcista volta à ação. Através desses momentos iniciais já podemos definir os traços principais da personalidade de John. É um homem fechado, sim, mas ele não deixa seu humor se esconder e constantemente traz algumas piadas para a cena que se encaixam organicamente dentro da proposta e rapidamente criam um elo entre o público e o personagem. Grande parte do mérito vai para Matt Ryan e seu sotaque irlandês, que emprestam ao personagem um constante ar de sarcasmo, que, hora ou outra, acaba se transformando em seriedade.

Ao sair da instituição, John decide ir atrás de Liv Aberdine, filha de um amigo próximo que morrera há pouco tempo. Uma promessa fora feita para proteger a garota e o exorcista pretende cumpri-la, especialmente quando ela passa a ser perseguida por um demônio. Nesse ponto, entramos em um aspecto bastante estranho do episódio, algo que quebra nossa imersão a cada sequência. Trata-se do ritmo oscilante da narrativa, que não sabe intercalar com eficácia os momentos de calmaria com os mais agitados. Vemos um excesso de ataques demoníacos, seguidos de elipses que nos levam para uma maior tranquilidade que é logo quebrada. Dessa forma, o episódio cria uma atmosfera irreal, que não dá espaço para os personagens se desenvolverem de forma mais sólida.

Felizmente, a estrutura acaba se consertando automaticamente na segunda metade do capítulo e, nesse momento, observamos, de relance, o rumo que a série poderia tomar. Nos é revelado o dom de Liv de identificar os locais onde ocorrerá um ataque demoníaco, rapidamente criando a ideia de que ela serviria, a cada episódio, para levar John ao local onde ele, de fato, trabalharia. Felizmente essa estrutura foi, parcialmente, deixada de lado, ainda que signifique uma subutilização da personagem que, como dito anteriormente, estava cumprindo seu papel. Piorando um pouco mais a situação, estão as cenas “extras” filmadas ao fim do capítulo, que dão um ar de artificialidade à sua resolução, como se feito às pressas (e de fato foi).

Tais fatores, contudo, não nos afastam das qualidades evidentes da série. A primeira, como já mencionada, é a atuação de Ryan. Já as outras se dividem entre os diversos departamentos. O roteiro, por trazer um tom de mistério e sobrenatural que logo nos prende, criando uma enorme expectativa do que está por vir. A fotografia ainda oscila entre diferentes linguagens: ação, terror e suspense, sabendo controlar a tensão no espectador e colocá-lo em seu cume quando necessário. Os efeitos especiais se fazem presentes somente nos momentos necessários, em geral para dar um maior espetáculo às ações de John, que, em geral, se resumem a frases em latim bem filmadas a fim de gerar a sensação de que algo realmente está acontecendo. Por fim, a arte puxa muito do noir e do terror para, sem o menor problema, nos inserir nesse universo mais sombrio, que, mesmo de dia, assume um tom mais melancólico.

Constantine, portanto, é uma experiência bastante positiva, conseguindo prender a atenção de qualquer um – seja ele conhecedor de Hellblazer ou não. Já temos neste primeiro episódio não só a formação dessa vasta mitologia, como a definição da linha narrativa que a temporada seguirá. Por mais que tenha passado por alguns problemas de produção (que se tornam evidentes na projeção), o capítulo conta com uma notável qualidade, que faz jus à expectativa criada desde seu anúncio. Daniel Cerone e David S. Goyer acertaram no tom e na retratação do protagonista. Resta torcer para que a história mantenha ou até mesmo aumente sua qualidade.

Constantine 1X01: Non Est Asylum (EUA – 2014)
Showrunner:
Daniel Cerone
Direção: Neil Marshall
Roteiro: Daniel Cerone, David S. Goyer
Elenco: Matt Ryan, Lucy Griffiths, Charles Halford, Harold Perrineau, Jeremy Davies, Lisa Darr
Duração: 42 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.